segunda-feira, 25 de março de 2019

JESUS E AS DISCÍPULAS





JESUS E AS DISCÍPULAS

(O Evangelho como me foi revelado – Maria Valtorta – Vol.9 – Pg. 245 a 248)

OBS: Este diálogo entre Jesus e as discípulas ocorreu na casa de Lázaro, dois dias antes de ser crucificado.

“Eu vos chamei, porque nos dias futuros pouco poderemos ver-nos, e em paz. O mundo estará ao redor de nós. E os segredos dos corações têm um pudor maior do que o dos corpos. Hoje Eu não sou o Mestre. Sou o amigo. Nem todos entre vós tendes esperanças ou temores para me contar. Mas a todas agradaria ver-me com paz ainda uma vez. Então, Eu vos chamei a vós, a flor de Israel e do novo Reino, e vós, flor dos gentios que deixam o lugar das sombras, para entrar na vida. Conservai isto no coração, durante os dias futuros, que a vossa honra ao perseguido Rei de Israel, e vós, que viestes para Israel, ao Inocente acusado, ao Mestre não escutado, mitigue a minha dor.
Eu vos peço que estejais muito unidas, vós de Israel, ou que vieste para Israel. Que umas socorram as outras. As mais fortes em espírito socorram as mais fracas. As mais sabias àquelas que pouco sabem, ou não sabem nada e só têm desejos de sabedorias novas, de tal modo que o desejo humano delas, pelo cuidado das irmãs mais adiantadas, desabroche em um desejo sobrenatural da Verdade. Sede piedosas umas com as outras. Aquelas que os séculos sob a Lei divina formaram na Justiça, que elas saibam compadecer-se daquelas que o gentilismo fez ficar diferentes. Não se muda um hábito moral de hoje para amanhã, a não ser em casos excepcionais, nos quais intervém o poder divino, para operar a mudança, a fim de ajudar uma vontade muito boa. Não fiques espantadas se, naqueles que vêm de outras religiões, virdes os que ficam parados e não progridem e, as vezes, até voltam aos caminhos antigos. Lembrai-vos do próprio Israel, como ele procedeu comigo, e não pretendais ver logo nas gentias aquela docilidade e aquela virtude, que Israel não soube, ou não quis ter para com o seu Mestre.
Procurai sentir-vos irmãs umas das outras. Irmãs que a vontade de Deus quis reunir ao redor de Mim, nestes últimos tempos da minha vida mortal... Não choreis. A divina vontade vos reuniu, indo buscar-vos em lugares bem diversos. Por isso, vossos idiomas e costumes diversos pode tornar um pouco difícil que vos compreendais humanamente. Mas, na verdade, o amor tem uma única linguagem, que é esta: fazer o que o amado ensina, e fazê-lo para dar-lhe honra e glória. E nisso podereis compreender-vos todas, e aquelas que compreendem melhor ajudem as outras a entender.
Depois num futuro mais ou menos longínquo, em circunstâncias diversas, tornareis a substituir-vos pelas regiões da terra, uma parte voltando para suas regiões nativas, e outra parte indo para um exílio, que não será pesado, porque as que passarem por ele já terão chegado àquela perfeição a caminho da Verdade, que as fará compreender que não é o serdes conduzidas para cá ou para lá, o que constitui o exílio longe da pátria. Porque a verdadeira Pátria é o Céu. Porque quem está na verdade está em Deus, e tem Deus em si. E por isso já está no Reino de Deus, e o Reino de Deus não tem fronteiras, e não sai daquele Reino quem vier de Jerusalém, por exemplo, e for levado para a Ibéria, ou para Panônia, ou para as Gálias ou a Ilíria. Sempre estareis no Reino, se ficardes sempre com Jesus, ou se fordes para Jesus. Eu vim para reunir todas as ovelhas, as do rebanho paterno, as de outros, e até aquelas sem pastor, selváticas, selvagens mais do que selvagens, aprofundadas em trevas tão escuras, que não lhes permitam ver nem um jota, não da Lei divina, mas da lei moral. São povos desconhecidos, que esperam tornar-se conhecidos na hora por Mim destinada para isso, e que depois começarão a fazer parte do rebanho de Cristo. Quando? Os anos e os séculos são iguais, em comparação com o que é eterno! Mas vós sereis as antecessoras daquelas que irão, com os futuros pastores, para conduzi-los ás pastagens divinas. E o vosso primeiro campo de prova sejam esses lugares.
A pequena andorinha, que bate as asas para o vôo, não se lança de repente à grande aventura. Ela tenta primeiro um vôo, desde o beiral da casa até à videira que faz sombra no terraço. Depois ela volta ao ninho, e novamente se lança, rumo ao terraço, que fica longe dela, e volta. Depois, se lança de novo, até mais longe, até perceber que já se tornou mais forte o músculo da asa, e firme a sua orientação, e, então, ela já vai brincar com os ventos e com o espaço, vai e volta chilreando, perseguindo os insetos, dando vôos à flor d`água, subindo de novo rumo ao sol, até, na época certa, ela abre com segurança as asas para o longo vôo pelas regiões mais quentes e ricas de novos alimentos, e nem tem medo de atravessar os mares, ainda que ela seja tão pequenina, um pontinho de aço brunido, perdido entre as duas imensidades azuis do mar e do céu, um pontinho que lá se vai, sem medo, enquanto que antes ela tinha medo do pequeno vôo do beiral da casa até o sarmento cheio de folhas, e com um corpo musculoso, perfeito, capaz de fender os ares, como uma flecha, a tal ponto que nem se sabe se não será o ar que a transporta com amor a esta pequena rainha dos ares, que com amor esteja indo percorrer os seus domínios. Quem é que pensaria, ao ver aquele vôo tão seguro, que tira proveito dos ventos e da densidade atmosférica, para ir, com tanta velocidade, lembrando-se do seu primeiro e inexperiente vôo, cheio de medo?
Assim será convosco. E assim convosco seja. Convosco e com todas as almas que vos imitarem. Ninguém se torna capaz de repente. Não se desanime pelos primeiros fracassos. Nada de soberba pelas primeiras vitórias. As primeiras derrotas servem para que se trabalhe melhor nas outras vezes. As primeiras vitórias servem como estímulos para se trabalhar melhor no futuro e para persuadir-nos de que Deus ajuda as boas vontades.
Sede sempre sujeitas as pastores naquilo que é obediência aos seus conselhos e ordens. Sede sempre para com eles umas irmãs, naquilo em que podeis ajudar na missão e no apoio a eles em seus trabalhos. Dizei isso também àqueles que hoje aqui não estão presentes. E dizei-o àquelas que virão no futuro. E, tanto agora, como sempre sede como umas filhas para com minha Mãe. Ela vos guiará em tudo. Pode guiar as mocinhas, como as viúvas, tanto as esposas como as mães, tendo Ela conhecido todas as consequências de todos os estados por experiência própria, além de por uma sabedoria sobrenatural. Amai-vos e amai-me em Maria. Não errareis nunca, porque Ela é a árvore da vida, a Arca viva de Deus, a forma de Deus, na qual a Sabedoria fez a sua sede, e a Graça se fez Carne.
E agora que Eu falei em geral, agora que Eu vos vi, desejo ouvir as minhas discípulas, e as que são as esperanças das discípulas futuras. Eu fico aqui. Aquelas dentre vós que querem falar-me, que venham. Porque não teremos mais nenhum momento de íntima paz semelhante a este.”

O EVANGELHO COMO ME FOI REVELADO – MARIA VALTORTA

domingo, 24 de março de 2019

A ÚLTIMA TENTATIVA PARA SALVAR JUDAS





A ÚLTIMA TENTATIVA PARA SALVAR JUDAS


(O Evangelho como me foi revelado – Maria Valtorta – Vol 9 Pg. 237 a 243)

Quando estão longe da cerca, a tal ponto que ninguém que estivesse no jardim de Lázaro pudesse ouvir nem uma palavra, Jesus diz:
“Ouviste o que disse aquele servo? Ele é um camponês. Já é muito se ele já sabe ler alguma palavra... E no entanto as palavras dele teriam podido estar sobre os meus lábios, sem que o meu modo de falar de Mestre parecesse tolo. Ele percebe que é necessário velar para que os inimigos do espírito não desgastem o espírito... Eu... por causa deles é que te conservo perto de Mim, e tu me odeias por causa disso. Eu te ofereço o meio de te salvares, e ainda o podes fazer, e tu me odeias. Eu de digo mais uma vez: vai-te embora, Judas. Vai para longe. Não entres em Jerusalém. Tu estás doente. Não é mentira dizer que tu estás muito doente, e que não podes participar da Páscoa. Terás a Páscoa suplementar. É permitido pela Lei fazer a Páscoa suplementar, quando uma doença ou outro motivo grave impedem que se faça a Páscoa solene. Eu pedirei a Lázaro – ele é um amigo prudente, e nada perguntará – que te leve hoje mesmo para o outro lado do Jordão.”
“Não. Eu já te disse muitas vezes que me expulses. E Tu não quiseste. E agora sou eu que não quero.”
“Não queres? Não queres salvar-te? Não tens piedade de ti mesmo? Nem de tua mãe?”
“Deverias dizer-me: “Não tens piedade de Mim?”, serias mais sincero.”
“Judas, meu infeliz amigo, por Mim Eu não te peço. Por ti é que te peço. Olha só! Estamos aqui sozinhos. Tu sabes quem Eu sou. Eu sei quem tu és. É este o último momento de graça que ainda nos é concedido para evitar a tua ruína... Oh! Não fiques rindo assim satanicamente, meu amigo. Não te rias de Mim, como se Eu fosse louco, porque Eu falei “em tua ruína”, e não na minha. A minha não é uma ruína. Mas, a tua sim. Nós estamos sós. Eu e tu, e acima de nós esta Deus... Deus ainda não te odeia, Deus que está assistindo a esta luta suprema entre o Bem e o Mal, que disputam a tua alma. Acima de nós está o Empíreo, que brevemente se encherá de santos. Já estes estão exultantes, lá onde estão, no lugar em que nos esperam, porque já percebem que a alegria se aproxima... Judas, entre eles está o teu pai...”
“Ele era um pecador. Não está lá.”
“Era um pecador, mas não foi condenado. Por isso a alegria se aproxima, também para ele. Por que é que tu lhe queres dar uma dor, em sua alegria?”
“Não. Está livre da dor. Está morto.”
“Não!. Ele sofre de te ver culpável. Não queiras que Eu... não queiras que Eu diga esta palavra!”
“Quero sim. Quero sim. Dize-a! Eu a digo a mim mesmo, há meses. Eu condenado já estou. Nada mais se pode mudar.”
“Tudo se pode, Judas. Eu estou chorando. Não queres que as últimas lágrimas do Homem te façam gemer? Judas, Eu de peço. Pensa bem, meu amigo, a este meu pedido se une o pedido do Céu todo, e tu, e tu... Será que me deixarás pedir em vão? Pensa bem quem é que está diante de ti pedindo: o Messias de Israel, o Filho do Pai... Judas, escuta-me!... Pára, enquanto ainda o podes fazer!”
“Não!”
Jesus cobre o rosto com as mãos, e se deixa cair á beira do prado. Ele chora em silêncio. Mas chora muito. Suas costas tremem, com os soluços profundos...
Judas olha para Ele que está a seus pés,aniquilado, chorando, e preocupado em salvá-lo... e sente um momento de dó. E diz, deixando de lado aquele tom duro de verdadeiro demônio, como ele estava antes: “Não posso ir... Eu dei a minha palavra...”
Jesus levanta o rosto, com grande aflição, e o interrompe: “A quem? A quem? A uns pobres homens! É com esses, com esses é que te preocupas em parecer ficar sem honra diante deles? E a Mim não te entregaste, há três anos? E ainda ficas pensando nos comentários de um punhado de malfeitores, em vez de pensares no julgamento de Deus? Mas que é que devo fazer ó Pai, para ver renascer nele a vontade de não pecar?” Jesus abaixa novamente a cabeça com um coração dilacerado,,, Ele está até parecendo o Jesus sofredor do Getsêmani.
Judas fica com dó dele, e diz: “Eu fico. Para não sofreres assim. Eu fico... Ajuda-me a ficar! Defende-me!”
“Sempre! Sempre que tu queiras. Vem. Não existe culpa de que Eu não me compadeça e não perdoe. Dize: “Eu quero”. E Eu te terei redimido... “Jesus o tomou entre os braços, pondo-se de pé.
Mas, se o pranto de Jesus cai sobre os cabelos do Judas, a boca do Judas continua fechada. Ele não diz a palavra exigida. Nem mesmo diz: “Perdão”, quando Jesus lhe sussurra por entre os cabelos: “Olha bem se Eu te amo. Eu teria devido reprovar-te! Mas Eu te beijo. E assim Eu teria o direito de dizer-te: “Pede perdão ao teu Deus”, e Eu te peço somente que tenhas desejo do perdão. Estás muito doente. Não se pode pedir muito a quem está muito doente. A todos os pecadores que vieram a Mim, de todos Eu exigi o absoluto arrependimento para poder perdoá-los. De ti, meu amigo, Eu exijo somente a vontade de que te arrependas, e depois... Eu farei o resto.”
Judas fica calado...
Jesus o deixa ir, mas diz: “Fica aqui, pelo menos até o dia depois do sábado.”
“Eu ficarei... Voltemos para casa. Eles devem estar notando a nossa ausência. Talvez as mulheres te estejam esperando. Elas são melhores do que eu, e não deves deixá-las por causa de mim.”
“Não te lembras da parábola da ovelhinha tresmalhada? Tu és aquela ovelha... Elas, as discípulas, são as ovelhas boas, fechadas no ovil. Elas não correm perigos, ainda que Eu fique procurando a tua alma, durante um dia inteiro, para trazê-la de volta ao ovil...”
“Mas, sim! Isto mesmo! Eu estou de volta ao ovil. Vou fechar-me na biblioteca de Lázaro, para ler. Não quero ser perturbado. Não quero ver, nem saber de nada. Assim... não ficareis sempre suspeitando de mim. E se alguma coisa do que acontecer for contada ao Sinédrio, eu terei que ir procurar as serpentes entre os teus prediletos. Adeus! Eu vou entrar pela cancela principal. Não tenhas medo. Eu não fujo. Podes vir verificá-lo, quando quiseres”, e tendo-lhe virado as costas, sai de lá, dando grandes passos.
Jesus, todo de branco, com sua veste de linho, se destaca bem a beira do prado verde-avermelhado. Ele levanta os braços para o céu sereno com um rosto muito aflito e, elevando sua alma ao Pai, geme, dizendo: “Oh! Pai meu! E poderias talvez acusar-me por ter deixado de fazer alguma coisa para salvá-lo? Tu sabes que é pela alma dele, e não pela minha vida que Eu luto, a fim de impedir o delito dele... Pai! Meu Pai. Eu te suplico, apressa a hora das trevas, a hora do Sacrifício, porque é uma coisa atroz demais para Mim esse viver junto com o amigo que não quer ser redimido. É a maior das dores!” E Jesus se assenta sobre o trevo alto e macio, muito bonito, inclina a cabeça sobre os joelhos, que estão elevados e apertados pelos braços, e chora...
Jesus para de chorar. Levanta a cabeça, e fica escutando... um rumor de rodas e de chocalhos, que vem da estrada mestra, e depois cessa o barulho das rodas, mas o dos chocalhos, não.
Jesus diz: “Vamos as discípulas... Elas é que são fiéis... Pai meu seja feita a tua vontade! Eu te ofereço o sacrifício deste meu desejo de Salvador e de Amigo. Está escrito! Ele quis. É verdade. Deixa, porém, ó Pai meu, que Eu continue a minha obra por ele, até que tudo tenha acabado. E, desde agora, Eu te digo: Pai, quando Eu rezar pelos pecadores, vítimas frágeis de toda ação direta, ó Pai, recebe o meu sofrimento e minha força junto com ele, em favor da alma de Judas. Eu só te peço o que a justiça não pode conceder. Mas de Ti é que vieram a Misericórdia e o Amor, e Tu amas a estes que de Ti vieram, e que são uma só coisa contigo, Deus Uno e Trino, Santo e Bendito. Eu me darei a Mim mesmo aos meus diletos em alimento e bebida. Ó Pai, o meu Sangue e a minha Carne deverão ser, então, condenação para um deles? Ó Pai, ajuda-me! Um germe de arrependimento naquele coração! Pai, porque te afastas? Já te afastas de teu Verbo, que pede? Pai, chegou a hora. Eu sei. Seja feita a Tua vontade bendita! Mas deixa a teu Filho, ao teu Cristo, no qual, pelo teu inescrutável desígnio, a vidência certa do futuro – e Eu nem te digo que isso é uma crueldade, mas uma piedade tua para comigo – deixa em Mim a esperança de salvá-lo ainda. Oh! Pai meu! Eu o sei, Eu o soube desde que existo. Eu o soube desde quando, não só como Verbo, mas como Homem – Eu vim aqui à Terra. Eu o soube, desde quando encontrei o homem no Templo... Sempre Eu soube... Mas agora. Oh! Está me parecendo quão grande é a Tua piedade, Santíssimo Pai! Parece-me que não seja mais do que um sonho horrendo, provocado pelo comportamento dele, mas que não seja o último... o irremediável, mas que Eu possa ainda, sempre, ou que infinito é o meu sofrer, e infinito será o Sacrifício, e valha, ainda que seja para ele, alguma coisa... Ah! Eu estou delirando... É o homem que quer esperar isso! Que fujam as névoas ligeiras que, por um momento, não deixavam ver o abismo, já aberto para agarrar aquele que, prefere as Trevas à Luz... Foi de piedade o teu gesto de mo esconder. Foi de piedade o teu gesto de o mostrar-me, agora que Tu me reconfortaste. Sim, Pai. Até isso! Tudo! E Eu serei misericórdia até o fim, porque assim é o meu ser.”
Jesus reza ainda, em silêncio, de braços abertos em cruz, e seu rosto torturado se acalma sempre mais e vai tomando a aparência de uma paz majestosa. E torna-se quase luminoso, pela alegria de uma luz interior, ainda que não se veja o seu sorriso em seus lábios fechados. É a alegria de seu espírito em comunhão com o Pai, que se revela para fora dos véus da carne e cancela os sinais que a dor escavou e pintou sobre o rosto emagrecido e espiritualizado, que cada vez mais vai-se manifestando no Mestre, quanto mais Ele se adiantou em suportar a dor, a caminho do Sacrifício. Já não é mais um rosto da terra, o rosto de Cristo nestes seus últimos tempos mortais, e nenhum artista será capaz de dar-nos aquele rosto do Homem-Deus lavrado com uma beleza sobrenatural pelo amor e pela dor, perfeitos e completos.
Jesus está de novo na porta da cinta, entra, fecha-a com o ferrrolho e se dirige para casa. O servo de antes o vê, e corre para ir tomar-lhe a grossa chave que Jesus tem nas mãos.
Ele vai para a frente. E se encontra com Lázaro: “Mestre, as mulheres chegaram. Eu as fiz entrar na sala branca, porque na biblioteca está Judas lendo e sofrendo.”
“Eu sei. Obrigado pelas mulheres. São muitas?”
“Joana, Nique, Elisa e Valéria com Plautina e uma outra amiga delas ou liberta, não sei, chamada Marcela, e uma velha que diz que te conhece: chama-se Ana de Meron, e depois Anália e com ela uma outra jovenzinha chamada Sara. Estão com as condiscípulas, e Tua Mãe e as irmãs.”
“E estas vozes de crianças?”
“Ana trouxe os filhos do filho. Joana, também os seus, e Valéria a dela. Eu as levei todas para o pátio interno.”

(O EVANGELHO COMO ME FOI REVELADO – MARIA VALTORTA)

terça-feira, 19 de março de 2019

MAIS UMA DAS MUITAS TENTATIVAS DE JESUS PARA REDIMIR JUDAS






MAIS UMA DAS MUITAS TENTATIVAS DE JESUS PARA REDIMIR JUDAS


O Evangelho como me foi revelado – Maria Valtorta – Vol. 9 – Pg. 183 a 187

...”Estás vendo Judas, como é fácil morrer. Estejamos sempre de atalaia, pois a morte está ao redor de nós. Estás vendo como o que parece de pouca importância, quando estamos cheios de vida, torna-se muito importante, gravemente importante, quando a morte se aproxima de nós. Mas, porque queres ter esses medos, e ficar criando-os para ficar com eles no momento de morrer, quando, com uma vida santa, se pode ignorar o que seria o espanto do próximo julgamento feito por Deus? Não te parece que é melhor para ti viver como os justos, para teres uma morte tranqüila? Judas, meu amigo. A divina e paterna misericórdia permitiu esse acontecimento, a fim de que ele fosse um alerta para o teu coração. Ainda estás em tempo, Judas... Por que não queres dar ao teu Mestre, que está para morrer, a grande alegria de saber que te voltaste para o bem?”
“Mas, me podes perdoar ainda, Jesus?”
“E Eu te falaria assim, se Eu não pudesse? Conheces-me ainda bem pouco! Mas Eu te conheço. Eu sei que tu estás como quem foi agarrado por um polvo gigante. Mas, se tu quisesses ainda poderias livrar-te dele! Oh! Sofrerias certamente. Tirar as correntes que te mordem e envenenam seria uma dor... Mas depois, quanta alegria, Judas! Tens medo de não teres força para reagir contra os que te sugestionam? Eu posso absorver-te antecipadamente do pecado de transgressão do rito pascal... Tu és um doente. Para os doentes a Páscoa não é obrigatória. Ora, ninguém há mais doente do que tu, acredita Judas, que o comparecimento diante do Senhor, com o espírito imundo, como o tens agora, não é honrar ao Senhor, mas ofendê-lo. É preciso primeiro...”
“Porque, então, não me purificas e curas?”...
“Eu não te curo! Quando alguém está doente, procura por si mesmo a cura. A não ser que ele seja um menininho, ou um doido, que não sabem querer...”
“Trata-me como um desses. Trata-me como um doido, e toma Tu as providências, ainda que eu não o esteja sabendo.”
“Isso não seria justo, porque tu podes querer. Tu sabes o que é bom e o que é mau para ti. E não valeria o meu ato de curar-te, sem a tua vontade de permanecer curado.”
“Então dá-me esta também.”
“Dá-la a ti? Impor a ti uma vontade boa? E a tua liberdade? Que é que ela se tornaria, então? Que é que ficaria valendo o teu eu de homem, como criatura livre? Seria um brinquedo?”
“Assim como sou brinquedo nas mãos de Satanás, poderia sê-lo nas mãos de Deus!”
“Como tu me feres, Judas! Como me transpassas o coração! Mas disso que me fazes Eu te perdôo... Brinquedo de Satanás, tu disseste. Eu não diria uma coisa tão horrível...”
“Mas pensavas nela, porque é verdadeira, e porque Tu a conheces, se é verdade que Tu lês nos corações dos homens. Se assim é, Tu sabes que eu não sou mais livre por mim mesmo... Ele me prende e ...”
“Não. Ele não se aproximou de ti tentando-te, experimentando-te, e tu o acolheste. Não existe possessão, se não houver no irmão alguma adesão a qualquer tentação de Satanás. A Serpente intromete a cabeça por entre as barreiras fincadas e colocadas em defesa dos corações, mas ela não entraria, se o homem não lhe alargasse uma passagem para ela ir admirar seu aspecto sedutor, e para ouvi-la e seguir seus passos. Se isto é que o homem é: um súcubo, um possesso, mas porque ele quer. Também Deus emite dos Céus suas dulcíssimas luzes, as do seu amor paterno, e suas luzes penetram em nós. Ou melhor, para quem tudo é possível, desce aos corações dos homens. É um seu direito. Por que é, então, que o homem, que sabe tornar-se escravo, súcubo do Horrendo, não sabe fazer-se servo de Deus, ou melhor, filho de Deus, e expulsa seu Pai Santíssimo? Não me respondes? Não me dizes porque foi que preferiste Satanás a Deus? Contudo ainda estarias sem tempo para te salvares! Tu sabes que Eu vou morrer. Ninguém, como tu, sabe disso... Eu não me recuso a morrer. Eu vou. Vou para a morte, porque a minha morte será a vida para muitos. Por que não queres tu ser um deles? Será que para ti, meu amigo, meu pobre e doente amigo, é que será inútil a minha norte?”
“Será inútil para muitos, não te iludas. Farias melhor, se fugisses e fosses viver longe daqui, gozar a vida, ensinar a tua doutrina, porque é boa, mas não te sacrificares.”
“Ensinar a minha doutrina! Mas que é que Eu ensinaria de mais verdadeiro, se Eu fizesse o contrário do que Eu ensino? Que Mestre Eu seria, se pregasse a obediência à vontade de Deus, e não a cumprisse, o amor aos homens, e depois não os amasse, a renúncia à carne e ao mundo e não dar escândalo, e depois escandalizasse, não somente os homens, mas até os anjos, e assim por diante? Por meio de ti foi o Satanás que falou neste momento. Como ele falou em Efraim, e como muitas vezes falou e agiu, por meio de ti, para me perturbar. Eu reconheço todas essas ações de Satanás, levadas a efeito por meio de ti, e Eu não te odiei, não fiquei cansado contigo, mas somente senti uma pena infinita. Como uma mãe que vigia os progressos de uma doença, que vai levando para a morte o seu filho, assim Eu vim observando o progresso que o mal vinha fazendo em ti. Como um pai que não toma como incômodo coisa alguma, contanto que encontre os remédios para o seu filho doente, assim Eu não me poupei a nada, a fim de procurar salvar-te; superei a repugnância, os desprezos, as amarguras, os desconfortos... Como um pai e uma mãe desolados, desiludidos com todos os recursos humanos, e que se voltam para o Céu para obterem a vida de seu filho, assim Eu tenho gemido, e gemo, implorando um milagre que te salve, estando tu já á beira do abismo, que já está tirando a terra debaixo dos teus pés, Judas, olha para Mim. Daqui a pouco o meu sangue será derramado pelos pecados dos homens. Dele não restará nem uma gota. Beberão dele as covas, as pedras, as ervas, as cordas, os espinhos de nabacá... e o beberão os espíritos que esperam a salvação... Será que só tu é que não queres beber? Eu, para ti somente daria todo o meu sangue. Tu és o meu amigo. E de boa vontade se morre pelo amigo! Para salvá-lo como dizem. Eu morro, mas Eu continuarei a viver no amigo, para salvá-lo. Dizem: “Eu morro. Mas Eu continuarei a viver no amigo, ao qual Eu dei a minha vida. Como uma mãe, como um pai, que continuam a viver em sua prole, mesmo depois de já terem morrido. Judas, Eu te suplico isto. Não peço outra coisa, nas vésperas de minha morte. Ao condenado também os juízes, e até os seus inimigos costumam conceder uma última graça, atendem ao último desejo dele. Eu te peço que não te condenes. Não o peço somente ao Céu, mas a ti, á tua vontade. Pensa em tua mãe, Judas. Que será de tua mãe, depois? Como ficará o nome de tua família? Eu pelo ao teu orgulho, pois ele é que está mais feroz do que nunca, e não quer defender-te para livrar-te da desonra. Não te desonres, Judas. Pensa. Passarão os anos e os séculos, cairão os reinos e os impérios, diminuirá o brilho das estrelas, mudará a configuração da terra, e tu serás sempre Judas, como Caim é sempre o Caim, se tu persistires no teu pecado. Os séculos chegarão ao fim, e só ficarão o Paraíso e o Inferno, e no Paraíso e no Inferno, para os homens que ressuscitaram julgados merecedores de ficar de alma e corpo para sempre, lá onde for justo que fiquem, tu estarás para sempre como Judas, o maldito, o maior dos culpados, se não te arrependeres. Eu descerei para livrar os espíritos do Limbo, e os tirarei em grande número do Purgatório, e tu... A ti, do lugar para onde tiveres ido não poderei tirar-te, Judas. Eu vou morrer, mas vou feliz, porque chegou a hora que Eu esperava, há muitos milênios, é a hora de reunir os homens com o Pai deles. Muitos serão os que Eu não reunirei. Mas o número dos salvos, que Eu contemplarei ao morrer, me consolará na mágoa de ter morrido inutilmente por tantos. Mas, Eu te digo, será horrível verte entre eles, a ti, meu apóstolo, meu amigo. Não me causes essa dor inumana... Eu te quero salvar, Judas. Salvar. Olha: nós estamos descendo para o rio. Amanhã ao alvorecer, quando todos estiverem dormindo, nós o atravessaremos, nós dois, e tu irás para Bozra, ou para Arbela, ou Aera, como quiseres. Tu conheces as casas dos discípulos. Em Bozra procura Joaquim e Maria, a leprosa que por Mim foi curada. Eu te darei um escrito para eles. Nele Eu direi que para tua saúde precisas de um repouso tranqüilo e de um ar puro. É verdade, infelizmente, porque tu estás doente no espírito, e o ar de Jerusalém te faria mal. Mas eles entenderão que tu estás doente de corpo. Ficarás lá, enquanto Eu não for buscar. Quanto aos teus pensamentos, Eu pensarei neles. Mas não vás a Jerusalém. Estás vendo? Eu não quis as mulheres, com exceção das mais fortes entre elas e as que, pelo seu direito de mães, devem estar perto de seus filhos.”
“A minha também?”
“Não. Ela não estará em Jerusalém.”
“Ela também é mãe de um apóstolo, e sempre te prestou honras.”
“Sim. Ela tem o direito, como as outras, de estar perto de Mim, que ela ama com uma perfeita justiça. Mas, justamente por isso, ela não estará lá. Porque Eu lhe disse que não estivesse, e ela sabe obedecer.”
“Por que é que ela não deve estar lá? Haverá alguma coisa nela que a torne diferente da mãe dos teus irmãos e da dos filhos de Zebedeu?”
“Tu sabes porque é que digo isso. Mas, se tu me dás ouvidos, se vais a Bozra, Eu mandarei avisar à tua mãe, e falarei a ela que vá contigo, para que ela, que é tão boa, te ajude a ficar são. Podes crer. Só nós é que amamos assim, sem medida. Três são os que te amam no Céu: O Pai, o Filho e o Espírito Santo, que olharam para ti e estão esperando o tua vontade para fazerem de ti a jóia preciosa da Redenção, a presa maior, arrebatada do abismo. E outros três na Terra: Eu, tua mãe e minha mãe. Faze-nos felizes, ó Judas. Nós do Céu, nós da Terra somos os que te amamos com verdadeiro amor.”
“Tu me dizes: só três são os que me amam. Os outros não.”
“Não como nós. Mas te amam muito. Eliza te defendeu. Os outros estavam preocupados contigo. Quando tu estás longe, todos te têm em seus corações e o teu nome nos lábios. Tu não conheces todo o amor que te rodeia. O teu opressor te esconde. Mas, crê em minha palavra.”
“Eu creio em Ti. E procurarei que fiques contente. Mas eu quero agir por mim mesmo. Eu errei. E agora devo saber curar-me do mal.”
“Unicamente Deus é que pode agir por si mesmo. Este teu pensamento é de soberba. Na soberba ainda está Satanás. Sê humilde, Judas. Aperta esta mão amiga, que se te oferece. Refugia-te neste coração que, para proteger-te, se abre. Aqui comigo, o Satanás não te poderá fazer mal.”
“Eu já experimentei estar contigo... Mas fui sempre descendo... É inútil!”
“Não digas isso! Não o digas! Repele esse desânimo. Deus tudo pode. Abraça-te com Deus. Judas! Judas!...”


O EVANGELHO COMO ME FOI REVELADO – MARIA VALTORTA

quarta-feira, 13 de março de 2019

PARÁBOLA DO TECIDO RASGADO





PARÁBOLA DO TECIDO RASGADO
(O Evangelho como me foi revelado – Maria Valtorta – Vol. 9-pgs.112,113 e 114)



“Eu comparo a alma a um tecido. Quando ela é infundida no homem nova e sem rasgões, só tem a mancha original, mas não tem feridas em sua estrutura, nem outras manchas, nada de puído. Depois, com o tempo, e com a acolhida dada aos vícios, ela vai-se consumindo, até chegar ao ponto em que se rompe pelas imprudências, e se mancha, e pelas desordens fica ferida. E então, quando fica lacerada, não é preciso fazer-se para ela um remendo mal feito, que dá origem a mais numerosos rasgões, mas, sim, um remendo suficientemente longo, capaz de anular, quanto possível, a ruína que foi feita. E, se o tecido estiver rasgado demais, se estiver rasgado até o ponto de ter perdido um pedaço, não se deve com soberba pretender anular  por si mesmo a ruína, mas é preciso ir a Quem pode tornar novamente inteira a alma, porque tudo lhe foi concedido fazer, tudo Ele pode fazer. Eu falo de Deus, meu Pai, e do Salvador, que sou Eu. Mas o orgulho do homem é tal, que maior é a ruína de sua alma e ele procura remendá-la com remédios incompletos, que vão criando um mal-estar sempre maior.
Poder-me-íeis objetar que um rasgão sempre se verá. Até  a Salomé já o disse. Sim, ver-se-ão sempre as feridas que uma alma recebeu. Mas a alma luta em sua batalha, e, por isso, é muito possível que seja ferida. Pois muitos são os inimigos que ela tem ao redor de si. Mas ninguém, ao ver um homem coberto de cicatrizes, sinais de outras tantas gloriosas feridas recebidas na batalha para conseguir a vitória, pode dizer: “Este homem é imundo”, mas dirá: “Este homem é um herói. Aí estão os sinais purpúreos do seu valor.” Nunca se verá um soldado que evite os curativos de uma gloriosa ferida. Pelo contrário, ele vai ao médico, e lhe diz com um santo orgulho: “Eis-me aqui. Eu combati e venci. Não me poupei, como estás vendo. Agora, cura-me, á fim de que eu esteja pronto para outras batalhas e vitórias.” Mas, ao contrário, aquele que está todo chagado com doenças imundas, que lhe foram causadas pelos vícios infames, se envergonha de suas chagas, diante dos familiares e amigos, e até diante dos médicos, e ás vezes se torna tão desvairado, que as conserva escondidas, até que o seu fedor as revele. Mas nesse ponto já é muito tarde para buscar cura. Os humildes são sempre sinceros, e também são valorosos, pois não precisam envergonhar-se das feridas provenientes da luta. Os soberbos são sempre mentirosos e vis por seu orgulho, até morrerem, sem terem querido ir a quem pode curá-los e dizer-lhe: “Pai, eu pequei. Mas, se quiseres podes curar-me”. Muitas são as almas que pelo orgulho não querem confessar uma culpa inicial e chegam assim à morte. E, então, também para elas sua chegada já é tarde demais. Não refletem como a misericórdia divina é mais poderosa e ampla do que qualquer gangrena, por mais forte e ampla que ela seja e que tudo pode ser recuperado. Mas elas, as almas dos orgulhosos, quando caem em desespero, pois elas estão sem Deus, e dizem: “Já é tarde demais, e dão a si mesmos a última morte, a condenação."


(O Evangelho como me foi revelado – Maria Valtorta)

domingo, 10 de março de 2019

JESUS DECIDI IR A BETÂNIA





547 – JESUS DECIDI IR A BETÂNIA
( 24 de Dezembro de 1946)

...” Paz! Paz! Não é verdade que são doze as horas do dia? Se alguém caminha de dia, não tropeça, porque está vendo a luz deste mundo. Mas, se ele caminha de noite tropeça, porque não pode enxergar. Eu sei o que estou dizendo, porque a Luz está em Mim. E vós, deixai-vos guiar por quem enxerga. E depois, ficai sabendo que enquanto não chegar a hora das trevas, nada de tenebroso poderá acontecer. Portanto quando chegar aquela hora, nenhuma distância e nenhuma força, nem mesmo as forças armadas de César, poderão salvar-me dos judeus. Porque o que está escrito deve acontecer, e as forças do mal já estarão operando ocultamente para completar o seu trabalho. Portanto, deixai-me agir, e fazer o bem, enquanto Eu estiver livre para fazê-lo. Chegou a hora na qual não poderei mais mover nem um dedo, nem dizer uma palavra para operar o milagre. O mundo ficará vazio, sem a minha força. Será uma hora tremenda de castigo para o homem, mas não para Mim. Para o homem que não terá querido me amar. É uma hora que se repetirá pela vontade do homem que terá rejeitado a Divindade, até o ponto de fazer de si mesmo um semi-deus, um sequaz de Satanás e do seu filho maldito. A hora que virá, quando estiver próximo o fim deste mundo, a falta de fé, que impera tornará mulo o meu poder de milagre. Não porque Eu o possa perder. Mas porque o milagre não pode ser concedido onde não houver fé e vontade de obtê-lo, onde do milagre se fará um objeto de escárnio e um instrumento do mal, usando o bem para fazer um mal maior. Agora posso ainda fazer o milagre e fazê-lo para dar glória a Deus. Vamos, pois, ao nosso amigo que está dormindo, vamos despertá-lo deste sono, para que esteja bem disposto e pronto para servir ao seu Mestre.”
“Mas, se ele está dormindo, tudo bem. Acabará ficando curado, o sono já é um remédio. Para que ir despertá-lo?”, ponderam eles.
“Lázaro está morto. Eu esperei que ele morresse para ir até lá, não por causa de suas irmãs, nem dele. Para que acrediteis. Para que cresçais na fé. Vamos a Lázaro.”
“Está bem. Então vamos. Morreremos todos, como ele morreu, e como Tu queres morrer”, diz Tomé, como um resignado fatalista.
“Tomé, Tomé! E vós todos que em vosso interior tendes críticas e resmungos, ficai sabendo que quem quiser seguir-me deve ter para com a vida o mesmo cuidado que tem o passarinho para com a nuvem que passa; deixá-la passar, de acordo com o vento que a impele. O vento é a vontade de Deus, e pode dar-vos ou tirar-vos a vida, a seu prazer, e vós não tendes de queixar-vos disso, como não se queixa o passarinho da nuvem que passa, mas continua a cantar do mesmo modo, pois tem a certeza de que depois voltará o tempo sereno. Porque a nuvem e o incidente, e o céu é a realidade. O céu fica sempre azul, mesmo se as nuvens parecerem torná-lo cinzento. Ele é e permanece azul acima das nuvens. Assim acontece com a Vida verdadeira. Ela é e continua a ser, mesmo quando a vida humana cessa. Quem quer seguir-me não deve conhecer o que é a ânsia pela vida, nem o medo de perder a vida. Eu vos mostrarei como é que se conquista o Céu. Mas, como podereis imitar-me, se estais com medo de ir à Judéia, vós a quem nenhum mal se fará por enquanto? Tendes o escrúpulo de apresentar-vos em minha companhia? Sois livres, se quereis deixar-me. Mas, se quereis ficar, deveis aprender a desafiar o mundo,com suas críticas, suas insídias, suas derisões, os seus tormentos, para conquistardes o meu Reino. Vamos, pois, tomar da morte Lázaro, que dorme a dois dias no sepulcro, tendo morrido na tarde em que veio o servo de Betânia. Amanhã, à hora sexta, depois de ser atendido aos que estão esperando o dia de amanhã, para receberem de mim algum conforto e um prêmio para sua fé, partiremos daqui e atravessaremos o rio, parando pela noite na casa da Nique, Depois da aurora, partiremos para Betânia, indo pela estrada que passa por Ensemes. Estaremos em Betânia antes da sexta. E lá haverá muita gente. E os corações ficarão estremecidos. Eu prometi, e o cumprirei...”
“A quem Senhor”, pergunta temeroso o Tiago do Alfeu.
“A quem me odeia, e a quem me ama, a ambos de um modo justo. Não vos lembrais da discussão em Quedes com os escribas? Podiam eles dizer que Eu era mentiroso, por ter ressuscitado uma menina, que tinha acabado de morrer e um morto depois de um dia. Eles disseram: “Ainda não soubeste reconstruir uma coisa que se desfez.” De fato, só Deus pode do barro tirar o homem e da podridão fazer de novo um corpo intacto e cheio de vida. Pois bem, Eu o farei. No mês de Casleu, ás margens do Jordão, Eu mesmo fiz que os escribas se lembrassem desse desafio, e lhes disse: “Na lua nova isso se fará. Isso seja dito aos que me odeiam.” Mas as irmãs, que me amam de um modo absoluto, Eu lhes prometi premiar a sua fé, se tivessem continuado a esperar, apesar de tudo o que parecia incrível. Eu as submeti a muitas provas e a muitas aflições, só Eu conheço os sofrimentos dos corações delas durante estes dias, e também o seu perfeito amor. Em verdade Eu vos digo que merecem um grande prêmio, porque além de não terem visto ressuscitado o seu irmão, ainda estão angustiadas por poder estar Eu sendo escarnecido. Eu vos parecia estar absorto, cansado e triste. Eu estava perto delas com o meu espírito, ouvia os seus gemidos, e contava suas lágrimas. Pobres irmãs! Eu agora tenho o desejo ardente de reconduzir um justo à vida sobre a Terra, um irmão aos braços de sua irmãs, um discípulo ao meio de meus discípulos. Tu estás chorando, Simão? Sim, Tu e Eu somos os maiores amigos de Lázaro, e no teu pranto há uma dor pela dor de Marta e de Maria, e pela agonia do amigo, mas ela é também já a alegria de saber que brevemente ele será restituído ao nosso amor. Levantemo-nos para prepararmos as sacolas e irmos tomar nosso repouso e pôr de novo as coisas em ordem aqui... aonde não temos certeza de voltar. Será necessário distribuir aos pobres o que tivermos e dizer aos mais ativos que detenham os peregrinos para que não vão ao meu encontro, enquanto não estivermos outro lugar seguro. Também será preciso dizer-lhes que avisem aos discípulos a fim de que vão procurar-me na casa de Lázaro. Há muitas coisas que fazer. Todas serão feitas, antes que cheguem os peregrinos... Vamos... Apagai o fogo, e acendei os tochas, e cada um vá fazer o que deve, e depois vá descansar. A paz a todos vós.”
Ele se levanta. Abençoa, e se retira para o seu pequeno quarto.
“Ele morreu há muitos dias”, diz Selotes.
“Isto é um milagre!”, exclama Tomé.
“Eu só quero ver o que é que vão achar depois, para duvidarem ainda”, diz André.
“Mas, quando foi que veio o servo?”, pergunta Iscariotes.
“Na tarde antes da sexta-feira”, responde Pedro.
“Sim? E por que não o disseste?”, pergunta Iscariotes.
“Porque o Mestre me havia mandado ficar calado”, rebate Pedro.
“Então... quando chegarmos lá... já haveria quatro dias que ele está no sepulcro?”.
“Com certeza. Na tarde de sexta-feira, um dia. Na tarde de sábado, dois dias. Nesta tarde, três dias. Amanhã, quatro... Por isso serão quatro dias e meio. Poder eterno! Mas o morto estará em pedaços”, diz Mateus.
“Já estará em pedaços. Eu também quero ver isso e depois...”
“E depois o que, Simão Pedro?”, pergunta Tiago de Alfeu.
“Depois, se Israel não se converter, nem mesmo Javé, com relâmpagos e trovões, o pode converter.”
E assim falando eles se vão.


(O EVANGELHO COMO ME FOI REVELADO – MARIA VALTORTA)

quarta-feira, 6 de março de 2019

A REVELAÇÃO DE QUE JESUS E DEUS SÃO UMA SÓ PESSOA






NO TEMPLO A REVELAÇÃO DE QUE JESUS E DEUS SÃO UMA SÓ PESSOA


537 – NO TEMPLO, NA FESTA DA DEDICAÇÃO, JESUS SE MANIFESTA AOS JUDEUS, QUE TENTAM LAPIDÁ-LO
(O Evangelho como me foi Revelado – Maria Valtorta – Vol. 5 – pgs.308 a 320)

...”Eu estou esperando os doentes. Eles me viram entrar na cidade, e a notícia certamente já se espalhou. Nas horas mais quentes eles virão. Fiquemos pelo menos até um terço da sexta”, responde Jesus. E recomeça a caminhar para adiante e para trás, a fim de não ficar parado naquele ar gelado.
E, na verdade, depois de pouco tempo, quando o sol já está abrandando os efeitos do vento norte, chega a mulher com uma menina doente, pedindo a cura dela. Jesus a contenta. A mulher coloca sua esmola aos pés de Jesus, dizendo: “Isto é para outros meninos que sofrem.” Iscariodes recolhe as moedas.
Mais tarde, sobre uma pequena padiola, levam um homem já velho, doente das pernas. E Jesus o cura.
Em terceiro lugar bem um grupo de pessoas que estão pedindo a Jesus que saia fora dos muros do Templo, para expulsar o demônio de uma menina, cujos gritos dilacerantes são ouvidos até lá dentro. E Jesus sai atrás deles, e vai chegar à estrada que vai para a cidade.
Algumas pessoas, entre as quais estão uns estrangeiros, se ajuntaram ao redor dos que estão segurando a jovenzinha, que está espumando e se contorcendo, revirando os olhos. Palavrões de todos os calibres saem dos lábios dela e, quanto mais eles vão saindo, mais Jesus se aproxima dela, e mais cresce o debater-se dela. Com dificuldade a estão segurando quatro homens, jovens e robustos. E, junto com os impropérios, prorrompem gritos dizendo que ele conhece o Cristo, e súplicas angustiantes do espírito que a possui pedindo para não ser expulso, e também dizendo algumas verdades, repetidas monotonamente. “Fora! Não me façais ver este maldito! Vai-te embora! Fora! És a causa de nossa ruína. Eu sei quem Tu és... Tu é o Cristo. Tu és... Não foste ungido por outro óleo, mas pelo lá de cima, o poder do Céu te cobre e te defende. Eu te odeio. Maldito! Não me expulses. Por que nos expulsas, e não nos queres, enquanto tens perto de Ti uma legião de demônios em um só? Sim, que o sabes. Deixa-me aqui, pelo menos até a hora de...” A palavra fica embargada algumas vezes, como que estrangulada, e outras vezes muda, ou se detêm, ou se prolonga por entre gritos desumanos, como quando urra: “Deixa-me entrar pelo menos nele. Não me mandes lá para o Abismo!Por que nos odeias, ó Jesus, Filho de Deus? Não te basta o que já és? Porque queres mandar em nós? Nós não queremos ser mandados. Por que vieste perseguir-nos, se nós te renegamos? Vai-te embora. Não mandes sobre nós os fogos do Céu! Esses Teus olhos! Quando eles ficarem apagados nós nos riremos... Ah! Não! Mas, nem mesmo assim... Porque Tu nos vences. Sê maldito, Tu e o Pai que te mandou e Aquele que de vós procede e é vós. Aaaaah!”
Esse último grito é realmente espantoso, como o de uma criatura que está sendo degolada, e na qual vai entrando lentamente o ferro homicida, e é causado pelo fato de que Jesus, depois de ter dado muitas vezes a ordem de cessar aquilo, por meio de um comando mental, põe fim as palavras da possessa, tocando com um dedo a fronte da jovenzinha. E aquele grito termina com uma convulsão horrível, e com o fragor da risada de quem sai de um pesadelo, quando o demônio a deixa, gritando:
“Mas eu não vou para longe... Ah! Ah! Ah!”, o que é acompanhado por um estampido como o de um raio, ainda que o céu esteja completamente limpo.
Muitos fogem dali aterrorizados. Outros se aglomeram ainda mais para observarem a jovenzinha, que se acalmou de repente, descansando nos braços dos que a estavam segurando. Fica assim por alguns instantes, e depois abre os olhos, sorri, vê-se entre pessoas que não tem véu sobre o rosto nem sobre a cabeça, e inclina seu rosto, para escondê-lo por baixo do braço que lhe levanta o rosto. Quem está com ela gostaria que ela agradecesse ao Mestre. Mas Ele diz: “Deixai-a em seu pudor. A alma dela já me agradece. Levai-a de novo para casa, para a mãe. É o seu lugar de menina...” e vira as costas para as pessoas, tornando a entrar no Templo, e indo ficar onde estava antes.
“Tu viste, Senhor, como muitos judeus vieram ás nossas costas? Eu reconheci alguns deles... Lá estão eles: são aqueles que nos estavam espiando antes. Olha como estão discutindo entre si...”, diz Pedro.
“Estarão discutindo sobre quem entre eles o diabo entrou. Lá está também Naum, o homem de confiança de Anás. É um tipo idôneo...”, diz Tomé.
“Sim. E tu não viste, porque estavas de costas. Mas o fogo desceu justamente sobre a cabeça dela”, diz André batendo um pouco os dentes. Eu estava perto e fiquei com medo!”
“É verdade. Estavam todos juntos. Mas eu vi o fogo abrir-se sobre nós, e achei que ia morrer. E cheguei a tremer mais foi pelo Mestre. O fogo parecia suspenso sobre a cabeça dele”, diz Mateus.
“Mas, não. Eu o vi sair da menina e explodir em cima do muro do Templo”, replica Levi, o pastor discípulo.
“Não fiqueis discutindo uns com os outros, o fogo não foi para por ninguém em destaque. Foi apenas o sinal de que o demônio havia fugido”, diz Jesus.
“Mas ele disse que não ia para longe!...”, diz André.
“São palavras de demônio... Não devem ser ouvidas. Louvemos pois o Altíssimo por estes três filhos de Abraão, curados no corpo e na alma.”
Nesse meio tempo, muitos judeus, que se desentocaram daqui e dali – mas não faz parte do grupo deles nenhum fariseu – nenhum escriba e nenhum sacerdote – se aproximam de Jesus e o rodearam, e um deles se aproxima mais, e diz: “Grandes coisas Tu fizeste neste dia, obras realmente de profeta, e grande profeta. E os espíritos do Abismo disseram de Ti grandes coisas. Mas as palavras deles não podem ser aceitas, se não forem confirmadas pela tua palavra. Nós estamos assustados por aquelas palavras. Mas também temos medo de algum grande engano, pois é sabido que Belzebu é espírito de mentira. Não quereríamos enganar-nos a nos mesmos, nem ser enganados. Dize-nos então, quem és, pela tua boca de vontade e justiça.”
“E Eu já não vos disse muitas vezes quem Eu sou? Há quase três anos que Eu o venho dizendo e, antes de Mim, já o disse João no Jordão e a voz de Deus dos Céus.”
“É verdade. Mas nós não estávamos aqui nas outras vezes. Nós... Tu, que és justo, deves entender a nossa aflição. Nós quereríamos crer em Ti como Messias. Mas muitas vezes o povo de Deus já foi enganado por falsos Cristos. Consola o nosso coração, que espera ouvir, e está pronto a ouvir com atenção tua palavra segura, e nós te adoraremos.”
Jesus olha para eles muito sério. Seus olhos parecem perfurar as carnes e pôr a nu os corações. Depois diz: “Na verdade, muitas vezes os homens sabem dizer mentiras melhor do que Satanás. Não. Vós não me adorareis nunca. Seja lá o que for que Eu vos disser. E, ainda que chegásseis a fazê-lo, a quem é que adoraríeis?”
“A quem? Ora! Ao nosso Messias!”
“Seríeis capazes de fazer isso? Para vós quem é o Messias? Respondei, para que Eu fique sabendo o que valeis.”
“O Messias? Mas o Messias é aquele que, mandado por Deus, reunirá o disperso Israel, e fará dele um povo triunfante, sob cujo poder estará o mundo. E então? Tu não sabes o que é o Messias?”
“Eu o sei, e vós não o sabeis. Pois para vós será um homem que, superando Davi, Salomão e Judas Macabeu, fará de Israel a Nação rainha do mundo.”
“É isso. Deus o prometeu. Toda vingança, toda glória, toda reivindicação virá do Messias prometido.”
“Foi dito: “Não adorarás a outro, mas só ao Senhor teu Deus.” Por quê, então, vós me adoraríeis, se em mim só poderíeis ver o Homem-Messias?”
“E que mais devemos ver em Ti?”
“Que mais? E é com estes sentimentos que me vindes interrogar? Raça de víboras traiçoeiras e venenosas! E sacrílegas também. Porque se em Mim não pudésseis ver mais do que um messias humano, e me adorásseis, seríeis idólatras. Somente a Deus se pode adorar. E em verdade Eu vos digo que vós estais fingindo estar numa missão, tendo os poderes e os encargos que vós, privados de espírito e de sabedoria, imagineis ter. O Messias não vem para dar ao seu povo um reino como vós pensais, não vem para exercer vingança sobre outros poderosos. O reino dele não é deste mundo, e o seu poder supera todos os poderes limitados do mundo.”
“Tu nos estás humilhando, Mestre. Se Tu és Mestre, e nós somos ignorantes, por que não nos queres instruir?”
“Há três anos que Eu venho fazendo isso, e vós ficais sempre nas trevas, porque rejeitais a Luz.”
“É verdade. Talvez seja verdade. Mas o que aconteceu no passado pode não acontecer no futuro. E, então? Tu que tens piedade dos publicanos e das meretrizes, e que absolves os pecadores, queres ser sem piedade para conosco, só porque somos de cerviz dura e achamos difícil compreender quem és Tu?”
“Não é que vós acheis difícil o que não quereis entender. Ser hebetado não seria culpa. Deus tem tantas luzes, que poderia fazer brilhar a luz, até na inteligência mais obtusa, mas cheia de boa vontade. E esta em vós está faltando. Ao contrário, vossa vontade é até o oposto dessa. É por isso que não compreendeis quem Eu sou.”
“Será como Tu dizes. Tu estás vendo como somos humildes. Mas nós te pedimos em nome de Deus. Responde as nossas perguntas. Não nos deixes mais suspensos. Até quando o nosso espírito deverá ficar na incerteza? Se Tu és o Cristo, dize-o a nós abertamente.”
“Eu já vo-lo disse. Nas casas, nas praças, pelas estradas, pelos povoados e sobre os montes, ao longo dos rios, á frente do mar, diante dos desertos, no Templo, nas sinagogas, nas feiras. Eu já vo-lo disse, e vós não credes. Não há nenhum ponto de Israel que não tenha ouvido a minha voz. Até os lugares que trazem abusivamente o nome de Israel há séculos, mas que estão separados do Templo, até os lugares que deram o nome a esta nossa terra, mas que de dominadores se tornaram súbditos, e nunca se livraram completamente de seus erros, para virem a Verdade, até a Siro-Fenícia, evitada pelos Rabis como terra de pecado, ouviram a minha voz e conheceram o meu ser. Eu vo-lo disse, e não credes em minhas palavras. Eu agi, e as minhas ações não prestastes atenção, com boa intenção. Se o tivesses feito com a reta intenção e respeito de Mim, teríeis chegado a fé em Mim, porque as obras que Eu faço em nome do Pai dão testemunho de Mim. Aqueles de boa vontade que vieram acompanhar-me, porque me reconheceram como Pastor, acreditaram em minhas palavras e no testemunho que dão as minhas obras. E então? Credes talvez que o que Eu faço não tenha sido feito para a vossa utilidade? E de utilidade para todas as criaturas? Desenganai-vos. E não queirais ficar pensando que o que é útil já é dado pela saúde para cada um em particular, apenas readquirida pelo meu poder, ou pela libertação de uma possessão, ou do pecado deste ou daquele. Pois esta é uma utilidade circunscrita ao indivíduo. É muito pouca coisa, comparada com o poder que foi usado, e com uma fonte sobrenatural, e mais do que sobrenatural: Divina, que é usada por ser a única utilidade. Eis aí a utilidade coletiva nas obras que Eu faço. A utilidade para tirar todas as dúvidas daqueles que não têm certeza, e convencer os que lhe são contrários, além de reforçar sempre mais a fé dos que crêem. É para essa utilidade coletiva, a favor de todos os homens do presente e do futuro, pois as minhas obras testemunharão sobre Mim diante dos futuros e os convencerão a respeito de Mim, e que o meu Pai me dá poder para Eu fazer o que faço. Lembrai-vos sempre disso. Meditai nesta verdade.”
Jesus para por um momento. Fixa seu olhar sobre um judeu, que está de cabeça baixa, e depois diz: “Tu, que estás pensando assim, tu, esse da veste da cor da azeitona madura, e estás te perguntando se também o Satanás terá um fim bom. Não sejas tolo para seres contra Mim, e ficares procurando erro em minhas palavras. Eu te respondo que Satanás não é obra de Deus, mas da livre vontade do anjo rebelde. Deus o tinha feito seu glorioso ministro, e assim o havia criado para um fim bom. Eis. Agora, tu, falando com o teu próprio eu, dizes: “Então, Deus é estulto, por ter dado a glória a um futuro rebelde, e confiado seus planos a um desobediente”. Eu te respondo: “Deus não é estulto, mas perfeito em suas ações e pensamentos. E é perfeitíssimo. As criaturas são imperfeitas, até as mais perfeitas. Sempre há nelas um ponto de inferioridade, em comparação com Deus. Mas Deus, que as ama, concedeu às criaturas o livre arbítrio, para que , através dele, a criatura se complete nas virtudes e se faça por isso semelhante a Deus, seu Pai. E ainda te digo, ó irrisor e astuto procurador de pecado em minhas palavras, que, do Mal que voluntariamente te formou. Deus ainda faz sair um fim bom que é o de servir para fazer dos homens possuidores de uma glória merecida. As vitórias sobre o Mal são a coroa dos eleitos. Se o Mal não pudesse suscitar uma conseqüência boa para os homens dispostos e de boa vontade, Deus o teria destruído, Porque nada do que existe em toda a Criação deve estar totalmente privado de um incentivo bom ou bons, por conseqüência.
Não respondes? Será duro para ti teres que proclamar que Eu li em teu coração e que venci as ilações injustas de teu pensamento tortuoso? Eu não te forçarei a fazê-lo. Mas, á vista de todos, Eu te deixarei com a tua soberba. Eu não exijo que tu me proclames vitorioso. Mas, quando estiveres sozinho com estes, semelhantes a ti, e com aqueles que vos mandaram, então, confessa, tu também, que Jesus de Nazaré, leu os pensamentos de tua mente, e estrangulou as tuas objeções na garganta, somente com a arma de sua palavra de verdade.
Mas abandonemos esta interrogação pessoal, e voltemos aos muitos que me estão ouvindo. Se apenas um só de todos eles, pelas minhas palavras, convertesse o seu espírito para a Luz, estaria recompensado o meu cansaço por falar a pedras, ou melhor, a sepulcros cheios de víboras.
Eu estava dizendo que os que me amam me reconheceram como Pastor, pelas minhas palavras e minhas obras. Mas vós não credes, não podeis crer, porque não sois das minhas ovelhinhas.
Que é que vós sois? Eu vo-lo pergunto. Perguntai-o ao interior de vossos corações. Não sejais estultos. Podeis conhecer-vos pelo que sois. Basta que escuteis a voz de vossa alma, que não está tranqüila por continuar a ofender o Filho daquele que a criou. Vós mesmos conhecendo o que sois, não o direis. Não sois nem humildes, nem sinceros. Mas Eu vos digo o que sois. Sois em parte uns lobos, e, em parte uns cabritos selvagens, mas ninguém de vós, apesar da pele de cordeiro, que levais para fingir-vos de cordeiros, passais por verdadeiros cordeiros. Por baixo do velo macio e branco, tendes todas as cores ferozes, e chifres pontudos, dentes e garras de bode ou de fera, e quereis ficar assim, e vos comprazeis ainda por serdes assim, e sonhais com ferocidade e rebelião. Por isso, vós não me podeis amar, e não podeis acompanhar-me e compreender-me.
Se entrais no rebanho, é para fazer-lhe mal, ou causar sofrimento, ou levar para o meio dele a desordem. As minhas ovelhas, têm medo de vós... Se elas fossem como vós sois, deveriam odiar-vos. Mas elas não sabem odiar. São os cordeirinhos do Príncipe da Paz, do Mestre do Amor, do Pastor misericordioso. Eu não vos odiarei nunca. Deixo para vós o ódio, que é o mau fruto da tríplice concupiscência, o eu desencadeado no animal homem, que vive esquecido de que é também espírito, e não só carne. Eu fico com o que é meu: o Amor. E isso é o que Eu ensino aos meus cordeirinhos, e e ofereço a vós, para vos tornardes bons. Se vos tornásseis bons, então me entenderíeis, e vos tornaríeis do meu rebanho, semelhantes aos outros que estão nele. Nós nos amaríamos. Eu e as minhas ovelhas nos amamos. Elas me escutam, reconhecem a minha voz.
Vós não sabeis o que é em verdade conhecer a minha voz e não ter dúvidas sobre sua origem e saber distingui-la entre mil outras vozes de falsos profetas, como se fosse a verdadeira voz vinda do Céu. Agora e sempre, e até aqueles que se crêem, e que em parte o são, seguidores da sabedoria, haverá muitos que não saberão distinguir a minha voz das outras vozes que falarão de Deus, mais ou menos com justiça, mas que serão todas elas vozes inferiores a minha...”
“Dizeis sempre que em breve te vais embora, e depois queres dizer que falarás sempre? Se tiveres ido embora, não falarás sempre”, diz um judeu, com um tom de desdém, como se falasse a um débil mental.
...”Eu falarei sempre, a fim de que o mundo não se torne todo idólatra. E falarei aos meus escolhidos, para repetir-vos as minhas palavras. O Espírito de Deus falará, e eles entenderão a palavra, a frase, o modo, o lugar, o como, o instrumento, através dos quais a palavra fala, enquanto que os meus eleitos não se perderão nesses estudos inúteis, mas escutarão, atentos só ao Amor, e compreenderão, porque será o Amor quem vos falará. Eles saberão distinguir as ornadas páginas dos doutos ou as mentirosas páginas dos falsos profetas, dos escribas, que ensinam doutrinas inquinadas, ou ensinam o que não praticam, das palavras simples e verdadeiras, profundas, que por Mim serão proferidas. Mas o mundo as odiará por isso, porque o mundo me odeia a Mim, a Luz, e odeia os filhos da Luz. Esse mundo tenebroso, que ama as trevas, apropriadas para os seus pecados.
As minhas ovelhas me conhecem e me conhecerão a Mim, e me seguirão sempre, até pelos caminhos de sangue e de dor, que Eu percorrerei à frente delas, e que elas percorrerão depois de Mim. Os caminhos que levam as almas a sabedoria, os caminhos que o sangue e o pranto dos perseguidos, porque ensinam a justiça e os tornam luminosos para que resplendam no meio da escuridão das fumaças do mundo e de Satanás, e sejam como fulgores de estrelas para conduzir quem procura o Caminho, a Verdade e a Vida, mas não encontra quem a tudo isso os conduza. Porque disso é que precisam as almas: de quem as conduza à Vida, à Verdade, ao Caminho certo.
Deus é piedoso para com as almas que procuram e não acham, não por culpa delas, mas pela preguiça dos pastores ídolos.
Deus é piedoso para com as almas que, deixadas a si mesmas, se perdem, e são acolhidas pelos ministros de Lúcifer, prontos para acolher aos desviados e fazer deles prosélitos de sua doutrinas.
Deus é piedoso para com aqueles que caem no engano, somente porque os rabis de Deus, os assim chamados rabis de Deus, se desinteressaram por elas.
Deus é piedoso para com todos esses que vão ao encontro do desconforto, das escuridões, da morte por culpa dos falsos mestres, que de mestres não tem mais do que a veste e o orgulho de serem assim chamados.
E, por essas pobres almas, como mandou os profetas para o seu povo, como mandou-Me a Mim para todo o mundo, assim, depois de Mim mandará os servos da Palavra, da Verdade e do Amor, para repetirem as minhas palavras. São as minhas palavras as que dão a Vida. De tal modo que as minhas ovelhas de agora e de depois, terão a Vida que Eu lhes darei, através da minha palavra que é Vida eterna para os que a acolhem, e não perecerão nunca mais, e ninguém os arrancará de minhas mãos.”
“Nós nunca rejeitamos as palavras dos verdadeiros profetas. Sempre respeitamos o João, o último profeta”, responde com ira um dos judeus, e os seus companheiros lhe fazem eco.
“Ele morreu em tempo, para não ser mal visto por vós, e ser perseguido também por vós. Se ele ainda estivesse entre os vivos, suas palavras “não é lícito”, que ele disse referindo-se a um incesto carnal, ele o diria também a vós, que praticais um adultério espiritual, fornicando com Satanás contra Deus. E vós o mataríeis, como tendes a intenção de me matar.”
Os judeus fazem um tumulto, cheios de ira, e já prontos a atacá-lo, cansados como estão, por precisarem fingir-se de mansos. Mas Jesus não se preocupa com isso. Levanta a voz para dominar o tumulto, e grita: “E vós me perguntastes quem sou Eu, ó hipócritas? Dizíeis querer saber para ficardes seguros? E agora dizeis que João foi o último profeta. E assim duas vezes vos condenais pelo pecado de mentira. Uma vez, porque dizeis que nunca rejeitastes as palavras dos verdadeiros profetas. E na outra, dizendo que João é o último profeta e que vós credes nos verdadeiros profetas, não aceitais que Eu seja também profeta, e verdadeiro profeta. Bocas mentirosas! Corações enganadores! Sim, em verdade, Eu aqui na casa de meu Pai, proclamo que sou mais do que profeta. Eu tenho o que o meu Pai me deu. E o que o Pai me deu é mais precioso do que tudo e do que todos, pois é uma coisa sobre a qual a vontade, e o poder dos homens não pode pôr suas mãos rapinantes. Eu tenho o que Deus me deu e que, mesmo estando em Mim, está sempre em Deus, e ninguém pode arrancá-lo das mãos de meu Pai nem de Mim, porque é a mesma a nossa Natureza Divina. Eu e o Pai somos Um.”
“Ah! Que horror! Blasfêmia! Anátema!” A gritaria dos judeus ressoa no Templo e mais uma vez as pedras usadas pelos cambistas e pelos vendedores de animais para conservarem em ordem os seus recintos, transformam-se em provisão para os que estão procurando boas para atacar.
Mas Jesus se ergue, com os braços cruzados sobre o peito. Ele subiu sobre uma cadeira de pedra, a fim de ficar mais alto e visível, e de lá domina tudo com os raios de seus olhos de safira. Domina e desfere raios. E está tão majestoso, que os para lisa. Em vez de jogar as pedras, jogam-nas fora, ou seguram na mão, mas já sem terem a ousadia de jogá-las contra Ele. Até a gritaria se acalma, em um estranho desânimo. É o próprio Deus que cintila no Cristo. E quando Deus cintila assim, até o homem mais insolente torna-se pequeno e espavorido.
...Jesus fica assim alguns minutos. Depois começa de novo a falar para esta multidão vendida e vil, que perdeu toda a sua arrogância, somente por ter visto um relâmpago divino. “Pois bem. Que quereis fazer? Vós me havíeis perguntado quem Eu era. E Eu vo-lo disse. Vós ficastes furiosos. Eu vos fiz lembrar de tudo o que Eu fiz, fiz-vos ver e recordar muitas obras que provieram de meu Pai e foram feitas com o poder que Me vem de meu Pai. Por qual delas é que me apedrejais? Por haver ensinado a justiça? Por ter trazido aos homens a Boa Nova? Por ter vindo convidar-vos para o Reino de Deus? Por ter curado os vossos doentes, e dado a vista aos vossos cegos, dado o movimento aos paralíticos, a palavra aos mudos, a liberdade aos possessos, a ressurreição aos mortos, ter feito bem aos pobres, perdoado aos pecadores, amado a todos, mesmo aos que me odeiam, como vós e os que vos mandaram? Por qual então, dessas obras é que me quereis apedrejar?”
“Não é pelas boas obras que fizeste que te apedrejamos, mas pela tua blasfêmia, porque Tu, sendo homem te fazes Deus.”
“Não está escrito na vossa Lei: “Eu disse: vós sois deuses e filhos do Altíssimo?” Pois bem. Se Deus chamou de “deuses” a quem Ele falou, dando-lhes um mandamento, o de viver de tal modo que a semelhança e a imagem de Deus, que está no homem, apareça claramente, e o homem não seja um demônio, nem um animal. Se “deuses” são chamados os homens na escritura, que é toda inspirada por Deus, e por isso a escritura não pode ser alterada nem anulada, segundo o prazer ou o interesse do homem, por que me dizeis que Eu estou blasfemando, Eu a quem o Pai consagrou e enviou ao mundo, só porque Eu digo: Sou o Filho de Deus? Se Eu não fizesse as obras do meu Pai, teríeis razão para não crerdes em Mim. Mas Eu as faço. E vós não quereis acreditar em Mim. Crede, então, pelo menos nessas obras a fim de que saibais e reconheçais que o Pai está em Mim e que Eu estou no Pai.”
A tempestade dos gritos e das violências recomeça mais forte do que antes. De um dos terraços do Templo, sobre o qual certamente estavam escutando, escondidos os sacerdotes, os escribas e os fariseus grasnam muitas vezes: “Agarrai esse blasfemador. Sua culpa já se tornou pública. Todos nós já ouvimos. Morte ao blasfemador, que se proclama Deus. Dai-lhe o mesmo castigo que foi dado ao filho da Salumit de Dabri. Que seja levado para a fora da cidade e apedrejado. Fazer isso é direito nosso! Está escrito: “O blasfemador seja condenado à morte.”
...Eu perdi completamente de vista a Jesus. Não poderia nem dizer para onde Ele foi, nem por qual porta saiu.

(O Evangelho como me foi Revelado – Maria Valtorta.)