segunda-feira, 31 de julho de 2017

A DOR DE MARIA


Terceiro ano da vida pública de Jesus

A DOR DE MARIA EM SABER QUE A HORA DA PAIXÃO HAVIA CHEGADO


“ Sim meu Filho. Sim. Eu sei. Eu não me lamento de nada. Certamente eu gostaria de estar, preferiria estar contigo, no meio da lama, exposto ao vento, ao relento, perseguida, cansada, sem telhado e sem fogão, sem pão, como Tu tantas vezes. Ainda em minha casa, enquanto Tu estás longe, e eu nem sei como estás na hora em que penso em Ti. Tu comigo, e eu contigo, Tu sofrerias menos, e eu menos sofreria. Porque Tu és meu Filho, e eu te poderia ter sempre em meus braços, e defender-te do frio, da dureza das pedras e sobretudo da dureza dos corações, com o meu amor, com o meu peito, com os meus braços. Tu és o meu Filho. Eu te segurei bem sobre o coração lá na gruta, na viagem para o Egito, e na volta de lá, sempre, quando as insídias da estação e dos homens podiam fazer-te mal. Por quê não poderia eu fazer o mesmo agora? Por acaso, não serei eu mais a tua Mãe, porque agora Tu és homem? Então, não pode mais uma mãe ser tudo para o filho, porque ele não é mais pequenino? Eu penso que, se eu estiver contigo, não te poderão fazer mal. Não. Eu sou uma tola... Tu és o Redentor... e os homens, eu já o tenho visto, não têm piedade nem mesmo da própria mãe deles... Mas deixa-me ir para perto de Ti. Tudo é melhor para mim, do que estar longe de Ti.”
“Se os homens fossem melhores, eu teria voltado para Nazaré de novo. Mas também Nazaré... Não importa. Eles virão a mim. Por enquanto, eu estou indo a outros... E não posso levar-te comigo. E não voltarei aqui, senão quando eles souberem quem Eu sou. Agora Eu vou para a Judéia. Subirei até o Templo... Depois ficarei por aquelas regiões. Percorrerei uma vez mais a Samaria. Trabalharei onde há mais coisas a fazer. Por isso, ó Mãe, Eu te aconselho a preparar-te para ir ao meu encontro no começo da primavera e a estabelecer-te perto de Jerusalém. Nós nos veremos mais uma vez, e nos veremos ainda...
Assim Eu espero. Mas, na maior parte do tempo, ficarei na Judéia. Jerusalém é a ovelha mais necessitada de cuidados, porque, em verdade, é mais teimosa do que um carneiro velho, e mais rixenta do que um bode que ficou selvagem. Eu irei semear lá a Palavra, como um orvalho que não se cansa de cair sobre sua aridez.”
Jesus se põe em pé, fica parado, olha para sua Mãe, que o está fitando com atenção, Ele abre a boca e depois sacode a cabeça dizendo: “Há ainda uma coisa a dizer, antes da última coisa... Minha Mãe, se José quiser falar-me, que esteja lá pela aurora de depois de amanhã, na estrada que de Nazaré, passando pelo Tabor, vai para Jezrael. Eu lá estarei sozinho, ou com João.”
“Eu o direi meu Filho.”
Há um silêncio, um profundo silêncio, pois os passarinhos já pararam de brigar por entre os ramos, e até o vento se calou, enquanto o crepúsculo vai-se aproximando. Depois, Jesus que parece ter procurado com dificuldade as palavras a dizer por últimas, diz: “Minha Mãe, a permanência acabou. Um beijo, minha Mãe. E a tua bênção.”
E eles se beijam e se abençoam um ao outro.
Em seguida, Jesus, inclinando-se para pegar o véu de sua Mãe, e chamando João, como que para tornar menos pesadas suas palavras, diz: “Quando fores para a Judéia, leva-me a minha veste mais bonita. Aquela que me fizeste para as festas solenes. Em Jerusalém devo ser “Mestre”, no sentido mais amplo e até mais perceptível pelos homens, visto que aqueles espíritos, fechados e hipócritas, olham mais para as exterioridades, mais para a veste do que para o interior, que é a doutrina. E assim, até Judas de Keriot ficará contente... e contente ficará José, que me verá de fato vestido com uma veste real. Oh! Será um triunfo! E a veste feita por ti contribuirá...”, e sorri sacudindo a cabeça para abrandar um pouco a verdade evidente que aquelas palavras encerram.
Mas Maria não se engana. Ela põe-se de pé, e se apóia no braço de Jesus, exclamando: “Meu Filho!”, e com uma angústia que me faz sofrer, Jesus a acolhe sobre o seu coração, e ela chora sobre o coração dele.
“Minha Mãe, Eu quis falar-te nesta hora de paz por isso... Eu te confio o meu segredo, e tudo o que Eu tenho de mais querido aqui embaixo. Nenhum dos discípulos sabe que não voltaremos mais a estes lugares, a não ser quando tudo se tiver cumprido. Mas tu... Para ti não há segredos... Assim Eu te havia prometido. Minha Mãe. Não chores. Temos ainda muitas horas para estarmos juntos. Por isso, Eu te digo: “Vem para a Judéia.” O ter-te perto de Mim, compensar-me-á por aquele trabalho da mais difícil das evangelizações, feita àqueles duros de coração, que criam obstáculos à Palavra de Deus. Vem com as discípulas da Galiléia. Vós me ajudareis muito. João proverá no que diz respeito ao alojamento para ti e para elas. Agora antes que ele volte, vamos rezar juntos. Depois, tu voltarás ao povoado, e Eu também irei de noite...”
Os dois estão rezando juntos, e estão dizendo as últimas palavras do Pai-Nosso, quando aparece João que, a meia luz, ao chegar mais perto, vê e fica espantado pelos sinais de choro sobre o rosto de Maria. Mas não fala nada sobre isso. Ele saúda o Mestre, e lhe diz: “Estarei lá pelo romper da aurora, na estrada, perto de Nazaré...”
“Vem minha Mãe. Por fora do bosque, ainda está claro, e lá embaixo a estrada está alumiada de fato pelas lanternas, que foram colocadas nos carros pelo caminho...”
Maria beija de novo a Jesus, chorando por baixo do seu véu, e depois, ajudada por João, que a segura pelo cotovelo, desce para o caminho, e logo se dirige para o vale.
Jesus fica sozinho, rezando, pensando e chorando. E Jesus continua a chorar ao ver sua Mãe que vai descendo. Depois Ele volta para onde estava antes, toma de novo a posição anterior, enquanto a sombra e o silêncio se vão tornando cada vez mais completos ao redor dele.


(de Jesus à Valtorta – O Evangelho como me foi Revelado, Vol. 7, pg. 353, 354, 355)

domingo, 30 de julho de 2017

O AMOR DE MARIA POR JESUS


TERCEIRO ANO DA VIDA PÚBLICA DE JESUS

O AMOR DE MARIA POR JESUS

E, enquanto Jesus come, ela vai tirando do saco as vestes que preparou para os meses do inverno, mais pesados, quentes, prontas para proteger contra o frio e a chuva, e as mostra a Jesus, que lhe diz: “Quanto trabalho, minha Mãe! Eu ainda tinha aquelas do inverno passado.”
“Os homens, quando estão longe de suas mulheres, devem receber tudo de novo, para não terem necessidade de consertar nada, a fim de poderem estar com tudo direito. Mas eu não estraguei nada. Este meu manto é o teu, mais curto e tingido de novo. Para mim ele ainda está bom. Mas para ti ele não servia mais.”
“Tu és Jesus...”
Dizer o que esta frase significa é impossível: “Tu és Jesus.” É uma frase simples. Mas todo o amor da Mãe, da discípula, da hebréia antiga para com o Messias Prometido, e mais ainda da hebréia deste tempo bendito, que já possui Jesus, tudo isso está naquelas poucas palavras. Se a Mãe se tivesse prostrado, adorando o seu Filho como Deus, não teria usado mais do que de uma forma ainda limitada, como forma de sua veneração. Mas nestas palavras há mais do que uma adoração formal, de joelhos que se dobram, de uma coluna que se curva, de uma fronte que toca no chão, pois aqui está todo o ser de Maria, a sua carne, o seu sangue, a sua mente, o seu coração, o seu espírito, o seu amor, que adora totalmente, perfeitamente o Deus-Homem.
Eu nunca vi uma coisa mais grandiosa, mais singular do que estas adorações de Maria ao Verbo de Deus, que é o seu Filho, mas que ela sempre se lembra de que é o seu Deus. Nenhuma daquelas criaturas, que foram curadas ou convertidas por Jesus eu vejo virem adorar o seu Salvador, nem mesmo as mais amorosas, nem aquelas que, sem o perceberem estão sendo teatrais, sob o ímpeto do amor, nenhuma delas pode amar totalmente, mas sempre como umas criaturas às quais sempre falta alguma coisa para serem perfeitas. Maria ama mais do que uma criatura. Oh! É de fato a filha de Deus imune da culpa! Por isso é que pode amar assim!... E fico pensando no que é que o homem perdeu com o Pecado original... E fico pensando no que foi que Satanás nos roubou, ao fazer cair os nossos progenitores. Ele nos tirou essa capacidade de amar bem.
E, enquanto estou considerando estas coisas, olhando para a dupla perfeita, Jesus, tendo acabado de comer, deslizou de onde estava, indo assentar-se sobre a grama, aos pés de Maria, pondo sua cabeça sobre os joelhos dela, como faz um menino cansado e triste, que vai refugiar-se junto a única que o pode animar. E Maria o acaricia, passando a mão por sobre seus cabelos, e tocando de leve a fronte do seu Jesus. Parece que ela quer afugentar todos os cansaços e todos os sofrimentos que estão naquele seu Filho, com as suas carícias. Jesus fecha os olhos e Maria para de fazer aquelas carícias, ficando com a mão posta sobre os cabelos, olhando para sua frente, pensativa e imóvel. Ela talvez pense que Jesus quer dormir. Ele está muito cansado.

(de Jesus à Valtorta – O Evangelho como me foi Revelado, Vol. 7, pg. 348, 349

sábado, 29 de julho de 2017

AS CILADAS CONTRA JESUS


TERCEIRO ANO DA VIDA PÚBLICA DE JESUS

AS CILADAS CONTRA JESUS


“Vós pensáveis talvez que, se me fizésseis perguntas, Eu estivesse contra a Lei. E foi para isso que Me viestes procurar. Ide dizer a vós mesmos e a quem vos mandou que Eu vim aperfeiçoar a Lei, e nunca para Me manifestar contra ela. Dizei a vós mesmos e aos outros que aquele que prega o Reino de Deus certamente não pode ensinar que o Reino de Deus, haveria horror, e que por isso não poderia ser bem recebido. Dizei também a vós e aos outros que se lembrem do Deuteronômio: “O Senhor teu Deus suscitará, do meio de tua nação e dos teus irmãos, um profeta. Escuta-o.” Assim foi que tu pediste ao Senhor teu Deus lá no monte Horeb, quando disseste: “ Que eu não ouça mais a voz do Senhor meu Deus, e não veja mais este fogo tão grande, e não morra.” E o Senhor me disse: “ Eles falaram bem, e Eu suscitarei para eles, do meio de seus irmãos, um profeta semelhante a ti, e porei as minhas palavras em sua boca, e ele dirá tudo o que Eu lhe tiver ordenado. E, se alguém não quiser ouvir as palavras que Ele vai dizer em meu Nome, Eu me vingarei disso.”
Deus nos mandou o seu Verbo, para que Ele falasse, sem que sua voz vos matasse. Tudo estava já dito por Deus ao homem, por mais que o homem já não merecesse mais ouvir a palavra de Deus. Assim foi que eles fizeram, tanto com a Lei de Deus, como com os profetas. Mas muito ainda havia de ser dito, e contudo Deus o reservou para ser dito pelo seu Profeta, quando chegasse o tempo da Graça, por Aquele que foi prometido ao seu povo, no meio do qual está a palavra de Deus, e no qual se realizará o perdão. Como fundador do Reino de Deus, Ele codificará a Lei com seus novos preceitos de amor, porque o tempo do amor chegou. E não pedirá vingança ao Altíssimo para quem não o escutar, mas somente que o fogo de Deus derreta o granito dos corações, e a Palavra de Deus possa penetrar neles e fundar entre eles o Reino, que é o Reino do espírito, assim como o Rei desse Reino será um Rei espiritual. A todo aquele que amar o Filho do Homem, o Filho do Homem lhe dará o Caminho, a Verdade e a Vida, a fim de ir para Deus, para conhecê-lo e alcançar a Vida Eterna. A todo aquele que aceitar a minha palavra, abrir-se-ão fontes de luz, pelas quais conhecerão o sentido escondido nas palavras da Lei e verão que as proibições não são ameaças, mas convites de Deus, que quer ver os homens felizes, e não condenados, abençoados e não amaldiçoados.
Uma vez mais, de uma coisa já decidida, do modo como a santidade não a teria decidido, vós fizestes um tribunal inquisidor para me apanhardes em pecado. Mas Eu sei que não estou pecando. E não tenho medo de dizer que o meu pensamento é este: o homem homicida pecou, primeiro com a desonra, e depois com a morte, por ter feito do ganho a meta de sua vida. A mulher pagou com a morte o seu pecado, e isto vos causará espanto, mas assim é, e a sua confissão, com a intenção de levar o marido a ter piedade do inocente, diminuiu o seu castigo, aos olhos de Deus. Os outros, tu e tu, e quem fugiu sem ter piedade nem do filho dele, sois mais culpados do que os dois primeiros. Estais murmurando? Vós não expiastes com a morte, e em vós não havia os atenuantes do marido traído, nem existem os atenuantes de ter sido deixada a mulher e da confissão que ela fez. E todos vós pecastes, todos, menos a nutriz do inocente. Aquilo de rejeitar o inocente como um mal vergonhoso. Vós soubestes matar o homicida.  Teríeis sabido matar também os adúlteros. Tudo o que é uma justiça severa, vós o soubestes fazer, e o teríeis sabido fazer. Mas ninguém soube, nem sabe abrir os braços para acolher o inocente, mas vós não sois responsáveis completamente. Vós não sabeis... Nunca sabeis, o que deveria ser feito... E nisso estão os vossos atenuantes.
Quando este discípulo de Gamaliel veio a Mim, disse-me: “Querem interrogar-te sobre um fato do qual ficaram várias consequências.” As consequências são o inocente. E então? Agora, que sabeis qual o meu pensamento, ireis mudar o vosso nos pontos em que ele pode ainda ser mudado? A este homem Eu disse. “Eu não julgo. Eu perdôo” e Gamaliel disse: “ Só Jesus de Nazaré julgaria com justiça neste caso.” Eu, como já disse a este homem, teria aconselhado a todos, Eu disse todos, que esperem para condenar somente depois de um atento exame, e depois que as paixões estiverem acalmadas. Muitas coisas podiam ser mudadas, sem ofensas à Lei. O que aconteceu, já aconteceu. E Deus perdoe a quem se arrependeu, ou ainda vai-se arrepender do que fez. Não há mais nada a dizer, ou melhor, tenho ainda uma coisa. Deus vos perdoa mais uma vez por haverdes tentado o Filho do Homem.”

(de Jesus à Valtorta – O Evangelho como me foi Revelado, Vol. 7,pg. 316, 317)  

O DIÁLOGO DE JESUS COM FILIPE


TERCEIRO ANO DA VIDA PÚBLICA DE JESUS

O DIÁLOGO DE JESUS COM FILIPE

O primeiro que o alcança é o Filipe, que, olhando para o mesmo lado para onde Jesus está olhando, lhe diz: “Que bonita é esta vista! E Tu a estás admirando...”
“Sim. Mas Eu não estava olhando somente para a beleza dela.”
“E para que mais, então? Talvez estivesses pensando em quando Israel foi grande, como aqueles lugares para lá do Líbano e do Oriente, que, durante séculos, nos têm afligido, e ainda nos afligem, porque lá é que está o coração do poder que nos oprime com o seu Legado? Tremenda é de fato a profecia sobre um deles feita por um e mais profetas: “Esmagarei p assírio na minha terra, e pisarei nele sobre minhas montanhas. Está é a mão estendida sobre as nações... E quem poderá detê-la?... Eis. Damasco deixará de existir e dela só sobrará um montão de pedras como uma ruína... Isto é o que tocará aqueles que nos saquearam.” Assim fala Isaias! E Jeremias diz: “Porei fogo sobre os muros de Damasco, e esse fogo devorará os muros de Benadab.” E isso acontecerá quando o Rei de Israel, o Prometido, receber o seu cetro, e Deus tiver perdoado o seu povo, ao dar-lhe o Rei Messias... E isto é o que diz Ezequiel “ Vós, montanhas de Israel, estendei os vossos ramos, levai os vossos frutos para o meu povo de Israel, porque ele está para voltar... A vós Eu conduzirei de novo o meu povo e ele te possuirá como uma posse hereditária... Não deixarei mais que se ouçam contra ti os ultrajes das nações...” E os salmos cantarão com Etan Esraíta: “Encontrei o meu servo Davi e o ungi com o meu óleo santo... A minha mão o assistirá. O inimigo nada poderá contra ele... Em meu nome ele crescerá em poder... Estenderá sua mão sobre o mar, e sobre os rios a sua destra... E Eu o farei meu primogênito e o soberano entre os reis da terra”. E Salomão assim canta: “Durará tanto, quanto o sol e a lua... Dominando de um ao outro mar, e do rio até às extremidades da Terra. Adorá-lo-ão todos os reis da terra, todos os povos lhe estarão sujeitos.”
Tu és o Messias, porque em Ti estão todos os sinais do espírito e da carne, todos, os sinais dados pelos profetas. Aleluia a Ti, Filho de Davi, Rei Messias, Rei Santo!”
Aleluia!, gritam em coro, os outros, que já se reuniram com Jesus e Filipe, e ouviram as palavras deste último. E o aleluia repercute, fazendo ecos de uma garganta até outra...
Jesus, muito triste, os fica olhando. E, em resposta lhes diz:
“Mas, não vos lembrais daquilo que diz Davi sobre o Cristo, e o que de Cristo diz Isaias... Tomais o doce mel, o inebriante vinho dos profetas, mas não pensais que para ser Rei dos reis, o Filho do Homem deverá beber o fel e o vinagre e vestir-se com a púrpura do seu Sangue. E o vosso erro em não compreenderdes é por causa do amor. Eu gostaria que em vós houvesse um outro amor. Mas, por enquanto, não podereis tê-lo. Séculos de pecado estão contra os homens, a impedir sobre eles a Luz. Mas a Luz derrubará as muralhas, e entrará em vós. Vamos.”
Voltam a vereda, que haviam deixado, para subirem para ao afastado altiplano, e vão descendo, apressados, para o vale. Os Apóstolos falam uns com os outros em voz baixa.
Depois, Filipe corre para a frente, chega até perto do Mestre, e lhe pergunta: “Eu te desagradei, Senhor? Eu não queria... Estás com raiva de mim?”
“Não, Filipe. Mas Eu gostaria que, pelo menos vós, compreendêsseis.”
“Estavas olhando para lá com tanto interesse.”
“Porque Eu estava pensando em quantos lugares ainda não me tiveram presente. E não me terão... porque o meu tempo vai-se acabando. Como é breve o tempo do homem! E como é lento o homem para agir! Como o espírito sente suas limitações da Terra! Pai, seja feita a sua vontade!”
“Mas todas as regiões das velhas tribos Tu as percorreste. Mestre meu. Pelo menos uma vez Tu as santificaste, e por isso se pode dizer que tiveste em tua mão as doze tribos.”
“Isto é verdade. Portanto, vós fareis o que o tempo não me permitiu fazer.”
“Tu, que fazes parar os raios, e que fiquem calmos os mares, não poderias fazer que o tempo andasse mais devagar?”
“Eu poderia, mas o Pai no Céu, o Filho na Terra e o Amor no Céu e na Terra ardem pelo desejo de realizar o Perdão”, e Jesus mergulha numa meditação profunda, que Filipe respeita, deixando-o sozinho, e indo reunir-se com os companheiros, aos quais conta o seu diálogo.


(de Jesus à Valtorta – O Evangelho como me foi Revelado, V0l. 7. Pg. 302 e 303)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

JESUS FALA DE SUA IMINENTE PAIXÃO


TERCEIRO ANO DA VIDA PÚBLICA DE JESUS

JESUS FALA DE SUA IMINENTE PAIXÃO


“Escuta, Porfíria. Tu és uma boa mulher e uma boa discípula. Eu gostei muito de ti, desde que te fiquei conhecendo, e com muita alegria te escolhi como discípula, e te confiei o menino. Sei que tu és prudente e virtuosa como poucas. E sei que sabes calar-te. É esta uma virtude raríssima nas mulheres. Por todas estas coisas é que Eu vim falar-te em segredo, e contar-te uma coisa que ninguém sabe, nem mesmo os Apóstolos, nem Simão. Eu te conto, porque Eu preciso dizer-te como é que deves proceder para o futuro com Marziam... e com todos... Eu tenho certeza que tu irás contentar o teu Mestre no que te vou pedir, e que serás prudente como sempre...”
Porfíria que ficou vermelha como uma púrpura, ao ouvir o elogio do seu Senhor, só fica fazendo sinal de que sim, com a cabeça, muito comovida, ela que é tão tímida e habituada a ser sempre pressionada pela vontade de prepotentes, que lhe impõem suas vontades, sem saberem se ela está disposta a consentir, está por demais comovida para ser capaz de responder, com palavras, que consente.
“Porfíria... Eu não voltarei nunca mais a estes lugares. Nunca mais, até que tudo se tenha cumprido... Tu sabes, não é verdade, o que é que Eu devo cumprir?”
Porfíria, a estas palavras, deixou cair os seus cabelos, que ela ainda estava segurando recolhidos sobre a nuca com a mão esquerda, e mais do que um grito, um soluço a sufoca, e a faz levar as duas mãos ao rosto, enquanto ela cai de joelhos, gemendo. “Eu já sei, Senhor meu Deus...”, e chora com um pranto silencioso, que só se nota pelas lágrimas, que vão pingando no chão, passando pelos dedos que ela tem apertados sobre o rosto.
“Não chores, Porfíria. Para isto é que Eu vim. Eu estou pronto... e prontos estão àqueles que, a serviço do Mal, estão servindo ao Bem, na verdade, porque farão chegar a hora da Redenção. Poderia cumprir-se até agora, porque tanto Eu como eles estamos preparados... e qualquer outra coisa que aconteça ou evento que sobrevier, não serão nada mais do que... um aperfeiçoamento para o delito deles... e para o meu Sacrifício. Mas também estas horas, que ainda são muitas que virão antes daquela hora, servirão... Há ainda alguma coisa para cumprir-se e a dizer-se, a fim de que tudo o que estava para cumprir-se, segundo o meu conhecimento, seja feito... Mas Eu não voltarei mais aqui... Olho pela última vez para este lugar... e entro pela última vez nesta casa honesta... Não chores... Eu não quis ir-me embora, sem dar-te o adeus e a bênção do Teu Mestre. Eu levarei comigo Marziam. Levá-lo-ei comigo, indo para os confins da Fenícia, e depois, quando subir para a Judéia, para a Festa dos Tabernáculos. Não me faltarão meios para mandá-lo de volta, antes do inverno rigoroso. Pobre rapaz! Alegrar-se-á comigo por algum tempo. E depois... Porfíria, não é bom que Marziam esteja presente na minha hora. Por isso, tu não o deixarás partir para a Páscoa... e”
“E o preceito, Senhor?”
“Eu o desobrigo do preceito. Eu sou o Mestre, Porfíria, e sou Deus, como tu sabes. Como Deus, Eu o posso desobrigar, antecipadamente, por uma omissão assim, que nem chega a ser omissão, porque Eu ordeno por motivo justo. A Obediência a uma minha ordem já é uma licença de deixar de cumprir o preceito, porque a obediência a Deus – e esta é até um sacrifício para Marziam--, é sempre superior a qualquer outra coisa. Eu sou o Mestre. Não é bom Mestre quem não sabe meditar sobre consequências, que um esforço superior àquele que o discípulo agüenta a suportar, pode produzir nele. Também, ao querer impor as virtudes, é necessário ser prudentes, e não ficar pretendendo logo o máximo que a formação espiritual ou as forças gerais não lhe permitam fazer. Exigindo-se uma virtude ou um domínio espiritual forte demais, e até das físicas, atingidas já pela criatura humana, pode acontecer que surja uma dispersão das forças já acumuladas e uma fragmentação do indivíduo nos seus três graus : o espiritual, o moral e o físico. Marziam, pobre menino, já sofreu demais e conheceu demais a brutalidade dos seus semelhantes, até o ponto de quase odiá-los. Ele não poderia suportar o que vai ser a minha Paixão, um mar de amor doloroso, no qual Eu lavarei os pecado do mundo e um mar de ódio satânico, que procurará submergir a todos os que Eu amei, e até os mais fortes se dobrarão sob a maré de Satanás, pelo menos por um breve tempo... Mas Eu não quero que Marziam se dobre e beba daquela onda de desolação. Ele é um inocente... e me é muito querido. Eu tenho piedade, muita piedade de quem já sofreu mais do que as suas próprias forças agüentavam. Eu chamei de novo, mas outro mundo, o espírito de João de Endor...”
“Morreu João? Oh! Marziam havia escrito muitos rolos para ele... Vai ser uma nova tristeza para o rapaz...”
“Eu lhe falarei da morte de João... Eu dizia que o tirei desta vida justamente para preservá-lo do abalo emocional daquela hora, o próprio João já havia sofrido muito da parte dos homens. Por que despertar sentimentos que estavam adormecidos? Deus é bom. Ele prova os seus filhos. Mas Ele não é um experimentador descuidado... Oh! Se os homens soubessem fazer assim! Como seria menor o número das ruínas dos corações, como também simplesmente, quanto menor seria o número de perigosas borrascas nos corações... “


(de Jesus à Valtorta – O Evangelho como me foi Revelado, Vol. 7. Pg. 263, 264, 265)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

JESUS, REI DOS ESPÍRITOS


TERCEIRO ANO DA VIDA PÚBLICA DE JESUS

JESUS, REI DOS ESPÍRITOS

“Eu sabia que era para isso que me queríeis aqui. E sabia da inutilidade dos passos que estáveis dando. Cusa pode dizer o que falei a ele em Tiberiquéia. Eu vim para mostrar-vos que não tenho medo de nenhuma cilada, porque ainda não chegou a hora. E não a temerei, quando a hora da cilada já estiver sobre Mim, porque foi para isso que Eu vim. E vim para persuadir-vos. Vós, não todos, mas muitos dentre vós, estão de boa fé. E Eu devo corrigir o erro, no qual de boa fé caístes. Estais vendo? Eu não vos censuro. Não censuro a ninguém, nem mesmo àqueles que, por serem meus discípulos fiéis, deveriam saber com justiça e regular suas próprias paixões com justiça. Não te estou censurando a ti, ó justo Timoneu. Mas Eu te digo que, no fundo, em vez do teu amor que Me quer honrar, é ainda o teu “eu” que se agita e sonha com tempos melhores, nos quais possas ver feridos aqueles que te feriram. Eu não censuro a ti, Manaém, ainda que mostres ter te esquecido da Sabedoria e do exemplo, todos espirituais, que recebestes de Mim e do Batista, antes de Mim. Mas Eu te digo que também em ti existe uma raiz de humanidade, que se levanta depois do incêndio do amor por Mim. Eu não te censuro, Eleazar, homem tão justo com a velha que te foi deixada, sempre justo, mas que agora não és justo. E não te censuro a ti, ó Cusa, ainda que o devesse fazer, porque em ti, mais do que em todos aqueles que me quereis por rei, e, sua boa fé, está vivo o teu “eu”. Rei, sim, tu me queres. Não há cilada em tuas palavras. Tu não vens para pegar-me em falta, nem para denunciar-me ao Sinédrio, ao Rei, a Roma. Mas, mais do que o amor, tu achas que tudo é amor, mas não é; mais do que pelo amor, tu trabalhas para vingar-te das ofensas que o Paço Real te houver feito. Eu sou teu convidado. Deveria silenciar sobre a verdade dos teus sentimentos. Mas Eu sou a Verdade em tudo, em todas as coisas. E falo. Para o teu bem. A mesma coisa digo a ti, Joaquim de Bozram e de ti, escriba João. E de ti também, e de ti, e de ti.”
E vai mostrando este, aquele, aquele outro, sem rancor, mas com tristeza... e depois continua. “Eu não vos censuro. Porque não sois vós que quereis isso, espontaneamente. É a insídia, é o Adversário que trabalha, e vós... Vós sois, sem o saberdes, uns súculos em suas mãos. Até o amor, o vosso amor, ó Timoneu, ó Manaém, ó Joaquim, ó vós que realmente me amais, até da vossa veneração ó vós que em Mim julgais ter encontrado o Rabi perfeito, até disso, ele, o Maldito, se serve para fazer o mal. Mas Eu vos digo, como aos que não pensam como vós, mas têm suas vistas voltadas para o que desce sempre mais para baixo, até chegarem às traições e delitos, e gostariam que Eu aceitasse ser rei, Eu lhes digo: Não. O meu Reino não é deste mundo. Vinde a Mim para que Eu instaure o meu Reino em vós, e não para outra coisa. E agora deixai-me ir.”
Ao se retirar da sala, Jesus encontra João Apóstolo.
...”Que foi que te fizeram, meu Senhor? Eles te insultaram? E te bateram?”
“Não. Eles me queriam fazer rei. Um pobre rei, João. E muitos queriam fazer isso de boa fé, por um verdadeiro amor, com uma intenção boa... Mas os outros... para poderem denunciar-me e prender-me.”
“Quem são estes tais?”
“Não o perguntes.”
“E os outros.”
“Não perguntes nem o nome destes. Não deves odiar, nem criticar... eu os perdôo.”
“Mestre, havia também discípulos?”
“Não, João. E nenhum Apóstolo.”
“É verdade Senhor?”
“É verdade, João.”
“Ah! Graças a Deus por isso. Mas, por quê ainda estás chorando, Senhor? Eu estou contigo. Eu te amo por todos. Também Pedro. André, e os outros... Quando viram que eu me joguei no lago, disseram que eu estava doido, e o meu irmão dizia que eu queria morrer nos redemoinhos.
Depois é que me compreenderam, e me gritaram: “Deus esteja contigo. Vi, vai...” Nós te amamos. Mas nenhum como eu, um pobre rapaz.”
“Sim. Nenhum como tu. Estás com frio, João? Vem cá sob o meu manto...”
“Não, aos teus pés, assim... Mestre meu! Por que será que todos não te amam, como este jovem, que eu sou?”
Jesus o puxa sobre seu coração, sentando-se ao lado dele. “É porque eles não têm o teu coração de jovem.”
“Eles te queriam fazer rei? Mas não compreenderam ainda que o teu Reino não é desta terra.”
“Não compreenderam.”
“Sem falar os nomes, conta como foi, Senhor.”
“Mas tu não irás dizer que fui eu quem te disse?”
“Se assim o queres, eu não o direi.”
“Tu não dirás, a não ser quando os homens quiserem mostrar-me como um daqueles caudilhos populares. Um dia isto vai acontecer. E tu estarás lá. E dirás: “Ele não foi rei da terra, porque não quis. Porque o seu Reino não era deste mundo. Ele era o Filho de Deus, o Verbo encarnado, e não podia aceitar o que era terreno. Ele quis vir ao mundo e revestir-se com uma carne, para redimir as carnes, as almas e o mundo, mas não se submeteu às pompas do mundo e aos estímulos para o pecado, e nada de carnal ou mundano houve nele. A Luz não se deixou enfaixar pelas Trevas, o Infinito não se apegou as coisas finitas, mas sim às criaturas limitadas pela carne e pelo pecado e fez delas criaturas que lhe fossem iguais, levando os que tivessem fé nele à realeza verdadeira, e instaurando o seu Reino nos corações, antes de instaurá-lo nos Céus, onde ele será completo e eterno, estando com todos os que foram salvos”. Isto é o que dirás, João, aos que quiserem dizer que Eu sou todo homem, ou que Eu sou todo espírito, e a quem negar que Eu tenha sofrido tentação... e dor... e que eles, os homens, foram redimidos também pelo meu pranto...”
“Sim, Senhor. Como sofres, Jesus!”
“Como Eu redimo! Mas tu me consolas no sofrimento. Ao raiar da aurora partiremos daqui... E encontraremos uma barca. Tu acreditas, se Eu te disser que poderemos navegar sem remos?”
“Eu acreditaria, mesmo se Tu dissesses que poderíamos navegar sem barca.”
Os dois ficam abraçados, envolvidos no úmido manto de Jesus, e João, sentindo-se aquecido, acaba adormecendo, cansado como estava, como um menino nos braços de sua mãe.


(de Jesus à Valtorta – O Evangelho como me foi revelado, Vol. 7, pg. 249,250,255 e 256)

terça-feira, 25 de julho de 2017

A DISCÍPULA SÍNTIQUE


A CARTA DE SÍNTIQUE ENDEREÇADA A JESUS

“Síntique de Cristo ao Cristo Jesus, saudações.

O homem que te levará estas folhas é um compatriota, e prometeu-me procurar-te, deixando para o último lugar Betânia, onde deixará a carta em casa de Lázaro, se não tiver podido encontrar-te em nenhum lugar. Ele já um que está refazendo, como pode, de todos os males que recebeu, ele e os seus avós, da parte de Roma. Por três vezes Roma os golpeou, e de muitos modos, e sempre com os seus métodos. Ele, com sua argúcia grega, diz que agora está mungindo as vacas tiberinas, para fazer que elas cuspam as cabras helênicas. É fornecedor da casa do Legado e de muitas casas romanas, desta pequena Roma e grande cidade do Oriente. Além disso, depois de usar de modos refinados para com os ricos, conseguiu, de um modo astuto, com homenagens servis, para encobrir seu ódio incurável, o direito de ser o fornecedor das coortes do Oriente. Seu método, eu não aprovo. Mas cada um faz o que pode. Eu teria preferido o pão pedido pelo caminho, aos cofres de ouro que o opressor tem. E assim eu teria feito sempre, se agora um outro motivo, que não me traz vantagem, não me tivesse obrigado a imitar o grego, para os meu projetos.
Mas no fundo é um bom homem, e boa é sua mulher, suas três filhas e um filho. Eu os conheci na pequena escola de Antigônio e, tendo a mãe adoecido no começo da primavera, eu a curei com o bálsamo, e assim foi que entrei na casa deles. Muitas casas me teriam recebido com prazer, como mestra e bordadeira. Eram casas de nobres e casas comerciais, mas eu preferi esta, por um motivo que não é por ser ela uma casa de gregos. E agora te explicarei.
E te peço que tenhas dó de Zemon, mesmo que tu não possas aprovar o pensamento dele. Ele é como certos terrenos áridos, compactados na superfície, mas ótimos por baixo da crosta dura. Eu espero ter resultado, ao levantar essa crosta criada por tantas dores, e descobrir o bom terreno. Seria uma grande ajuda para a tua Igreja, sendo Zenon conhecido, e estando em ligação com muitos da Ásia menor e da Galácia, além de Chipre, Malta e até da Ibéria, onde, em todos os lugares ele tem parentes e amigos como ele, gregos e perseguidos, ou então também romanos das milícias ou das magistraturas, que serão muito úteis um dia a tua Causa.
Senhor, enquanto estou escrevendo aqui de um dos terraços da casa, estou vendo Antioquia com os seus molhes à beira do rio, o palácio do Legado na Ilha, as suas estradas reais, seus muros com centenas e centenas de torres poderosas e, se eu me virar, verei o cume do Sulpio, que está para cima de mim com suas casernas, e o outro palácio do Legado. Estou assim entre as duas manifestações do poderio romana, eu, uma pobre mulher sujeita e sozinha. Mas eles não me causam medo. Pelo contrário, eu penso que o que não pode a ira dos elementos nem a força de todo este povo revoltado, o fará a aparente fraqueza, desprezível aos olhos dos poderosos, de quem é uma força, porque possui a Deus: Tu.
Eu penso que esta força romana será a força cristã quando ela estiver conhecida, e que das cidadelas da romanidade pagã é que será preciso iniciar-se o trabalho, porque elas serão sempre as donas do mundo, e uma romanidade cristã quererá dizer uma cristandade universal. Quando será isso? Não sei. Mas percebo que assim será. Por isso eu olho com um sorriso estes testemunhos o poder romano, pensando naquele dia em que porão suas insígnias e sua força a serviço do Rei dos reis. Eu os olho como se olha para os amigos úteis, que ainda não sabem o que são, e que farão sofrer antes de serem conquistados. Mas que, quando forem conquistados, te levarão a Ti, e o conhecimento de Ti até os confins do mundo.
Eu, uma pobre mulher, ouso dizer aos meus irmãos em Ti, que quando for a hora da conquista do mundo para o Teu Reino, não será de Israel, fechado demais no seu rigorismo mosaico, irritado pelo dos fariseus e outras castas para poder ser conquistado, mas daqui, do mundo romano, das ramificações dele – os tentáculos com que essa Roma destroça todas as fés, todo amor, toda liberdade que não seja a que ela quer, e que a ela é útil, -- daqui é que deverá iniciar-se a conquista dos espíritos para a Verdade.
Tu o sabes, Senhor. Mas eu falo para os irmãos que não podem crer que também nós, os gentios, temos anseios pelo Bem. Aos irmãos eu digo que, sob esta couraça pagã, há corações desiludidos com o vazio pagão, enojados da vida que levam, porque assim é o costume, cansados como estão de ódio, de vícios e de dureza. Há espíritos honestos, mas que não sabem onde apoiarem-se para acharem uma satisfação ao seu anseio pelo Bem. Dai-lhes uma fé que os contente. Eles morrerão por ela, levando-a sempre mais para a frente, como um archote no meio da escuridão, como faziam os atletas nos jogos helênicos.
Tão convicta estou disso, que, tendo ficado sozinha, deixei Antigônio por Antioquia, certa como estava de poder trabalhar mais neste terreno, onde, como em Roma, todas as raças se fundem e se misturam, mais do que onde impera Israel. Não posso eu, uma mulher, partir para a conquista de Roma. Mas, se a Urbe me é inatingível, da filha mais bela da Urbe, a mais semelhante à mãe em todo o Orbe, é que eu lanço a semente. Sobre quantos corações ela cairá? Em quantos deles ela germinará? Por quantos ela será transportada para outros lugares, e lá ficará esperando os Apóstolos para germinar? Não sei. Não pergunto para saber. Eu faço. Ofereço ao Deus que eu conheci e que alegra o meu espírito, o meu intelecto e o meu trabalho. Neste Deus eu creio como sendo o Deus único e onipotente. Sei que Ele não decepciona a quem é de boa vontade. Isto me basta e me sustenta no trabalho.
Mestre, João morreu no sexto dia, antes das nonas de junho, segundo os romanos, quase na lua nova de tamus, conforme os hebreus. Senhor... Para que dizer-te aquilo que tu sabes? Contudo, eu o digo para os irmãos. João morreu como um justo e, para dizer a verdade sobre os seus sofrimentos, como um mártir. Eu, que o assisti com toda a piedade que uma mulher pode ter, com todo o respeito que se tem por um herói, com todo amor que se tem por um irmão. Mas isso não impediu um sofrimento tão grande, que eu, não por desgosto ou cansaço, mas por compaixão, rezava ao Eterno, pedindo que o chamasse à paz. E ele dizia : “À liberdade”.
Que palavras saiam de sua boca! Como pode um homem, que desceu até o fundo, como ele dizia, subir a um grau tão alto de Sabedoria? Oh! A morte é mesmo o mistério que revela a nossa origem, e a vida é o cenário que esconde esse mistério. Um cenário, que se apresenta a nós, não em desenhos, e sobre o qual podemos fazer o que quisermos. Sobre isso ele havia escrito muitas coisas, mas nem todas bonitas. As últimas, porém, foram sublimes. Do céu, embaçado por baixo, sobre o qual havia desenhos de dor humana e de humana violência, como um sábio artífice, ele tinha passado a sinais sempre mais luminosos, ornando com virtudes o restante de sua vida cristã, e terminando na luminosidade fulgente de uma alma perdida em Deus. Eu te digo: não falou, mas cantou o seu último poema. Não morreu, mas surgiu. Nem eu poderia distinguir com exatidão quando era ainda o homem que estava falando, ou quando já era o espírito filho de Deus que falava.
Senhor, Tu sabes que eu li todas as obras filosóficas, a fim de procurar um alimento para a alma ligada pelas duplas correntes da escravidão e do paganismo. Mas elas eram obras de homens, eram palavras de super-homens, de espíritos reais, de espíritos semi-divinos. Eu velei sobre o mistério, que não teria sido compreendido de outro modo por aqueles que nos hospedavam: bons com o homem, mas israelitas no mais amplo e completo sentido do nome... E quando, nos últimos gestos de amor, o João não era mais do que um amor falante, eu afastei a todos e recolhi sozinha o que Tu certamente sabes...
Senhor... aquele homem morreu, saiu finalmente da carne, e foi para a liberdade, como ele dizia, com aquele fio de voz dos últimos dias, e com o olhar aceso em êxtase, apertando-me a mão, e revelando-me o Paraíso com suas palavras. Aquele homem morreu ensinando-me a viver, a perdoar, a crer e amar. Ele morreu, preparando-me para o último tempo de tua vida. Senhor eu sei tudo. Ele me havia instruído sobre os Profetas nas tardes de inverno, eu conheço o Livro como uma verdadeira israelita. Mas sei também aquilo que o Livro não especifica. Mestre meu e meu Senhor... eu o imitarei! E eu quereria o mesmo favor, mas penso que seja mais heróico não pedi-lo, e fazer a tua vontade...
João morreu depois de ter feito toda a purificação, até a última, dando o perdão àqueles que, com seu modo de agir, o mataram, e te constrangeram a afastá-lo. João me revelou isso, ao dizer: “Desconfia sempre dele. É um traidor. Ele me traiu, trairá a Ele e aos seus companheiros. Mas eu perdôo ao Iscariotes, como Ele o perdoará. É já tão grande o abismo em que ele se meteu, que não quero torná-lo mais profundo com meu ato de deixar de perdoá-lo, por me ter matado, ao separar-me de Jesus. O meu perdão não o salvará. Nada o salvará, porque ele é um demônio. Eu não deveria dizer isso, eu que fui um assassino, mas eu tinha pelo menos recebido uma ofensa, que me fez enlouquecer. Ele ataca a quem não lhe fez mal, e acabará traindo ao seu Salvador. Mas eu lhe perdôo, porque a bondade de Deus fez de sua raiva contra mim o meu bem. Estás vendo? Eu expiei tudo. Ele, o Mestre, disse a mim ontem a tarde. Eu expiei tudo. Agora estou saindo do cárcere. Agora estou verdadeiramente na liberdade, livre também do peso de me ficar lembrando do pecado de Judas de Keriot, contra um infeliz, que havia encontrado a paz junto ao seu Senhor.”
Eu também, seguindo o exemplo dele, o perdôo, por me ter arrancado de Ti, da Mãe bendita, das irmãs discípulas, que te ouvíamos e seguíamos até a morte, a fim de estarmos presentes no teu triunfo de Redentor. Eu o faço por Ti, em tua honra e para aliviar os teus sofrimentos, Fica em paz, meu Senhor. O nome do opróbio que está entre as filas dos teus seguidores não sairá de meus lábios e com ele não sairá nada de tudo o que eu ouvi de João, quando o seu “eu”falava com a Tua invisível e confortadora Presença. Eu fiquei na dúvida se devia ir a Ti, antes de ir para a nova morada. Mas achei que me teria traído com horror pelo Iscariotes, e que te teria prejudicado, diante dos teus inimigos. Fiz um sacrifício até desse conforto, certa de que o sacrifício não ficará sem fruto e sem prêmio.
Mas sei também o que o Livro não especifica, isto é, que a Tua paixão não tardará a cumprir-se, visto que João morreu, e tu lhe prometeste uma curta parada no Limbo. Ele o disse a mim. Ele me disse que Tu lhe havias prometido tirá-lo, antes que ele conhecesse como e até onde pode chegar o ódio de Israel contra Ti, e isso para impedir, que, por amor a Ti, ele odiasse os teus torturadores. Agora ele morreu... e Tu portanto estás perto de morrer... Não. De viver. Verdadeiramente de viver, com a tua Doutrina, estando Tu mesmo em nós, com a Divindade em nós, depois que o Teu Sacrifício nos der a vida da alma, a Graça, a união com o Pai, com o Filho e o Espírito Santo.
Mestre, meu Salvador, meu Rei, meu Deus... forte é a minha tentação, ou melhor, foi forte, de ir ao Teu encontro, agora que João está com o seu corpo no sepulcro, e repousa com o espírito na espera. Ir ao Teu encontro para estar com as outras pessoas, ao lado do Teu altar. Mas os altares serão ornados não somente com a vítima, mas com grinaldas, em honra do Deus, por cujo amor se celebra o Sacrifício. Eu ponho a minha grinalda roxa, grinalda de discípula distante, aos pés do Teu altar. Ai eu coloco a obediência, o trabalho, o sacrifício de não poder ver-te e ouvir-te... Ah! Isso vai ser bem duro! É bem duro, agora que terminaram os teus colóquios sobrenaturais com João, e eu não posso mais ter o prazer de ouvi-los!... Senhor, levanta a Tua mão sobre a tua serva, para que ela saiba fazer somente a Tua vontade, e Te saiba servir.
Aqui o querer, não sei distinguir onde que cessa o que é dos homens e começa o que é de Deus, porque não sou sábia, aqui o querer, mais forte do que o meu desejo, me arrastou, e talvez isso não tenha sido tudo vontade de Deus. O certo é que, quase seguramente por uma graça do céu, eu já amo esta cidade que, com os cumes do Cásio e do Amã a velar por ela de dois lados, e as cristas verdes das montanhas negras, lá mais ao longe, tudo me faz lembrar da Pátria perdida. E parece-me que isso seja o primeiro passo de volta para a minha terra, e não mais um passo de peregrina cansada, que está voltando para morrer, mas de uma mensageira de vida, que vem dar vida a quem foi sua mãe.
Parece-me que daqui como uma andorinha descansada para voar, e nutrida pela sabedoria, eu deva voar para a cidade, onde eu vi a Luz, e da qual eu quero, quereria subir a Luz, depois de ter dado a Luz que me foi dada.
Os meus irmãos em Ti, eu sei, não aprovariam este pensamento. Querem somente para eles a Sabedoria. Mas estão errados. Um dia compreenderão. Um dia compreenderão que o mundo está esperando, e que o mundo desprezado será o melhor. Eu preparo o caminho para eles. Não aqui somente, mas com todos os que vão a frente, e voltam para outros lugares, e eu não distingo nem se são gentios ou prosélitos, gregos ou romanos, nem se são do Império ou da Diáspora. Eu falo, excito a vontade de conhecer-te. O mar não é feito só de uma nuvem que se descarrega. É formado por nuvens, nuvens e mais nuvens, que se descarregam sobre a terra e tornam a ser derramadas no mar. Eu serei uma das nuvens. O mar será o cristianismo. Quero multiplicar o conhecimento de Ti, para contribuir na formação do mar do cristianismo. Eu, uma grega, sei falar aos gregos, não somente na língua deles, mas à compreensão deles. Eu, que já fui escrava de romanos, sei trabalhar os romanos, sujos pontos sensíveis eu conheço. E, pelo fato de ter vivido entre hebreus, sei como tratar com eles, especialmente aqui onde os prosélitos são numerosos. João morreu pela Tua glória. Eu viverei pela Tua glória. Abençoa os nossos espíritos.
E agora, depois de falar de outros, vou falar de mim. Deixei Antigônio, depois do sepultamento de João. Não porque me maltratassem. Mas porque eu percebi que não era o meu lugar. Por quê eu percebi? Não sei. Mas eu percebi. Como eu te dizia, eu tinha conhecido muitas famílias, porque muitos haviam vindo anos. E preferi ir colocar-me perto da família de Zenon, justamente porque ela está no ambiente onde espero trabalhar.
Uma mulher romana me queria em sua esplêndida casa, perto das Colunatas de Herodes. Uma síria riquíssima me convidava para ser mestra na oficina de tecidos que seu marido de Tiro, implantou na Selêucia. Uma viúva prosélita, mãe de sete meninas, moradora de perto da ponte Selêucia, me queria por respeito ao João, mestre dos meninos, uma família grego-assíria, com empórios em uma estrada perto do Circo, me pedia que eu fosse morar com ela, porque no tempo dos jogos, eu podia ser-lhe útil. Finalmente, um romano, que eu acho que é centurião, mas com certeza é um militar, e que por aqui ficou, não sei por qual motivo, e que também se curou com o bálsamo, insistia para ter-me consigo. Não. Eu não queria os ricos nem os mercadores. Eu queria almas, e almas gregas e romanas, pois eu penso que com estas é que deverá ter começo a expansão da Tua Doutrina pelo mundo.
E aqui estou, na casa de Zenon, nos declives do Sulpio, perto das casernas. A cidadela está ameaçadora lá no cume. No entanto, sendo tão carrancuda como é, é melhor do que os ricos palácios do Onfolo e do Ninfeu, e lá eu tenho amigos. Há um soldado que te conhece, chamado Alexandre. É um coração simples de criança, em um corpo robusto de soldado. E o próprio tribuno, há pouco chegado aqui da Cesaréia, por baixo da sua clâmide, tem um coração reto. Em sua simplicidade rústica, ele se aproxima da verdade de Alexandre. Mas o tribuno também, que te admira como um reitor perfeito, um filósofo “divino”, como ele diz, não é hostil à Sabedoria, mas também, não pode ainda dar acolhida à Verdade. Contudo, conquistar estes e suas famílias com um mínimo de conhecimento de Ti, já quer dizer o lançamento da semente desse conhecimento no norte e no sul, porque as milícias são como os grãos agitados na peneira, ou melhor, são como as folhas secas que o pé-de-vento, que neste caso significa a conduta dos Césares e as necessidades de domínio espalhada por toda parte.
Quando virá o dia em que os teus Apóstolos, como uns pássaros que se puseram a voar, se espalharão sobre a terra, encontrarão grande ajuda, se encontrarem nos lugares do seu apostolado, um só que seja, que não ignore quem é que Tu foste. Por causa desta idéia, eu cuido dos membros dos velhos gladiadores e das feridas dos jovens gladiadores. Por isso é que eu não evito as mulheres romanas, e por isso eu suporto aqueles que me causaram sofrimento. Tudo. Por Ti. Se eu errar aconselha-me com a tua Sabedoria. Só Tu sabes, mas o sabes, que os meus erros vêm da minha incapacidade, mas não da maldade.
Senhor, a tua serva já te falou muito... mas ainda é como um nada do tudo que eu tenho no coração. Mas Tu estás vendo o meu espírito, Senhor... Quando verei o teu rosto? Quando tornarei a ver a tua Mãe e os irmãos?... Esta vida é um sonho que passa. A separação cessará. Eu estarei em Ti, e com eles, e será para mim a alegria e a liberdade, também para mim, como o foi para João.
Eu me prostro aos teus pés, meu Salvador. Abençoa-me com a tua paz. A Maria de Nazaré, às discípulas, paz e bênção. A Ti Senhor, glória e amor.”


(de Jesus à Valtorta – O Evangelho como me foi Revelado, Vol. 7, pg. 215 a 224


Obs: Calcula-se que mais de uma centena de discípulos e discípulas, foram formados até a morte de Cristo, além dos 12 Apóstolos. Síntique foi uma delas.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

QUEM NÃO VIGIAR PERECERÁ


TERCEIRO ANO DA VIDA PÚBLICA DE JESUS

QUEM NÃO VIGIAR PERECERÁ


“Desconfiai daqueles que, depois de haver-vos combatido sem motivo, de repente passam a cumular-vos com honras, e presentes. Desconfiai daqueles que louvam todas as vossas ações, e são homens que tudo louvam, isto é, louvam tanto o preguiçoso como o bom trabalhador, o homem adúltero, como o marido fiel, tanto o ladrão, como o honesto, o violento, como os mansos, e o mal fiel como o péssimo discípulo, como se estes fossem uns modelos. Fazem assim para arruinar-vos e servirem-se de vossa ruína para os seus planos astutos. Fugi daqueles que vos querem embriagar com louvores e promessas para levar-vos a praticar ações que, se não estivésseis embriagados, não aceitaríeis fazer. E, quando juraste fidelidade a alguém, não fiqueis tratando com os inimigos dele. Estes não fazem outra coisa, senão ajuntarem-se para fazer mal àquele que eles odeiam, e fazer esse mal com a vossa própria ajuda.
Abri os olhos. Eu disse: sede astutos como as serpentes, e também simples como as pombas. Porque, para tratar das coisas do espírito é santa a simplicidade. Mas para viver no mundo, sem prejudicar a si mesmo e aos amigos, requer-se astúcia para saber descobrir as astúcias de quem odeia os santos. O mundo é um ninho de serpentes. Sabei conhecer o mundo e seus sistemas. E depois, ficando como as pombas, não sobre a lama onde estão as serpentes, mas na parte alta do rochedo, conservai o coração simples de filhos de Deus. E rezai, rezai, porque em verdade Eu vos digo, que a Grande Serpente está assobiando ao redor de vós, que estais em grande perigo, e quem não vigiar, perecerá. Sim. Entre os discípulos haverá quem perece, para grande júbilo de Satanás, e uma dor infinita do Cristo.”
“Quem será Senhor? Talvez um que não é dos nossos, algum prosélito, um não da Palestina, um...”
“Não fiqueis indagando. Por acaso não está escrito que a abominação entrará como já entrou, no lugar Santo? Agora que se pode pecar até junto ao Santo, não poderá pecar alguém que seja Galileu ou Judeu entre os meus seguidores? Vigiai, vigiai, meus amigos. Vigiai a vós mesmos, vigiai o que vos dizem os outros e o que vos diz a vossa consciência. E, se estiverdes sozinhos, e não tiverdes uma luz para ver, vinde a Mim.
Eu sou a Luz.”


(de Jesus à Valtorta – O Evangelho como me foi Revelado. Vol. 7, pg. 194 e 195)  

quarta-feira, 19 de julho de 2017

DESTA VIDA NADA SE LEVA


TERCEIRO ANO DA VIDA PÚBLICA DE JESUS

DESTA VIDA NADA SE LEVA

A viúva vai na frente, mostrando qual é o caminho mais curto. Ela deixa a estrada caravaneira, para ir por uma pequena estrada, que vai subindo pelo monte, ainda mais sombreada e fresca. Mas agora estou compreendendo o motivo do desvio, quando, virando-se na sela, Sara diz: “Eis. Estes bosques são meus. São árvores estimadas. Até de Jerusalém vêm comprá-las, para fazer os cofres dos ricos. Estas são árvores antigas. Mas delas eu tenho viveiros sempre renovados. Vinde. Vede...”, e toca o burrinho para baixo, passando pelos barrancos, e para cima, indo pelos pontos mais altos, para depois, de novo ir pela estrada, por entre os seus bosques, onde de fato há faixas de terreno com árvores já bem formadas. Já boas para serem cortadas, e outras faixas onde as árvores estão ainda bem mais novas, e outras até a poucos centímetros do chão, crescendo por entre as ervas verdes e exalando os cheiros de todos os aromas das montanhas.
“Como são bonitos estes lugares. E bem conservados. Tu és uma sábia”, elogia Jesus.
“Oh!... Mas é para mim só. Com mais gosto eu cuidaria disto por um filho...”
Jesus não responde. Continuam a andar. Já se vê Afeca, dentro de um círculo de pomares com muitas árvores frutíferas.
“Aquele pomar também é meu. Tenho coisas demais para mim, sozinha!... Já era demais, quando eu ainda tinha meu esposo, e a tarde, olhávamos um para o outro, dentro de uma casa vazia demais, grande demais, diante de dinheiro demais, na contagem de mantimentos demais, e dizíamos um ao outro: “E para quem tudo isso?” E agora eu o digo ainda...” E toda a tristeza de um casamento estéril se mostra nas palavras da mulher.
“Há pobres sempre...”, diz Jesus.
“Oh! Sim. E a minha casa se abre para eles todos os dias. Mas depois...”
“Queres dizer, quando estiveres morta?”
“Sim. Senhor. Será uma dor deixar... para quem?... estas coisas que foram tão bem cuidadas.”
Jesus tem uma sombra de sorriso, cheio de compaixão. Mas responde com bondade: “Tu és mais sábia para as coisas da terra do que pata as do Céu, mulher. Tu te preocupas para que as tuas plantas cresçam bem, e não se formem clareiras em teus bosques. Tu te afliges pensando que depois elas não sejam tão bem cuidadas, como agora. Mas esses pensamentos são poucos sábios, pelo contrário, são até completamente estultos. Achas tu que na outra vida tenham valor essas pobres coisas, cujos nomes são: plantas, frutas, dinheiro, casas? E que causará aflição ver que foram descuidadas? Corrige o teu pensamento mulher, Lá os pensamentos não são os daqui, em nenhum dos três reinos. No Inferno, o ódio e o castigo fazem que fiquem ferozmente cegos. No Purgatório, a sede que têm de fazer expiação anula qualquer outro pensamento. No Limbo a feliz espera em que estão os justos não é profanada por nenhuma sensualidade. A terra ficou longe com as suas misérias. Mas está perto somente quanto às suas necessidades sobrenaturais, necessidades de almas, e não de objetos. Os falecidos que não tiveram sido condenados, só por um amor sobrenatural é que voltam à terra os espíritos deles, e a Deus dirigem as suas orações por aqueles que estão na terra. Não para outras coisas. E, quando, então, os justos entrarem no Reino de Deus, que achas que falte ainda para um que contempla a Deus? Será este miserável cárcere? Será este exílio que se chama terra? Que será? As coisas deixadas nela? Poderia o dia ter saudade de uma lamparina, que já está fumegando, quando ele está sendo já iluminado pelo sol?”
“Oh! Não!”
“E, então. Por que ficas suspirando por causa do que vais deixar?”
“Mas eu gostaria que um herdeiro continuasse a ...”
“A gozar de tuas riquezas terrenas para encontrar nelas um obstáculo para não ser perfeito, enquanto que o desapego das riquezas é uma escada para possuir as riquezas eternas? Estás vendo, ó mulher? O maior obstáculo para conseguir ter este inocente não é bem a mãe dele, com os seus direitos sobre o filho, mas o teu coração. Ele é um inocente, um triste inocente, mas sempre um inocente que, pelo seu próprio sofrimento, é querido por Deus. Mas, se tu fizeres dele um avarento, um cobiçoso, talvez um viciado, com os meios que tens, não o privaria tu da predileção de Deus? E poderia Eu, que tomo cuidado desses inocentes, ser um Mestre descuidado que, sem refletir, permite que um seu inocente discípulo se extravie? Cuida primeiro de ti mesma, despoja-te dessa humanidade ainda viva demais, livra a tua justiça dessa crosta de humanidade, que a deprime, e, então, merecerás ser mãe. Porque não é mãe somente quem gera, ou quem ama um filho adotivo e cuida dele, e o acompanha nas suas necessidades de criatura animal. A mãe deste também o gerou, mas não é mãe, porque não cuida nem da carne dele, nem do seu espírito. Mas o é, quando cuida sobretudo daquilo que no filho não morrerá mais, isto é,do espírito, e não somente do que nele morre, isto é, a matéria. E acredita, ó mulher, que quem amar o espírito amará também o corpo, porque terá um amor justo, e portanto será justo.”
“Eu perdi o filho, e o compreendo.”
“Ninguém disse isto. Que o teu desejo te leve à santidade, e Deus te ouvirá. Sempre haverá órfãos no mundo.”


( de Jesus à Valtorta – O Evangelho como me foi Revelado, Vol. 7, pg. 174 a 176)