“NO TERCEIRO DIA, UMA LUZ VINDA DOS CONFINS DO UNIVERSO, COMO UM METEORO, VAI DIRETO ATÉ O SEPULCRO, QUANDO UM ESTRONDO SACODE A TERRA, AFASTANDO A ENORME PEDRA QUE O SELAVA, E OS GUARDAS ROMANOS FICAM ATORDOADOS. A LUZ ENTÃO ENTRA NO CORPO INERTE DE JESUS, QUE EM SEGUIDA LEVANTA, TRANSPASSANDO OS PANOS DA MORTALHA COM SEU CORPO IMATERIAL FULGURANTE. RESSUSCITANDO DOS MORTOS COM UMA MATÉRIA INCORPÓREA DE INTENSA LUZ, CONHECIDA APENAS POR DEUS, DE UMA BELEZA INDESCRITÍVEL.”

domingo, 22 de maio de 2016

AS PENITÊNCIAS



A penitência sozinha não dá reparação à culpa

 Minha filha, não o sabes? Todos os sofrimentos que um homem suporta ou pode suportar nesta vida são suficientes para satisfazer a menor culpa. Sendo eu um bem infinito, a ofensa contra mim pede satisfação infinita. Desejo que o compreendas. Os males desta existência não são punições, mas correção a filho que ofende. Assim, a satisfação se dá pelo amor, pelo arrependimento e pelo desprezo do pecado. Esse arrependimento é aceito no lugar da culpa e do reato, não pela virtude dos sofrimentos padecidos, mas pela infinitude do amor. Deus, que é infinito, quer amor e dor infinitos.
 A dor por ele desejada é infinita em dois sentidos: com relação à ofensa feita contra o Criador e com relação àquela feita ao próprio homem. 
Quem se acha unido a mim por um amor infinito, sofre quando me ofende ou vê que outros me ofendem; igualmente, quando padece no corpo ou no espírito, qualquer seja a sua origem, tem merecimento infinito. Dessa forma satisfaz pela culpa, que era merecedora do inferno. Embora praticadas no tempo finito, são ações válidas, pois fortalecem-nas as virtudes, a caridade, a contrição, o desprezo da culpa, que são infinitos.
 Foi quanto ensinou Paulo, ao afirmar: "Se eu falasse a língua dos anjos, adivinhasse o futuro, partilhasse os meus bens com os pobres, e entregasse o corpo às chamas, mas não tivesse a caridade, tudo isso de nada valeria" (1Cor 13,13). O glorioso apóstolo faz ver que os gestos finitos são insuficientes para punir ou satisfazer, sem a força da caridade.
Filha, fiz-te ver que a culpa não é reparada neste mundo pelos sofrimentos, suportados unicamente como sofrimentos, mas sim pelos sofrimentos aceitos com amor, com desejo, com interna contrição Não basta a força da mortificação; ocorre o anseio da alma. 
O mesmo acontece, aliás, com a caridade e qualquer outra virtude, que somente possuem valor e produzem a vida em meu Filho Jesus Cristo crucificado, isto é, na medida em que a pessoa dele recebe o amor e virtuosamente segue suas pegadas. Somente assim adquirem valor. As mortificações satisfazem pela culpa na feliz comunhão do amor, adquirido na contemplação da minha bondade. Satisfazem graças à dor e à contrição quando praticadas no autoconhecimento e na consciência das culpas pessoais. 
Esse conhecimento de si gera desprezo pelo mal, pela sensualidade ³, induz o homem a julgar-se merecedor de castigos e indigno de recompensa. Assim - acrescentava a doce Verdade _ é pela contrição interior, pelo amor paciente e pela humildade, considerando-se merecedora de castigos e não de prêmio, que a pessoa oferece reparação.


(do Livro O Diálogo – Santa Catarina de Sena)

sábado, 21 de maio de 2016

DEUS QUER SER AMADO


QUEIXA DIVINA

Diz Deus Pai:

Não vês como todos me ofendem? No entanto eu os criei numa grande chama de amor; dei-lhes graças e favores quase infinitos, gratuitamente, sem nenhum merecimento deles. Olha, minha filha, quanto me ofendem. Especialmente por egoísmo, do qual procedem todos os outros males. 
O amor-próprio tudo envenenou. Da mesma forma como a caridade contém todas as virtudes benéficas aos homens, assim o egoísmo procede do orgulho e contém todos os males. Por falta de amor, os homens praticam mutuamente o mal. Não me amam nem se amam. Estes dois amores vão sempre juntos. Por isto eu te dizia que todo mal é feito no próximo.
Tenho muito a me queixar dos homens. De mim só receberam o bem e eles me odeiam, praticando toda espécie de mal. Afirmei que somente as lágrimas de meus servidores aplacarão minha ira. Torno a repeti-lo. Servidores meus, colocai-vos diante de mim com muita oração, repletos de dor e tristeza por causa das ofensas cometidas contra mim e por causa da condenação eterna dos maus.
Mitigareis a ira do meu julgamento.
Ninguém escapará de minhas mãos. "Sou aquele que sou" (Ex 3.14) e vós, vós não possuís a razão do próprio ser. Sois aquilo que eu fiz. Criei tudo o que participa do ser; somente o pecado não procede de mim, porque é negação. Por não estar em mim, o pecado não merece amor. Quem o faz, ofende toda criação e odeia-me.
O homem tem obrigação de me querer bem. Sou imensamente bom, dei-lhe o ser numa chama de caridade. Todavia, os maus fogem de mim. Mas por justiça ou misericórdia, ninguém escapa de minhas mãos.
Abre, pois, os olhos da fé e fixa-os em minhas mãos. Verás como é verdade o que acabei de dizer...


(do Livro O Diálogo – Santa Catarina de Sena)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A PONTE QUE DÁ A VIDA ETERNA


JESUS CRISTO É A PONTE QUE NOS LEVA A DEUS

Diz Deus:

Expliquei tais coisas, para que não ficassem dúvidas na mente dos que escutam e viessem a dizer: "É verdade que o corpo de Cristo se tornou uma ponte pela união (hipostática) da natureza humana com a divina; mas aquela ponte (corporal) subiu ao céu e nos deixou. Cristo foi um caminho, ensinou a Verdade, viram-se os seus exemplos e costumes... Mas agora, que nos restou? Onde encontramos o caminho?" Respondo a ti e àqueles que caírem em semelhante ignorância. 
O caminho ensinado por meu Filho foi confirmado pelos apóstolos, garantido pelo sangue dos mártires, esclarecido pelos santos doutores, iluminado pelos confessores; dele falam os escritos dos evangelistas. Todos eles foram testemunhas a confirmar tal verdade na hierarquia da santa Igreja. Foram lâmpadas colocadas sobre o candelabro a indicar o caminho da Verdade, o qual sem erro conduz à Vida com iluminação perfeita.
Como confirmaram a mensagem de Cristo? Vivendo-a em si mesmos. Assim, todos os homens recebem luzes para conhecer a Verdade. Basta que cada um o queira, que não destrua a luz da razão pelo egoísmo desordenado. A mensagem de Jesus é verdadeira e ficou no mundo qual pequena barca, para retirar os pecadores do rio do pecado e conduzi-los ao porto da salvação. Primeiro, coloquei meu Filho como ponte-pessoa, a conviver com os homens; após sua morte, ficou a ponte-mensagem, possuindo ela meu poder, a sabedoria do Filho e o amor do Espírito. 
O poder fortifica os caminhantes, a sabedoria ilumina e ajuda a conhecer a Verdade, o Espírito Santo infunde o amor que aperfeiçoa, que destrói o egoísmo e conserva no homem o apego ao bem. Por qualquer forma, como ponte-pessoa ou ponte-mensagem, meu Filho é o caminho, a verdade e a vida, a passagem que conduz às alturas celestiais. Tais coisas queria ele dizer, com as expressões: "Eu vim do Pai e volto ao Pai" (Jo 16,28) e "voltarei a vós" (Jo 14,8); como se afirmasse: "Meu Pai enviou-me até vós, fez de mim uma ponte, pela qual atravessai o rio do pecado e chegais à Vida". 
Com a sua outra expressão: "Voltarei a vós, não vos deixarei órfãos; vou enviar-vos o Paráclito", é como se dissesse: "Irei para o Pai e voltarei mediante o Espírito Santo, chamado Paráclito; ele indicar-vos-á  mais claramente a estrada verdadeira, ou seja, a mensagem que vos dei e que ele confirmará".
Jesus falou que voltaria e voltou. O Espírito Santo não veio sozinho. Veio no poder do Pai, na sabedoria do Filho e na própria clemência. Como vês, meu Filho não retornou no seu corpo, mas no poder que fortalece a estrada-mensagem. Esta nunca será destruída, nunca obstruída para os que a desejam percorrer. É firme, estável, pois procede de mim que sou imutável. Caminhai virilmente por ela, sem nenhuma dúvida e na luz da fé, que vos dei como principal veste no santo batismo.


(Do Livro O Diálogo – Santa Catarina de Sena)


AS LÁGRIMAS SÃO INFINITAS



AS LÁGRIMAS SÃO INFINITAS


Diz Deus Pai:

Conforme acabo de explicar, filha querida, essa é a doutrina sobre as cinco lágrimas. Afoga-te, pois, no sangue de Cristo crucificado, o Cordeiro humilde, sofredor e puro. Esforça-te por crescer nas virtudes, aumenta em ti a chama da Minha caridade. Os cinco tipos de lágrimas são como que canais: quatro deles derramam infinitas espécies de lágrimas, as quais produzem a vida se forem usadas de acordo com a virtude. Infinitas, repito, não no sentido de que tenhais de chorar sem fim nesta vida, mas relativamente ao desejo da alma. Já afirmei que a lágrima brota do coração. É ele que a recolhe no desejo santo e oferece aos olhos. 

Como a madeira verde atirada ao fogo; por causa do calor, sua umidade ferve, geme. Com a madeira seca não acontece assim. Igualmente sucede com o coração, quando a graça divina o renova, destruindo a sequidão do egoísmo que enrijece a alma. Amor e lágrimas unem-se no desejo santo. Mas este último, durante esta vida, não tem limites. Quanto mais o homem ama menos acredita estar amando. Dessa forma: o desejo ulterior de amar provoca o pranto. 

Quando a alma se separa do corpo e chega até Mim, seu fim último, não deixa o desejo santo; continua a querer-Me e a amar o próximo. A caridade penetrou em si como rainha, levando consigo o merecimento de todas as virtudes. Como já disse, cessa todo sofrimento; ao desejar-Me, a alma Me possui, sem temor de vir a perder o que tanto sonhara. Todavia suas aspirações crescem: ao desejar, é atendida; e ao ser atendida deseja mais, sem ameaça de qualquer fastio. Nem sofre ao desejar ainda. A perfeição é total. 

É desse modo que vosso desejo é infinito. Nem poderia ser diferentemente. Se Me servísseis apenas com atitudes finitas, nenhuma virtude vossa alcançaria a vida. Sou o Deus infinito e quero serviço infinito de vossa parte. Mas de infinito só tendes o desejo da alma. Por isso dizia antes que as lágrimas são infinitas; infinitas, por estarem associadas ao desejo santo, infinito. 

Depois da morte, a lágrima sensível não acompanha o homem. Mas ele leva consigo os merecimentos do pranto terreno e os consome. Sucede tal como a água que se atira numa fornalha; ela não fica de lado, mas é pelo fogo absorvida e vaporizada. Sim, é quanto acontece com o homem que chega ao céu, para experimentar o fogo da caridade divina, cheio de amor na união Comigo e o próximo, causa de suas lágrimas. Ele não pára de Me oferecer suas aspirações, felizes e lacrimosas; só que não serão mais lágrimas dos olhos, mas lágrimas de fogo do Espírito Santo.


(Do Livro O Diálogo – Santa Catarina de Sena)

O JUÍZO PARTICULAR


O juízo particular

Diz Deus:

Os pecadores não podem desculpar-se. Continuamente são por mim convidados ao conhecimento da Verdade. Não se corrigindo enquanto podem fazê-lo, uma segunda repreensão os condenará. Ela acontece no último instante da vida, quando meu Filho chamar: "Surgite mortui, venite ad judicium" (Levantai-vos, ó mortos, vinde para o julgamento)! Tu que morreste para a graça e morto chegas ao fim da vida terrena, levanta-te, aproxima-te do supremo Juiz. Aproxima-te com tua maldade, com teus julgamentos falsos, com a lâmpada da fé apagada. No santo batismo, ela foi-te entregue acesa; tu a apagaste com o sopro do orgulho e da vaidade do coração, usados como velas enfunadas às ventanias contrárias à salvação. O amor da fama soprava teu amor-próprio (egoísmo) e tu corrias alegre pelo rio dos prazeres mundanos; seguias a frágil carne, as incitações do demônio, as tentações. Tua vontade era um pano retesado e o diabo te conduziu pela estrada do mal, junto com ele, para a eterna condenação.
Filha muito querida, esta segunda repreensão se dá no fim da vida, quando não há mais remédio. Ao chegar o instante da morte, o homem sente remorso. Já afirmei que ele é um verme cego por causa do egoísmo. No instante final, quando a pessoa compreende que não pode fugir das minhas mãos, esse verme recupera a visão e atormenta interiormente a pessoa, fazendo ver que por própria culpa chegou a tão triste situação. Se o pecador se deixar iluminar e se arrepender - não por medo dos castigos infernais, mas por ter ofendido a suma e eterna bondade - ainda será perdoado. Mas se ultrapassar o momento da morte nas trevas, no remorso, sem esperança no sangue ou, então, lamentando-se apenas pela infelicidade em que se acha - e não por ter me ofendido - irá para a perdição. Sobrevirá, pois, a repreensão pela injustiça e falso julgamento.
Em primeiro lugar, a repreensão da injustiça e do julgamento falso em geral, praticados no conjunto de suas ações; depois, em particular, do último instante, quando o pecador considera seu pecado maior que minha misericórdia. Este (Mt 12,32) é o pecado que não será perdoado, nem aqui nem no além. O desprezo voluntário da minha misericórdia constitui pecado mais grave que todos os anteriores. Neste sentido, o desespero de Judas desagradou-me e foi mais grave que a sua traição. Também para meu Filho! É por causa deste (último) julgamento falso que o pecador sofre a repreensão, ou seja, porque acha que sua falta é maior que meu perdão. Este é o motivo da punição, indo sofrer eternamente com os demônios.
A repreensão da injustiça acontece porque os pecadores sentem mais tristeza pelos próprios danos que por me terem ofendido. São injustos, no sentido de que não atribuem a mim o que me pertence e a si o que é deles. A mim deveriam oferecer o amor, a tristeza e contrição dos pecados cometidos. Mas agem no sentido oposto, só demonstrando autocompaixão e angústia pelo castigo que lhe merecem seus pecados. Como vês, são injustos. E por tal motivo são punidos por uma e por outra coisa.. Já que desprezaram meu perdão, com justiça mando-os ao castigo (Mt 25,41), juntamente com a escrava sensualidade e o tirano demônio, a quem na sensualidade serviam. Já que solidariamente me ofenderam, juntos serão punidos e atormentados. Os próprios demônios, encarregados por mim de cumprir a sentença de justiça, atormentá-los-ão.

Filha, a tua linguagem é incapaz de descrever os sofrimentos destes infelizes. Sendo três os seus vícios principais - egoísmo, medo de perder a boa fama e orgulho - aos quais se acrescentam a injustiça, a maldade e vergonhosos pecados, no inferno os pecadores padecem quatro tormentos principais.

Primeiro tormento é a ausência da minha visão. Um sofrimento tão grande que os condenados, se fosse possível, prefeririam sofrer o fogo vendo-me, que ficar fora dele sem me ver.
Segundo tormento, como consequência, é o remorso que corrói interiormente o pecador privado de mim, longe da conversação dos anjos, a conviver com os demônios.
Aliás, a visão do diabo constitui o terceiro tormento. Ao vê-lo, duplica-se o sofrer. No céu, os bem-aventurados exultam com minha visão e sentem rejuvenescer o prêmio recebido pelas fadigas amorosamente suportadas (no mundo); da mesma forma, mas em sentido contrário, os infelizes danados vêem crescer seus padecimentos ao verem os demônios. Nestes, eles se conhecem melhor, entendendo que por sua própria culpa mereceram o castigo. Assim o remorso os martiriza e jamais cessará porque o diabo é visto no próprio ser; tão horrível é a sua fealdade, que a mente humana não consegue imaginar. Se ainda o recordas, já te mostrei o demônio uma vez assim como ele é; foi por um átimo de tempo. Quando retornaste aos sentidos, preferias caminhar por uma estrada de fogo até o juízo final que tornar a vê-lo. No entanto, apesar do que viste, ignoras sua fealdade. Especialmente porque, segundo a justiça divina, ele é visto mais ou menos horrível pelos condenados, segundo a gravidade das culpas.
Quarto tormento é o fogo. Um fogo que arde sem consumir, sem destruir o ser humano. É algo de imaterial, que não destrói a alma incorpórea. Na minha justiça permito que tal fogo queime, que faça padecer, aflija; mas não destrua. É ardente e fere de modo crudelíssimo em muitas maneiras, conforme a diversidade das culpas. A uns mais, a outros menos, segundo a gravidade dos pecados.
Destes quatro tormentos derivam os demais: o frio, o calor, o ranger de dentes (Mt 22,13). Como vês, repreendo os pecadores nesta vida por seus julgamentos falsos e injustiças; se não se corrigem, faço-lhes uma segunda repreensão na hora da morte; pela ausência de esperança e arrependimento, sobrevem-lhes a morte eterna em indizível infelicidade.
Falta-me discorrer sobre a terceira repreensão: o juízo final. Já falei das duas primeiras repreensões; passo a tratar do julgamento geral, quando a alma do condenado sentirá renovar-se o seu tormento, e mesmo aumentar, com a recuperação do corpo. Será um padecimento intolerável, acompanhado de muita confusão e vergonha. Quero que entendas quanto se enganam os pecadores (neste mundo).
Por ocasião do juízo final, o Verbo encarnado virá com divina majestade repreender o mundo. Não mais se apresentará pobrezinho, na forma como nasceu da Virgem numa estrebaria, entre animais, para morrer depois no meio de ladrões. Naquela ocasião, ocultei nele o meu poder e permiti que suportasse penas e dores como homem. A natureza divina se unira à humana e foi enquanto homem que sofreu para reparar vossas culpas. No juízo final, não será assim, pois virá com poder a fim de julgar. As criaturas humanas estremecerão e ele a cada um dará a sentença conforme o merecimento. Tua língua não consegue exprimir o que sucederá aos condenados. Para os bons, Jesus será motivo de temor santo e alegria imensa.
Em si mesmo, meu Filho não terá diferenças, pois sendo Deus é imutável. Ele é uma só coisa comigo. Pela glória da ressurreição, até sua natureza humana não padece mudanças. Mas os condenados não o verão assim. Olhá-lo-ão com vista obscurecida e horrível, como lhes é próprio. O olho doentio, mesmo diante do sol, somente vê escuridão, ao passo que o olho sadio vê apenas luz. Não que o sol, em sua luz, transforme-se diante do cego ou daquele que possui bons olhos. O defeito está na cegueira. O mesmo acontece com os condenados. Verão o ressuscitado em escuridão, na confusão, no ódio. Repito: não por imperfeição da majestade divina, que virá julgar o mundo, mas por causa da própria cegueira.
Grande é o ódio dos condenados, pois já não amam o bem. Blasfemam continuamente contra mim! Queres saber porque já não podem desejar o bem? É porque, no fim desta vida, vincula-se o livre arbítrio. Com o cessar do tempo, já não se merece mais. Quem termina esta existência no pecado mortal, por direito divino fica para sempre apegado ao ódio, obstinado no mal, a roer-se interiormente. Seus sofrimentos irão aumentando sempre, especialmente por causa das demais pessoas que por sua causa irão para a condenação.
Tendes a respeito disto o exemplo do rico epulário (Lc 16,27), que suplicava a Lázaro para que fosse até seus irmãos, no mundo, a fim de adverti-los sobre os futuros castigos. Ele não agia assim por amor e compaixão deles. Não tinha mais a virtude da caridade, nem poderia desejar-lhes o bem, seja querendo honrar-me ou salvar os irmãos. Já te disse (14.3.3) que os condenados ao inferno não podem fazer o bem; eles só blasfemam contra mim, uma vez que suas vidas acabaram no ódio a todo bem. Por que então o rico epulário fala daquela maneira? Porque fora o mais velho dos irmãos e dera-lhes maus exemplos durante a vida; pessoalmente era causa de condenação eterna para eles. Se viessem para sua companhia, teria seus próprios sofrimentos aumentados.


(do Livro O Diálogo – Santa Catarina de Sena)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

IGREJA PROPAGADORA DA PALAVRA DE DEUS


                                                           Santuário de Fátima - Portugal

A voz da Igreja


Diz Deus:

A primeira repreensão iniciou, como acabei de dizer, com a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos. Fortalecidos pelo meu poder, iluminados pela sabedoria do amado Filho, receberam a plenitude do Espírito Santo. Este, que é uma só coisa comigo e com meu Filho, repreendeu então o mundo pela boca dos apóstolos através da mensagem de Cristo. Por tal forma eles, e os sucessores que ouviram a Verdade, repreendem o mundo. É a mesma perene repreensão, sempre feita ao mundo pelas Escrituras Sagradas e pelos meus servidores. Coloco o Espírito em seus lábios e eles dizem a verdade, da mesma forma como o demônio se põe na boca dos seus asseclas, que pecaminosamente vão pelo rio do pecado. É a mesma doce e contínua repreensão realizada por mim com imenso amor pela salvação humana. Não se pode dizer: "Ninguém me chamou a atenção"! A todos foi mostrada a verdade sobre o vício e a virtude, sobre os frutos da virtude e as consequências do pecado. Para que odiassem o mal e amassem o bem, a todos foi oferecido o amor e o santo temor. Nem foi um anjo a lhes revelar a mensagem da Verdade, de modo que pudessem escusar-se dizendo: "O anjo é um espírito feliz, não padece, não sente as fraquezas da carne como nós ou o peso do corpo". Não, não podem falar assim, pois enviei-lhes o Filho, homem mortal como vós.

E os demais seguidores do meu Filho, como eram? Criaturas mortais e passíveis como vós, sujeitos às lutas da carne contra o espírito. Assim aconteceu com o glorioso apóstolo Paulo, assim com os outros santos. Cada um deles, a seu modo, sofreu as tentações da sensibilidade. Permiti e ainda permito essas dificuldades para o crescimento da graça e das virtudes nas almas. Como vós, os santos nasceram no pecado, nutriram-se do mesmo alimento (eucarístico). Também eu sou o mesmo Deus daquelas épocas; meu poder não diminuiu. Posso, quero e sei socorrer a quem deseja ser por mim socorrido. Assim os pecadores abandonam o rio do pecado e vão pela ponte, vivendo a mensagem de meu Filho.


(do Livro O Diálogo – Santa Catarina de Sena)

AS CONSEQUÊNCIAS DOS PECADOS



                                                       PARAÍSO, PURGATÓRIO E O INFERNO


Visto que não demora muito para que O Aviso chegue, é bom estarmos conscientes sobre as conseqüências de participar deste grande milagre com pecados não confessados.

Diz Deus:

 A condenação eterna

Ocupei-me da felicidade dos santos, para que entendesses melhor a infelicidade dos condenados ao inferno. Aliás, outro tormento destes últimos é ver quanto os bem-aventurados são felizes. Tal conhecimento acrescenta-lhes a pena, da mesma forma como a condenação dos maus leva os justos a glorificar minha bondade. A luz é mais evidente na escuridão, e a escuridão na luz. Conhecer a alegria dos santos é dor para os réus do inferno.
Os condenados aguardam com temor o dia do juízo final. Sabem que então seus sofrimentos aumentarão. Ao escutar o terrível convite: "Surgite, mortui, venite ad juicium", a alma retornará ao corpo. Para os bem-aventurados será um corpo de glória; para os réus, um corpo para sempre obscurecido. Diante do meu Filho, sentirão grande vergonha. Também diante dos santos. O remorso martirizará a profundidade do seu ser, quero dizer, a alma; mas também o corpo. Acusá-los-ão: o sangue de Cristo, por eles derramado; as obras de misericórdia, espirituais e corporais, do meu Filho; o bem que eles mesmos deveriam ter praticado em benefício dos outros, segundo o evangelho. Terá seu castigo a maldade com que trataram os irmãos, pois eu mesmo, compassivo, perdoara-lhes (Mt 18,33). Serão repreendidos pelo orgulho, egoísmo, impureza, ganância; e tudo isso reavivará seus padecimentos.
No instante da morte, somente a alma é repreendida; no juízo final também o corpo, por ter sido instrumento da alma na prática do bem ou do mal conforme a orientação da vontade. Todo bem e todo mal é feito através do corpo. Por esse motivo, minha filha, os justos terão no corpo glorificado uma luz e um amor infinitos; já os réus do inferno sofrerão pena eterna em seus corpos, usados para o pecado. Ao recuperar o corpo diante de Jesus ressuscitado, os réus sentirão tormento renovado e acrescido: a sensualidade sofrerá na sua impureza vendo a natureza humana unida à divindade, contemplando este barro adâmico - vossa natureza - colocada acima de todos os coros angélicos, enquanto eles, os maus, estarão no mais profundo abismo.
Os condenados verão brilhar sobre os eleitos a liberalidade e a misericórdia, quais frutos do sangue de Cristo; saberão das dificuldades suportadas pelos bons e que agora se mostram em seus corpos como frisos de adorno para as vestes. O valor de tais sofrimentos físicos, não provém do corpo, mas da riqueza da alma; e ela que dá ao corpo o merecimento da luta, como a companheira na prática das virtudes. Tal exteriorização se verifica porque o corpo manifesta o resultado das batalhas da alma, como o espelho reflete a face do homem.
Ao se verem privados de tamanha beleza, os habitantes das trevas verão surgir em seus próprios corpos os sinais dos pecados e terão maiores tormentos e confusão. E ao soar aquela terrível sentença: "Ide, malditos, para o fogo eterno" (Mt 26,41), suas almas e corpos encaminhar-se-ão para a companhia dos demônios, sem mais remédio nem esperança. Cada um a seu modo, se envolverá na podridão em que viveu na terra, de acordo com as ações que praticou: o avarento arderá na sua ganância dos bens que desordenadamente amou; o maldoso, na sua ruindade; o impuro, na imunda e infeliz concupiscência; o injusto, nas suas iniquidades; o rancoroso, no seu ódio pelos outros. Quanto ao egoísmo, fonte de todos os males, arderá como princípio causador de tudo, em sofrimentos insuportáveis. O orgulho terá igual sorte. Assim, corpo e alma serão punidos em todos os vícios.
É desse modo que chegam ao próprio fim os homens que vão pela estrada inferior, no rio do pecado, sem refletir e reconhecer as próprias culpas, sem implorar o perdão. Nas pegadas do demônio, pai da mentira, entram pela porta do engano e chegam à condenação eterna.
Vós, como filhos meus escolhidos, ide pela estrada de cima, pela ponte; conservai-vos no caminho da Verdade, entrai pela porta verdadeira. Foi o que ensinou meu Filho: "Ninguém vai ao Pai senão por mim". Ele é a porta e o caminho que conduzem a mim, oceano de paz!


(do Livro O Diálogo – Santa Catarina de Sena)