“NO TERCEIRO DIA, UMA LUZ VINDA DOS CONFINS DO UNIVERSO, COMO UM METEORO, VAI DIRETO ATÉ O SEPULCRO, QUANDO UM ESTRONDO SACODE A TERRA, AFASTANDO A ENORME PEDRA QUE O SELAVA, E OS GUARDAS ROMANOS FICAM ATORDOADOS. A LUZ ENTÃO ENTRA NO CORPO INERTE DE JESUS, QUE EM SEGUIDA LEVANTA, TRANSPASSANDO OS PANOS DA MORTALHA COM SEU CORPO IMATERIAL FULGURANTE. RESSUSCITANDO DOS MORTOS COM UMA MATÉRIA INCORPÓREA DE INTENSA LUZ, CONHECIDA APENAS POR DEUS, DE UMA BELEZA INDESCRITÍVEL.”

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O JULGAMENTO COM OLHOS HUMANOS


Como nós vimos no artigo anterior, Jesus perdoa imediatamente o descrente Tomé, assim que leu o seu coração arrependido, como também os outros apóstolos por O terem abandonado durante sua crucificação. No texto a seguir veremos o julgamento de uma mulher, que ao reconhecer os apóstolos, os julga com os olhos humanos, usando de muita sinceridade, porém com muita severidade. Que sirva de reflexão para todos nós.

O JULGAMENTO COM OLHOS HUMANOS


...“Vamos voltar para trás...”, propõe Mateus.
“Ou, então vamos parar aqui na pequena ponte,” diz Bartolomeu.
Eles param. Mas Tiago do Zebedeu e o outro Tiago, o André e o Tomé voltam para trás e, pensativos, ficam olhando para o chão e para as coisas. O André, empalidecendo, mostra com o dedo a parede de uma casa, onde aparece, sobre a brancura da cal, uma mancha rubro escura, e diz: “É sangue! Será talvez sangue do Mestre? Estaria já perdendo sangue aqui? Oh! Dizei-me!”
“E que queres que nós te digamos, se nenhum de nós o acompanhou”, diz desconsolado, Tiago do Alfeu.
“Mas, meu irmão, e sobretudo João, o acompanharam.”
“Não logo. Não tão logo. Disse-me João que o acompanharam da casa do Malaquias. Daqui não havia nenhum. Ninguém de nós...” diz Tiago do Zebedeu.
Eles estão olhando a grande mancha escura sobre o muro branco, a pouca distância do chão, e o Tomé observa: “Nem a chuva foi capaz de lavá-la. Nem a saraiva que caiu tão forte por estes dias conseguiu fazê-la despegar-se daquele muro...”
“Vamos perguntar aos daquela casa. Talvez eles saibam...” aconselha Mateus, que já os alcançou.
“Acho que não é bom. Sabes por quê? Eles poderiam ser inimigos do Cristo e...”, responde Tomé.
“E nós continuamos a ser uns covardes...”, termina Tiago do Alfeu, dando um grande suspiro. Pouco a pouco todos se foram aproximando daquele muro e o estão olhando.
Vai passando por lá uma mulher, uma retardatária, que vem voltando da fonte com os cântaros pingando água fresca. Ela põe os cântaros no chão, e os interroga:
“Estais vendo aquela mancha no muro? Sois vós discípulos do Mestre? Vós me pareceis sê-lo por serdes magros no rosto, e também porque eu não vos vi indo atrás do Senhor, quando Ele passou por aqui, preso e sendo conduzido para a morte. Isso me põe na incerteza porque um discípulo que segue o Mestre nas horas boas, e se julga honrado de ser discípulo dele, e tem sempre olhares severos para aqueles que não estão com Ele, prontos a deixar tudo e acompanhar o Mestre, pois devem também nas horas más ir atrás Dele. Deveria pelo menos fazer isso. Mas eu não os vi. Não. Não vos vi. E, se eu não vos vi, isso é sinal de que eu, uma mulher de Sidon, estive atrás daquele que não foi acompanhado pelos seus discípulos israelitas. Mas eu recebi um beneficio Dele. Vós... Será que a vós Ele nunca havia feito um benefício? Isso me causa estranheza, pois Ele fazia benefícios até aos gentios e samaritanos, aos pecadores e até aos ladrões, dando-lhes a vida eterna, quando não podia mais dar-lhe a vida da carne. Será que Ele não vos amava? Isso era sinal de que vós éreis piores do que as áspides e das hienas imundas, ainda que na verdade eu creio que Ele amasse até as víboras e os chacais, não por serem o que eram, mas porque foram criados por seu Pai. Eles são sangue. Sim. São sangue. Também é sangue uma mulher da beira do grande mar. Antigamente aquelas terras eram dos filisteus, por isso os habitantes de lá ainda são um pouco desprezados pelos hebreus. No entanto, ela soube defender o Mestre até que o marido bateu nela com tanta força, que depois de tê-la espancado, quebrou-lhe a cabeça, e o cérebro e o sangue saíram para fora e borrifaram a parede da casa no lugar onde agora os órfãos estão chorando. Mas ela havia recebido um benefício. O Mestre havia curado o seu marido, que estava doente de uma doença horrível. E por isso ela amava o Mestre. E o amou até chegar a morrer por ele. E ela foi, antes Dele para o seio de Abraão, como dizeis vós. Também Anália foi antes Dele, e sabia morrer assim também ela, se a morte não a tivesse levado antes. E também uma mãe, mais acima, lavou com sangue, o sangue do ventre aberto pelo filho brutal, a fim de defender o Mestre. E uma velha morreu de dor, ao ver passar ferido e espancado Aquele que havia feito voltar a vista ao seu filho. E um velho mendigo morreu, porque ele colocou o seu corpo em defesa, e recebeu na cabeça a pedrada, que estava destinada à cabeça do vosso Senhor. Pois não é verdade que o reconhecíeis como vosso Senhor? Os valentes de um rei morrem ao redor dele. Mas de vós nenhum morreu, vós estáveis sempre longe daqueles que o espancavam, Ah! Não. Houve um que morreu. Ele se matou. Mas não por sentir alguma dor. Também não foi para defender o Mestre. Primeiramente ele o vendeu, e depois o mostrou qual era, por meio de um beijo, e, em seguida se matou. Ele não tinha mais nada que fazer. Não tinha mais por onde crescer em maldade. Nisto ele já estava formado, estava perfeito, como o Belzebu. O mundo o teria apedrejado, para tirá-lo desta terra. Oh! Eu creio que esta piedosa que morreu, para impedir que o Mártir levasse pancadas, eu creio que a velha Ana que morreu pela dor de vê-lo daquele modo, e o velho mendigo, e a mãe do Samuel e a virgem que morreu, e eu que não sei subir ao Templo, pois tenho pena dos cordeiros e das pombas que são imoladas, eu creio que teríamos tido a coragem de apedrejá-lo, e não teríamos tremido, ao vê-lo ferido pelas nossas pedradas. Ele o sabia, e poupou ao mundo o trabalho de matá-lo, e poupou-nos a nós o termos que fazer-nos carrascos para vingar o Inocente.”
Ela olha para eles com desprezo. E o seu desprezo vai ficando cada vez mais evidente, à medida que ela vai falando. Seus olhos, grandes e negros, estão duros como o olho de uma ave de rapina, quando está olhando um grupo que não sabe ou não pode reagir. E ela assobia por entre os dentes sua última palavra: “bastardos!”, e recolhendo as suas ânforas, ela vai-se embora, contente por ter podido cuspir todo o seu desprezo para com os discípulos que abandonaram o Mestre.
Eles estão aniquilados. Estão com as cabeças inclinadas, os braços pendentes e desfibrados. A verdade os esmaga. E eles ficam meditando sobre as conseqüências de sua vileza. E continuam calados.
Nem ousam olhar-se um ao outro. Até João e o Zelotes, os dois que são inocentes desta culpa, estão agora como os outros, talvez pela dor de terem visto tão humilhados os companheiros, e pela impossibilidade de curar aquela ferida que lhes fez aquela mulher com suas palavras sinceras.
A estrada já está na penumbra. A lua, nos seus últimos dias, levanta-se tarde, e por isso o crepúsculo escurece depressa. O silêncio é absoluto. Não há nenhum rumor, nem se ouve nenhuma voz humana.

( O Evangelho como me foi Revelado – Maria Valtorta, vol. 10, pg. 293 a 296)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

APARIÇÃO AOS APÓSTOLOS COM TOMÉ


APARIÇÃO AOS APÓSTOLOS COM TOMÉ


Os apóstolos estão reunidos no Cenáculo. Estão ao redor da mesa, onde foi consumada a Páscoa. Mas, por respeito ao lugar do centro onde se assentou Jesus, ele foi deixado vazio.
Também os apóstolos, agora que não há quem os concentre, e distribuem-se por sua própria vontade, ou por uma amorosa escolha, foram-se colocando de modo diferente. Mas Pedro está ainda em seu lugar. Contudo, no lugar de João, agora está o Judas Tadeu. Depois vem o mais ancião dos apóstolos, que eu não sei ainda quem é, depois vem Tiago, irmão de João, que está quase no canto da mesa, do lado direito, olhando-se daqui onde eu estou. Perto do Tiago, mas do lado mais curto da mesa, está sentado João. Depois de Pedro, para o lado contrário vem Mateus, e depois dele Tomé, depois um, cujo nome eu não sei, depois André, depois o Tiago, irmão de Judas Tadeu, e depois um outro cujo nome eu não sei, dos outros lados. No lado do comprimento fica a frente de Pedro, o lugar que está vazio, estando os apóstolos mais vizinhos dele em suas cadeiras, em número menor do que foi na Páscoa.
As janelas estão trancadas e as portas também. O lampadário, aceso somente em dois bicos, derrama uma luz fraca, somente sobre a mesa. O resto do vasto salão está na penumbra.
João, que tem atrás de si uma credencia, está encarregado de servir aos companheiros de tudo o que desejam dos seus parcos alimentos, compostos de peixe, que já está sobre a mesa, pão, mel e uns queijinhos frescos. E é justamente quando ele se vira de novo para a mesa, a fim de passar ao irmão o queijo que ele pediu, que João vê o Senhor.
Jesus apareceu de um modo bem curioso. A parede que fica atrás das costas dos comensais, toda ela tendo um pedaço a menos do que o canto da portinha, iluminou-se com uma luz fraca e fosforescente, como aquela que emitem certos quadrinhos, que são luminosos somente no escuro da noite. A luz, à altura de quase dois metros, tem uma forma oval, como se fosse um nicho. Na luminosidade, é como se avançasse por detrás de véus de névoas luminosa, de onde vem emergindo Jesus, cada vez mais nítido.
Não sei se consigo explicar-me bem. Fica parecendo que Ele transpareça através da espessura da parede. Mas ela não se abre. Fica sempre compacta, mas seu corpo passa com a mesma facilidade. A luz parece ser a primeira emanação do seu corpo, o sinal de que Ele se aproxima. O Corpo de antes agora é formado por leves linhas de luz, do mesmo modo como eu vejo no Céu o Pai e os santos Anjos: é um corpo imaterial. Depois Ele vai se materializando cada vez mais, tomando afinal completamente o aspecto de um corpo real. Do seu Divino Corpo Glorificado.
Eu levei muito tempo para descrever, mas a coisa aconteceu em poucos segundos.
Jesus está vestido de branco, como quando ressuscitou e apareceu à sua Mãe. Está belíssimo, amoroso e sorridente. Está com os braços ao longo dos lados do corpo, um pouco afastadas dele, e com as palmas viradas para os apóstolos. As suas chagas das mãos parecem duas estrelas de diamantes, das quais partem dois raios vivíssimos. Não estou vendo seus Pés, cobertos pelas vestes, nem o seu lado. Mas do tecido da sua veste, que não é terrena, transparece luz nos lugares onde ela está cobrindo as Divinas feridas. No princípio parece que Jesus não seja mais do que um candor lunar, porque quando Ele se concretiza, aparecendo fora do halo de luz, tem as cores naturais nos seus cabelos, nos olhos e na pele. Afinal, ó Jesus, Jesus Homem Deus, mas tornado mais solene, agora que Ele ressuscitou.
João o vê, quando Ele já está assim. Nenhum outro havia percebido a aparição. João se levanta de repente, deixando cair sobre a mesa o prato, com os queijinhos redondos e, apoiando as mãos na beira da mesa, inclina-se um pouco para ela, e grita um “Oh!” em voz baixa, mas muito intenso.
Os outros, que haviam levantado os olhos de cima dos seus pratos, ao cair, fazendo barulho o prato dos queijinhos e ao salto de João, o ficaram olhando, espantados, e, vendo a posição extática Dele, o acompanham com seus olhares. Reviram a cabeça, ou giram-na sobre si mesmos, conforme o lugar em que estão, em relação ao Mestre, e aí é que eles vêem a Jesus. Todos se põem de pé, comovidos e felizes, e correm para Ele que, acentuando o seu sorriso, vai para a frente no rumo deles, caminhando agora pelo chão, como todos os mortais.
Jesus que antes olhava somente para João, e eu acho que este se tenha virado, atraído por aquele olhar que o acaricia, olha para todos e diz: “A paz esteja convosco.”
Todos agora estão ao redor Dele, uns de joelhos diante de seus pés, e entre esses estão Pedro e João e João beija uma ponta da veste, e a põe sobre o seu rosto, como que para ser acariciado, e, enquanto os outros estão atrás, ele está muito inclinado em um ato de obséquio.
Pedro querendo andar mais depressa, para chegar logo, deu um verdadeiro pulo de cima da cadeira, apeando dela, sem esperar que Mateus, que saiu por primeiro, deixasse livre o lugar. É preciso lembrar que as cadeiras eram daquelas em que podiam sentar-se duas pessoas de cada vez.
O único que ficou um pouco de longe, embaraçado, é o Tomé. Ele foi ficar ajoelhado perto da mesa, mas não ousa ir para a frente, e até parece que esteja procurando esconder-se atrás de um canto dela.
Jesus estendendo suas mãos para que as beijem, pois os apóstolos muito desejosos delas, as estão procurando, em uma santa e amorosa porfia corre o olhar por cima das cabeças inclinadas, como se estivesse procurando o undécimo. Mas Ele já o viu, desde o primeiro momento, e só faz assim para dar tempo ao Tomé para criar coragem e aparecer. E, vendo que o incrédulo está com vergonha por sua falta de fé e que ainda não tem coragem, o chama: “Tomé, vem cá.”
A voz de Jesus está mais imperiosa do que na primeira vez. Tomé se levanta, teimoso e confuso, e vai até Jesus.
“Eis aqui o que se não ver, não crê!, exclama Jesus. Mas sua voz vem com um sorriso de perdão. Tomé o ouve, cria coragem de olhar para Jesus, ao ver que Ele está sorrindo mesmo, e decide ir mais depressa.
Vem cá, bem perto de Mim. Olha. Vem pôr o teu dedo aqui, se é que não te basta olhar, põe-no nas feridas de teu Mestre. Jesus estendeu as mãos, e depois abriu suas vestes no peito, descobrindo a ferida do lado.”
Agora a luz não vem mais das feridas. Não vem mais, desde quando, tendo saído daquele halo de luz lunar, Ele se pôs a caminhar como um homem mortal, e as feridas aparecem, em sua sangrenta realidade: são dois furos irregulares, dos quais o esquerdo vai até o polegar, atravessam o pulso e a palma em sua base, e vê-se um longo talho que, em sua parte superior, parece ter a forma de um acento circunflexo. É a ferida do lado.
Tomé treme, olha, mas não toca. Move os lábios, mas não consegue falar claramente.
Dá-me a tua mão, Tomé. Diz Jesus com muita doçura. E pega com sua mão direita a mão direita do apóstolo, segura o indicador dela e o leva até o furo de sua mão esquerda, e o enfia até bem dentro dele, a fim de fazê-lo compreender que a palma da mão foi atravessada. Depois leva a mão dele ao lado, ou melhor, pega os quatro dedos pela base, no metacarpo, e leva-os até o rasgão do peito, enfiando-os também, na ferida. Não se limita a apoiá-los na beirada, mas os segura lá dentro, olhando fixamente para o Tomé.
Com um olhar severo, mas benigno, Jesus vai dizendo: “Coloca aqui os teus dedos e a mão, se o quiseres, no meu lado, e não sejas mais um incrédulo, mas um fiel. Isso Ele ia dizendo, à medida que ia fazendo o que eu disse antes.
Tomé parece que a curta distância a que esteve a mão do Tomé do Coração Divino, quase tocando dele parece tê-lo ajudado a falar e a pronunciar bem as palavras, e ele, caindo de joelhos e com os braços levantados, em um frouxo de choro de arrependimento, e diz: “Meu Senhor e meu Deus!” E não sabe dizer mais nada.
Jesus o perdoa. Põe-lhe a mão direita sobre a cabeça e responde: “Tomé, Tomé! Agora crês, porque viste... Mas felizes aqueles que crerão em Mim, sem Me terem visto! Que prêmio não deverei Eu dar a eles, se Eu devo premiar a vós, cuja fé teve que ser socorrida pelo socorro da vista?
Depois Jesus põe o braço sobre o ombro de João, pegando o Pedro pela mão, e se aproximando da mesa. Ele vai sentar-se em seu lugar. Agora, como na tarde da Páscoa. Mas Jesus quer que Tomé se assente depois de João.
Comei, meus amigos, diz Jesus.
E Jesus pega os queijinhos colocados sobre a mesa, ajunta-os em um prato, corta-os e os distribui, e o primeiro pedaço Ele o dá ao Tomé, depois de tê-lo posto sobre um pedaço de pão, lho entrega por detrás das costas de João, passando depois o vinho das ânforas para o cálice, que vai sendo entregue aos seus amigos, e desta vez é o Pedro o primeiro a ser servido. Em seguida, faz que lhe entreguem uns favos de mel, e os reparte, dando, em primeiro lugar um pedaço e João, com um sorriso que é mais doce do que o louro mel. E do mel, para encorajá-los, Ele também come, mas só prova o mel.
João, conforme o seu costume, apóia a cabeça sobre o ombro de Jesus e o aperta sobre o coração, e fala, conservando-o assim.
“Não deveis perturbar-vos, meus amigos, quando Eu vos reúno. Sou sempre o vosso Mestre, que partilho convosco o alimento e o sono, e que vos escolhi para que vos ameis. Agora mesmo Eu vos amo.” Jesus põe bem em destaque estas duas últimas palavras.
“Vós,” continua Ele, “estivestes comigo nas provações... Estareis também comigo na Glória. Não baixeis a cabeça. Na noite do domingo, quando apareci a vós pela primeira vez, depois de minha ressurreição, infundi em vós o Espírito Santo... que sobre ti também, que não estavas presente, desça... Não sabeis que a infusão do Espírito Santo é como um batismo de fogo, porque o Espírito é amor, e o amor anula as culpas. O pecado que cometestes, quando me abandonastes, já foi perdoado.
Ao dizer isso, Jesus beija a cabeça de João, que não o abandonou. João chora de alegria.
Vós deveis estar certos de que este poder Eu o possuo perfeitamente, e faço uso dele sobre vós, que deveis ser perfeitamente limpos, a fim de poderdes limpar os que vierem a vós, pois estarão sujos pelo pecado. Como poderia alguém julgar a um outro, se estivesse com traves diante de seus olhos e com pesos infernais em seu coração. Como poderia ele dizer: “Eu te absolvo em nome de Deus?”, se, pelos pecados não tivesse a Deus consigo?
Meus amigos pensai na vossa dignidade de sacerdotes.
Antes, Eu estava entre os homens para julgar e perdoar. Agora Eu daqui me vou para o Pai. Eu estou de volta para o meu Reino. Não me foi tirada a faculdade de julgar. Ao contrário, ela está toda em minhas mãos, pois o Pai ma deferiu. Mas é um tremendo julgamento. Pois ele acontecerá, quando não houver mais possibilidade de fazer-se perdoar com anos de expiação sobre a Terra. Cada criatura virá a mim com o seu espírito, quando ela deixar, pela morte material da carne, como uns despojos inúteis. E Eu a julgarei por uma primeira vez. Depois a Humanidade voltará, com sua veste de carne, recebida de novo por uma ordem do Céu, a fim de ser separada em duas partes, os cordeiros ficarão com o Pastor, e os bodes com seu Torturador. Mas, quantos seriam os homens que estariam com o seu Pastor, se, depois do banho do Batismo, eles não tivessem tido mais quem os perdoasse em meu Nome?
É por isso que Eu crio os sacerdotes. Para salvarem os que foram salvos por meu Sangue. Mas os homens continuam a cair de novo na Morte. É preciso que quem para isso tem poder, os lave continuamente nele, setenta e sete vezes para que eles não fiquem presos pela Morte. Vós e os vossos sucessores fareis isso. Por isso, Eu vos absolvo de todos os vossos pecados. Porque vós tendes a necessidade de ver, e a culpa vos torna cegos, tirando dos espíritos a luz, que é Deus. Porque vós tendes o ministério de purificar, e a culpa emporcalha, porque tira do espírito a Pureza que é Deus.
Grande ministério é o vosso de julgar e absolver em meu Nome!
Quando consagrardes para vós o Pão e o Vinho, e deles fizerdes o meu Corpo e o meu sangue, fareis uma grande, sobrenaturalmente grande e sublime coisa.
Para fazê-la dignamente, deveis estar puros, porque ireis tocar naquele que é o puro, e vos nutrireis da Carne de um Deus. Puros de coração, de mente, nos membros e na língua devereis estar, porque com o coração deveis amar a Eucaristia, e não deverão estar misturados com esse amor celeste os amores profanos, pois seriam sacrilégios.
E puros de mente devereis estar, porque devereis crer e compreender esse mistério de amor, já que a impureza por pensamentos mata a fé e a inteligência. Fica em vós a ciência do mundo, mas morre em vós a Sabedoria de Deus.
Puros nos membros devereis ser, porque ao vosso seio descerá o Verbo, assim como desceu no seio de Maria, por obra do Amor.
Tendes o exemplo vivo de como deve ser um seio que acolhe o Verbo, que se faz Carne. O exemplo é a Mulher sem culpa de origem, e sem culpa individual, a Mulher que Me trouxe.
Observai como é puro o cume do monte Hermon, quando ele está ainda enfaixado pelo véu da neve invernal, olhado do monte das oliveiras, ele parece um cúmulo de lírios despetalados, ou de espuma do mar, ajuntada pelo vento do mar, e que se eleva como uma oferta, ao encontro de outro candor, o das nuvens trazidas pelo vento de abril aos campos azuis do céu.
Observai um lírio que abre agora a boca de sua corola para um sorriso perfumado. Mesmo assim sendo, tanto uma pureza como a outra são menos vivas do que a do seio materno que me trouxe.
A poeira transportada pelos ventos caiu sobre as neves do monte e sobre a seda da flor, o olho humano não percebe, por ser ela tão fina como é. Mas ela existe, lá está, e mancha o candor.
Outra coisa: olhai a pérola mais pura, que tenha sido tirada do mar, arrancada de sua concha nativa para ir adornar o cetro de um rei. Ela é perfeita em sua irisdescência compacta, que desconhece o contacto profanador de qualquer carne, tendo-se formado ela como podia ser, na cavidade da madrepérola da ostra, e isolada na safira fluídica das profundidades marinhas.
Contudo ela é menos pura do que o seio que me trouxe.
No centro dela está o grãozinho de areia: um corpúsculo muito miúdo, mas sempre uma coisa da Terra. Naquela que é a Pérola do mar não existe grãozinho de pecado, nem de concupiscência. Como uma Pérola nascida no Oceano da Trindade para levar à Terra a Segunda Pessoa: Ela é compacta, ao redor do seu centro, que não é uma semente de concupiscência terrena, mas uma centelha do Amor eterno. É uma centelha que, encontrando correspondência nela, gerou os turbilhões da Divina Estrela, que agora chama e atrai os filhos de Deus. Eu, o Cristo, a Estrela da Manhã.
Esta Pureza inviolada é a que Eu vos dou para servir de exemplo.
Mas quando mais tarde, como uns vindimadores ao lado de uma tina, vós mergulhardes as mãos no mar do meu Sangue, e introduzirdes nelas as estolas corrompidas dos miseráveis que pecaram, sede vós, além de puros, perfeitos, para não vos manchardes com um pecado maior, isto é, com mais pecado, derramando-o e tocando com sacrilégio no Sangue de um Deus, ou faltando com a caridade e a justiça, negando-o ou dando-o com um rigor que não é do Cristo, que foi bom para com os maus, a fim de atraí-los ao seu Coração, e três vezes bons para com os fracos, a fim de confortá-los com a confiança, usando deste rigor três vezes erradamente, porque indo contra a minha Vontade, a minha Doutrina e Justiça. Como é que podem ser rigorosos com os cordeiros, se eles são uns pastores ídolos de si mesmos?
Ó meus diletos, meus amigos que Eu mando pelos caminhos do mundo, a fim de continuarem a obra que Eu iniciei e que será executada, enquanto existir o tempo, lembrai-vos destas minhas palavras.
Eu vo-las digo a fim de que as digais àqueles que vós consagrareis para o ministério ao qual Eu vos consagrei.
Eu estou vendo... Eu olho através dos séculos... o tempo e as multidões numerosas dos homens que irão existir estarão todos diante de Mim... Eu estou vendo... as matanças e guerras, as pazes mentirosas e as horrendas carnificinas, o ódio e o latrocínio, a sensualidade e o orgulho. De vez em quando, um oásis verde, um. Período de volta á Cruz. Como um obelisco que parece uma onda por entre as áridas areias do deserto, a minha Cruz será levantada com amor, depois que o veneno do mal tiver tornado doentes de raiva os homens e, ao redor dela, plantai à beira das águas saudáveis, onde florescerão, as palmeiras de um período de paz e de bem no mundo.
Os espíritos como uns veados e gazelas, como umas andorinhas e pombas, irão para aquele repousante, fresco e nutritivo refúgio, para se curarem de suas dores e novamente ficarem esperando. E isso fará que as árvores entrelacem abundantemente os seus ramos, formando uma espécie de cúpula para os protegerem das tempestades e das canículas, e fará que fiquem longe as serpentes e as feiras, por meio do Sinal que põe o Mal em fuga. E assim será, enquanto os homens o quiserem.
Eu estou vendo... Homens e mais homens... mulheres, velhos, meninos, guerreiros, estudiosos, doutores, camponeses... Todos vêm e passam carregando o seu fardo de esperanças e de dores. Eu vejo como muitos vacilam, porque a dor é demais, e a esperança foi a primeira a desaparecer... do meio da carga pesada demais que, bem grande, caiu e se espalhou pelo chão. E muitos Eu vejo que caem às beiras da estrada, porque muitos, mais fortes ou mais sortudos em seu peso, que é mais leve. E muitos Eu vejo que, sentindo-se abandonados pelos que passam, e até pisados, e que, percebendo que vão morrer, chegam a odiar e a maldizer.
Pobres filhos! Entre todos esses perseguidos pela vida, que passam ou que caem, o meu amor tem intencionalmente espalhado os samaritanos piedosos, os médicos bons, as luzes da noite, as vozes no silêncio, a fim de que os fracos que caem encontrem uma ajuda, tornem a ver a luz, tornem a ouvir a voz que lhes diz: “Espera. Tu não estás sozinho. Acima de ti está Deus. Contigo está Jesus.” Eu coloquei intencionalmente essas caridades operantes, para que os meus pobres filhos não morressem em seu espírito, perdendo a morada eterna, mas continuassem a crer em Mim Caridade, vendo nos meus ministros o reflexo de Mim.
Mas, ó que dor faz sangrar a ferida do Coração, como quando ela foi aberta lá no Gólgota!
Mas, que é que estão vendo os meus olhos Divinos?
Será que não há sacerdotes por entre as numerosas turbas que vão passando?
Será por isso que sangra o Meu Coração?
Ou será que estão vazios os seminários?
O meu Divino convite será que não chega aos corações?
Ou o coração do homem não é mais capaz de ouvi-lo?
 Não. Durante os séculos haverá seminários, e neles haverá levitas. Deles sairão sacerdotes, porque na hora da adolescência ele se terá feito ouvir como aquela voz celeste em muitos corações, e eles terão atendido a ela. Mas outras, muitas outras vozes chegar-lhe-ão depois com a juventude e a maturidade, e a minha voz ficará dominada naqueles corações. A minha voz que, durante séculos, fala aos seus ministros, a fim de que eles sejam sempre o que agora vós sois: os apóstolos na escola de Cristo.
A veste ficou. Mas o sacerdote morreu. Sombras inúteis e escuras não serão uma alavanca que levanta, nem uma corda que puxa, uma fonte que dessedenta, um grão que mata a fome, um coração que é uma almofada, uma luz nas trevas, uma voz que repete o que o Mestre lhe diz. Mas eles serão para a pobre humanidade um peso de escândalo, um peso de morte, um parasita, uma putrefação... Que horror! Os Judas maiores do futuro, Eu os terei ainda, e sempre, em meus sacerdotes.
Meus amigos, Eu estou na glória, e ainda choro. Tenho piedade dessas turbas infinitas, desses rebanhos sem pastores, ou com pastores raros demais. Sinto uma piedade infinita. Pois bem. Eu o juro pela minha Divindade que aos que foram eleitos Eu lhes darei o pão, a água, a luz, a voz, a todos os que forem eleitos para estas obras.  Eu repetirei através dos séculos o milagre dos pães e dos peixes. Com uns poucos e desprezíveis peixinhos e com uns escassos pedaços de pão, ó almas humildes e leigas, Eu darei de comer a muitos, e com eles ficarão saciados, e assim será para os futuros, porque Eu tenho compaixão deste povo, e não quero que ele pereça.
Benditos aqueles que merecerem ser tais. Não benditos porque são tais, mas porque o terão merecido com seu amor e seu sacrifício.
E benditos aqueles sacerdotes, que souberam permanecer apóstolos: pão, água, luz, voz, repouso e remédio para os meus pobres filhos. Com uma luz especial eles resplandecerão no Céu.
 Eu vo-lo juro.
 Eu, que sou a Verdade.
Levantemo-nos meus amigos, vinde comigo para que Eu vos ensine ainda a rezar. A oração é o que alimenta as forças do apóstolo, porque ela o une intimamente com Deus.
E nesse ponto Jesus se levanta, e se encaminha para a escada. Mas quando chega ao pé da escadinha, Ele se vira e olha para mim. Oh! Pai! Ele se vira, e está olhando para mim. Está pensando em mim. Está procurando a sua pequena “voz”, e a alegria de estar com os seus amigos não o faz esquecer-se de mim. Ele me olha por cima das cabeças dos discípulos, e me acena. Levanta a mão para abençoar-me, e diz:
“A paz esteja contigo.”
E a visão termina.



( O Evangelho como me foi Revelado – Maria Valtorta, vol. 10, pgs. 273 a 286)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A INCREDULIDADE DE TOMÉ


A INCREDULIDADE DE TOMÉ



Os dez estão no Pátio da Casa do Cenáculo. Estão falando uns com os outros, e depois vão rezar. Depois disso, continuam a conversas.
Diz Simão Zelotes: “Eu estou realmente aflito pelo desaparecimento do Tomé. E não sei onde é que se pode ir procurá-lo.”
“Eu também, não. “ Diz João. “Na casa de seus pais ele não está. E não foi visto por ninguém. Será que o prenderam?
Se assim fosse, o Mestre não teria dito: “ Eu direi o resto, quando aqui estiver o ausente.”
É verdade. Mas eu quero ir ainda a Betânia. Talvez ele esteja vagando por aquelas montanhas, sem ter coragem de aparecer.”
“Vai, vai, Simão. Tu reuniste a todos nós... e nos salvaste ao reunir-nos porque nos levaste para a casa de Lázaro. Vós ouvistes que palavras disse o Senhor a respeito dele? Ele disse: foi o primeiro que em meu Nome perdoou e encaminhou alguém. Por que é o Senhor não o põe no lugar de Iscariotes?” Diz Mateus.
“Porque Ele não quer dar a um perfeito amigo o lugar de um traidor, responde Filipe.
Há pouco, eu ouvi, quando fiz um giro pelas feiras, e conversei com vendedores de peixe que... sim, eu posso confiar neles, que os do Templo não sabem o que fazer com o corpo do Judas. Não sei quem foi... mas nesta manhã, ao romper do dia, os guardas do Templo encontraram, dentro do recinto sagrado o corpo dele, já podre, mas ainda com a corda no pescoço. Eu acho que devem ter sido uns pagãos que o tiraram de onde ele estava, e o jogaram lá dentro, quem sabe como,” diz Pedro.
“Pois a mim me disseram, ontem de tarde, e lá na fonte eu ouvi dizer que ontem de tarde eles jogaram as vísceras do traidor foi na frente da casa de Anás, certamente são os pagãos. Porque nenhum hebreu teria tocado, depois de cinco dias de morto, naquele corpo. Quem sabe o tanto que ele estava podre.” Diz Tiago do Alfeu.
“Oh! Já era um horror, desde o sábado!”, e João empalidece, só de lembrar.
“Mas, como é que ele foi parar naquele lugar? Será que era dele? E quem é que chegou a saber sobre Judas alguma coisa de certo? Vós bem sabeis como ele era, todo fechado e complicado..”
“Podeis dizer Bartolomeu: é um mentiroso. Ele nunca foi sincero. Durante três anos, ele esteve conosco, e nós, que tínhamos tudo em comum, diante dele ficamos como que diante do muro de uma fortaleza.”
“De uma fortaleza? Oh! Simão! Dize labirinto!” exclama Judas de Alfeu.
“Oh! Escutai! Não falemos dele. Parece-me que, ao lembrar-nos dele, o tivéssemos aqui presente, e que ele tivesse tornado a criar dificuldades para nós. Eu gostaria de cancelar a lembrança dele do meu e do vosso coração, seja ele hebreu ou gentio. Hebreu, por não ter-se envergonhado de nossa raça ter parido aquele monstro. Gentio, para que nenhum deles um dia pudesse chegar a dizer: “O traidor dele foi um de Israel.” Eu sou um rapaz. E não deveria falar diante de vós por primeiro. Pois aqui estão p Zelotes e o Bartolomeu, que são instruídos, e aqui estão os irmãos do Senhor. Mas, vede bem, eu gostaria de colocar logo, no duodécimo lugar alguém que fosse santo, porque, enquanto eu vir aquele lugar vazio em nosso grupo, estarei vendo a boca do Inferno, com os seus fedores entre nós. Eu tenho medo de que ele nos desencaminhe.”
Mas, não! Até a Mãe disse: “Eu vi Satanás, ao ver Judas de Keriot.” Oh! Precisamos agir logo, e procurar um santo, a fim de colocá-lo naquele lugar!”
“Escuta, eu não escolho nenhum. Se Ele, que é Deus, escolheu um Iscariotes, quem é que o pobre Pedro irá escolher?”
“Contudo terás esse dever...”
“Não, meu caro! Eu não escolho nada. Mas pedirei ao Senhor que escolha, já bastam os pecados feitos pelo Pedro!”
“Há tantas coisas que precisamos pedir. Mas outro dia ficamos como uns pasmados. E devemos procurar quem nos ensine. Porque... Como iremos fazer para entendermos se uma coisa é mesmo pecado, ou não? Olha como o Senhor fala de modo diferente de nós sobre os pagãos. Olha como Ele desculpa mais uma vileza, e uma renegação, do que tudo o que não esculpe uma dúvida sobre o seu possível perdão... Oh! Eu tenho medo de fazer o mal”, diz desconsolado Tiago de Alfeu.
“Eu também.”
“Eu também.”
“E também eu!”
Estão todos nas mesmas condições e, assombrados, olham um para o outro. E recorrem a solução que já se tornou habitual. “Iremos a Lázaro”, dizem eles. Talvez lá nos encontraremos com o Senhor e... Lázaro nos ajudará.
Estão batendo no portão. Todos se calam para escutar. E soltam um “Oh!” de espanto, ao verem entrar no vestíbulo Elias, junto com Tomé. Está um Tomé tão estranho, que nem parece mais ser ele.
Os companheiros se agrupam ao redor dele, gritando com alegria: “ Já sabes que Ele ressuscitou e voltou? E que te está esperando, para depois voltar!”
“Sim. Elias também mo disse. Mas eu não acredito nisso. Eu creio só naquilo que eu vejo. E o que eu vejo, é que para nós está tudo acabado.  Estou vendo como estamos todos espalhados. Vejo que não há mais nem um sepulcro conhecido, aonde se possa ir para chorá-lo. Eu vejo o Sinédrio, que quer desfazer-se, e o seu cúmplice, que decretou o seu sepultamento, como se ele fosse um animal sujo, aos pés da oliveira, da qual ele se pendurou, e dos seguidores do Nazareno. Na Sexta-feira eu andei parando pelas portas, e me disseram: “Tu também eras um dos dele? Ele já morreu. Cunha o ouro de novo.” E eu escapuli...”
“Mas onde é que estavas? Nós andamos te procurando por toda parte?”
“Por onde? Eu fui para a casa de minha irmã, em Rama. Depois eu perdi a coragem de entrar... para não ser censurado por uma mulher. Em seguida, andei vagando pelas montanhas da Judéia, e ontem fui parar em Belém, na gruta Dele. Quanto eu chorei. Adormeci no meio dos escombros, e lá me encontrou Elias, que tinha vindo, não sei para que...”
“Para que? Porque nas horas de alegria ou de dor muito grande demais, vai-se mais para onde se percebe que está Deus. Eu, muitas vezes nestes últimos anos, havia andado por lá, de noite, como um ladrão, para sentir como minha alma era acariciada, só com a lembrança dos vagidos Dele. E depois eu me safei, aos primeiros raios do sol, para não ser apedrejado. Mas eu já estava consolado. Ultimamente tenho ido por lá, a fim de dizer àquele lugar: ”Eu estou feliz”, e para apanhar de lá tudo o que eu pudesse. Foi assim que nós decidimos. Nós queremos pregar a sua Fé. Mas para nós será dada a força por um pedaço daquela parede, um punhado daquela terra, uma lasca daqueles paus. Nós não somos santos, para ousarmos apanhar a terra do Calvário...”
“Tens razão, Elias. Teremos que fazê-lo nós também. E o faremos. Mas e Tomé?”
Tomé estava dormindo e chorando. E, então eu lhe disse: “Acorda e não chores mais. Ele ressuscitou.” Mas ele não queria acreditar no que eu dizia. Eu insisti, e o persuadi. E aqui está ele. E, agora que ele está entre vós, eu me retiro. Vou ajuntar-me aos companheiros, que estão indo para a Galiléia. A paz esteja convosco.” E o Elias vai-se embora.
“Tomé, Ele ressuscitou, eu to digo. Ele já esteve conosco. Comeu conosco. Falou. Abençoou-nos. Perdoou-nos. Deu-nos o poder de perdoar. Oh! Por que é que não vieste antes?”
Tomé não desperta do seu abatimento. Ele sacode a cabeça, em sua teimosia, dizendo: “Eu não creio. O que vós vistes foi um fantasma. Estais todos doidos. E as mulheres são as primeiras. Um homem morto, por si mesmo não ressurge.”
“Um homem, não. Mas Ele é Deus. Não crês?”
“Sim. Creio que Ele é Deus. Mas justamente porque eu o creio, eu penso e digo que, por mais que Ele seja bom, não o poderá ser até o ponto de vir ao meio dos que tão pouco o amaram. Eu digo que por mais humilde que Ele seja, basta-lhe o ter-se humilhado em revestir-se com a nossa pobre carne. Não. Certamente Ele o é no Céu, está triunfante no Céu, e talvez apareça como Espírito. Eu digo: talvez. Pois nós não merecemos nem isso! Mas, ressuscitado em carne e ossos, não. Não o creio.”
“Mas nós o beijamos, o vimos comer, ouvimos sua voz, tocamos em suas mãos, vimos suas feridas!”
“Nada disso. Eu não creio. Não posso crer. Eu precisava ver para crer. Se eu não ver em suas mãos os orifícios feitos pelos cravos, e colocar dentro deles o meu dedo, se eu não tocar nas feridas dos pés e não puser a mão no lugar em que a lança abriu o seu lado, eu não creio. Eu não sou um menino, nem uma mulher. Eu quero saber é de evidência. O que minha razão não pode aceitar, eu recuso. Eu não posso aceitar estas vossas palavras.”
“Mas, Tomé! Pensas que te queremos enganar?”
“Não, pobrezinhos! Pelo contrário. Felizes vós que sois tão bons, a ponto de quererdes levar-me a ter a paz, que chegastes a conseguir por meio dessa vossa ilusão. Mas... eu não creio na Ressurreição Dele.”
“Não tens medo de seres castigado por Ele? Ele ouve e vê tudo, sabes?”
“Eu peço que Ele me persuada. Eu tenho uma razão, e faço uso dela. Ele, o Dono da razão humana, que endireite a minha, se ela estiver fora do caminho.”
“Mas a razão, como Ele dizia, é livre.”
Eis aí mais um motivo para que eu não a faça escrava de uma ilusão coletiva. Eu vos quero bem, e quero bem o Senhor. Eu o servirei como posso, e estarei convosco para vos ajudar a servi-lo. Pregarei a sua doutrina, mas não posso crer, sem antes ter visto.”
Tomé teimoso, só dá ouvidos a si mesmo.
Os outros lhe falam de todos aqueles que já o viram, e como foi que o viram. Aconselham-no a ir conversar com a Mãe. Mas ele sacode a cabeça, e fica sentado em sua cadeira, cabeçudo como um menino. Fica repetindo: “Eu crerei, se o vir...”
Esta é a grande palavra dos infelizes, que negam tudo o que é doce e santo, e dizem crer que Deus pode tudo.


( O Evangelho como me foi Revelado – Maria Valtorta, Vol. 10, pgs.273 a 278)




Obs: No próximo post o encontro de Jesus ressuscitado com o descrente Tomé.







A ANGÚSTIA DE MARIA NO SEPULCRO


A ANGÚSTIA DE MARIA NO SEPULCRO


Dizer o que eu sinto é inútil. Eu faria unicamente um exposição do meu sofrimento, e por isso uma coisa sem valor, diante do sofrimento que eu estou vendo. Por isso, eu o descrevo sem comentários sobre mim mesma.
Estou assistindo o sepultamento de Nosso Senhor.
O pequeno cortejo, depois de ter descido do Calvário, encontra cavado na base do mesmo, no calvário do monte, o sepulcro de José de Arimatéia. Num ato de piedade eles entram nele com o Corpo de Jesus.
Estou vendo o sepulcro assim: é um espaço cavado no rochedo, que está perto de um jardim todo em flor. Parece uma gruta natural, mas está cavado pela mão do homem. Lá se encontra a câmara sepulcral propriamente dita com os seus lóculos (feitos diferentes dos das catacumbas). Estes são como umas perfurações redondas, que penetram na pedra como os buracos de uma colméia, só para se ter uma ideia. Por enquanto, estão todos vazios. Vê-se o olho vazio de cada lóculo, como uma mancha negra sobre o cinzento da pedra. Depois, antes da câmara sepulcral, há uma antecâmara. No centro dela está a pequena mesa de pedra para a unção. Sobre ela é posto o corpo de Jesus em seu lençol.
Entram também João e Maria. Não entram outras pessoas, porque a câmara é pequena e, se houvesse muitas pessoas, não poderiam nem mover-se bem. As outras mulheres ficaram perto da porta, isto é, perto da abertura, porque não há porta propriamente dita.
Os dois portadores descobrem o corpo de Jesus.
Enquanto eles preparam as faixas e os aromas em um canto da mesa, à luz de duas tochas, Maria se inclina sobre o corpo de seu Filho, e chora. E de novo o enxuga com o véu que ainda está nas costas de Jesus. É o único banho que toma o Corpo de Jesus, esse das lágrimas de sua Mãe e, ainda que elas sejam muitas, não fazem nada mais do que tirar superficialmente e em parte a poeira, o suor e o sangue daquele Corpo torturado.
Maria não se cansa de acariciar aqueles membros gelados. Com uma delicadeza ainda maior do que se tocasse os de um recém nascido, Ela toma as pobres mãos feridas, as aperta entre as suas, beija os dedos dela, depois as estende, procura unir as bordas das feridas, como quem faz uns curativos, a fim de que elas doam menos, aperta contra suas faces aquelas mãos que não podem mais acariciar, e geme em sua dor atroz. Endireita e ajuda os pobres pés, que estão muito abandonados e também mortalmente cansados, ao terem percorrido tantos caminhos por nós. Mas eles se haviam afastado demais da cruz, especialmente o esquerdo que está quase achatado, como se não tivesse sido usada a cavilha.
Depois Ela volta ao corpo e o acaricia. Ele está tão frio e tão rígido que quando Ela, mais uma vez, olha o rasgão feito pela lança, e que agora, depois de ter ficado o corpo deixado de costas sobre a placa de pedra, está aberto como uma boca, deixando que se veja melhor a cavidade torácica (a ponta do coração aparece claramente entre o esterno e a arcada esquerda das costelas, e uns dois centímetros acima dela está a incisão feita pela ponta da lança no pericárdio, com o comprimento de um bom centímetro e meio, enquanto a parte externa do tórax, do lado direito, é de pelo menos uns sete). Maria grita de novo, como no Calvário. Fica parecendo que a lança a está transpassando, pelo tanto que Ela se contorce em sua dor, levando as mãos ao seu coração, transpassado como o de Jesus. Quantos beijos deu naquela ferida a pobre Mãe!
Depois Ela volta a cabeça, que está virada, e a acerta em seu lugar, pois ela tinha ficado levemente tombada para trás, e bem mais para a direita. A Mãe procura fechar aquelas pálpebras, que teimam em ficar sempre abertas, e a boca que ficou também aberta, meio contraída e um pouco torcida para a direita. Maria penteia os cabelos, que ontem estavam tão bonitos e em ordem, mas que agora viraram uma maranha, estão esgrouviados e grudados pelo sangue. Ela desenrola as madeixas mais longas, torna-as mais macias, ao passá-las por entre os dedos, e as enrola para restituir-lhes aquela forma dos belos cabelos do seu Jesus, antes tão macios e anelados. E Maria geme, porque se lembra de quando Ele era menino. E é esse o motivo principal de sua dor, a lembrança da infância de Jesus, de seu amor por Ele, dos seus cuidados que tinham medo até do ar mais forte para aquela criaturinha divina, e a comparação entre o modo como o tratava naquele tempo com o trato que lhe deram agora os homens.
Os lamentos dela me fazem sentir-me mal. E é o que Ela faz, quando gemendo diz: “Que foi que te fizeram, meu Filho?”, não podendo vê-lo daquele jeito, nu, rígido, sobre uma pedra. E Ela lhe pega o braço, passa-lhe seu braço por baixo das costas dele, e, apertando-o contra o peito com a outra mão, como para niná-lo, com aqueles mesmos movimentos que Ela fazia lá na gruta em que Ele nasceu, tudo isso me faz chorar e sofrer, como se uma mão estivesse procurando alguma coisa em meu coração.


(O Evangelho como me foi Revelado – Maria Valtorta, vol. 10)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

APARIÇÃO AOS APÓSTOLOS NO CENÁCULO


APARIÇÃO AOS APÓSTOLOS NO CENÁCULO


...O quarto se ilumina intensamente, como se fosse um relâmpago ofuscante. Os apóstolos tapam os rostos, com medo de ter sido um raio. Mas eles não ouvem nenhum rumor, e levantam as cabeças.
Jesus está no meio do quarto, perto da mesa. E abre os braços, dizendo: “A paz esteja convosco.”
Ninguém responde nada. Uns estão mais pálidos, outros mais vermelhos, e todos o fitam com medo e submissão. Eles estão fascinados e, ao mesmo tempo querendo fugir.
Jesus dá um passo para a frente, aumentando o seu sorriso.
“Mas, não temais assim! Sou Eu. Por que ficais assim tão perturbados? Será que não me desejáveis? Eu não vos mandei dizer que Eu teria vindo? Eu não vô-lo tinha dito, desde a tarde da Páscoa?”
Ninguém tem coragem de abrir a boca. O Pedro está chorando. João está sorrindo, enquanto os dois primos, com os olhos brilhantes, e um movimento de palavras sem som sobre os lábios, parecem duas estátuas representando os seus desejos.
É porque em vossos corações tendes pensamentos tão em contraste, entre a dúvida e a fé, entre o amor e o temor> É porque ainda quereis ser carne, e não espírito, e, só com um coração assim, quereis ver, compreender, julgar e agir? Por baixo do fogo da dor, não se queimou completamente o velho “eu”, e não surgiu um novo “eu” de uma vida nova?  Eu sou Jesus. O vosso Jesus, que ressurgiu, como havia dito. Olhai. Tu que não viste as feridas, e vós que não conheceis quais foram as torturas pelas quais passei. Porque tudo o que vós sabeis é bem diferente do conhecimento exato que João tem dos fatos. Vem tu em primeiro lugar. Tu já estás completamente limpo. Tão limpo, que podes tocar em Mim sem temor. O amor, a obediência, a fidelidade já te haviam limpado. O meu Sangue, pelo qual foste todo orvalhado, quando me desceste do patíbulo, terminou a tua purificação. Olha. São verdadeiras mãos e verdadeiras feridas. Observa os meus pés. Estás vendo como o sinal é de um cravo? Sim. Os espectros não têm corpo. Eu tenho uma verdadeira carne sobre um verdadeiro esqueleto. Pousa a mão sobre a cabeça de João, que teve a coragem de ficar perto dele, e dize “Estás percebendo? Ela é quente e pesada.” E lhe sopra o rosto: “E isto é respiração.”
Oh! Meu Senhor! João murmura em voz baixa.
Sim. Sou o vosso Senhor. João, não fiques chorando de temor e de desejo. Vem a Mim. Eu sou sempre aquele que te ama. Vamos sentar-nos à mesa, como sempre. Não tendes nada de comer? Se o tendes, dai-me.
André e Mateus fazendo gestos como um sonâmbulo, tiram das credencias o pão e os peixes e uma bandeja que está com um favo meio roído em um canto.
Jesus oferece o alimento, come dele, e dá a cada um, um pouco de tudo o que Ele come. Depois olha para eles. Com muita bondade. Mas Ele está tão cheio de majestade, que diante dele, eles ficam paralisados.
Quem ousa falar por primeiro é Tiago, irmão de João. Ele diz: “Por que é que nos ficas olhando assim?”
Porque quero conhecer-vos.
Ainda não nos conheces?
Assim como vós ainda não me conheceis. Se me conhecêsseis, saberíeis quem Eu sou, e como vos amo, e acharíeis palavras para Me falardes dos vossos tormentos. Vós estais calados. Estais como diante de um estranho muito poderoso e a quem vós temeis. Há pouco, vós estáveis falando entre vós mesmos, e dizendo: “Eu vou dizer-lhe isto.” Combinais entre vós em me dizer: “Volta, Senhor, para que eu te possa dizer isto...”, e não dizeis ao Meu Espírito o que não quereis dizer mas silenciar. E agora que Eu vim, vós ficais calados? Será que Eu estou tão mudado, que nem mais vos pareço ser Eu? Ou será que vós é que estais mudados, que nem me tendes mais amor?
João, sentado perto do seu Jesus, faz como habitualmente, o gesto de pousar-lhe a cabeça sobre o peito, enquanto murmura: “ Eu te amo meu Deus.” Mas ele se contém de fazer aquele gesto, em respeito à fulguração que emana do Filho de Deus. Pois de Jesus parece sair uma luz, ainda que Ele seja de uma carne igual à nossa.
Mas Jesus o faz aproximar-se do seu coração, e, então João abre o dique de seu pranto bendito. E isto valeu como um sinal para que os outros façam o mesmo.
Pedro, que estava no segundo lugar, depois de João, desliza por entre a mesa e a cadeira, e chora, gritando: “Perdão! Perdão! Tira-me deste inferno, no qual eu estou, há tantas horas. Dize-me que viste o meu erro, que não foi o que se esperava. Não do meu espírito. Mas da carne que dominou meu coração. Dize-me que viste o meu arrependimento... Ele durará até à morte. Mas dize-me tu que assim como a Jesus, eu não te devo temer... e eu, e eu procurarei agir bem, de tal modo que possa ser perdoado até por Deus... e morrer... tendo só que passar por um longo purgatório.
Vem cá, Simão do Jonas.
Eu tenho medo.
Vem cá. Não sejas covarde outra vez.
Eu não sou digno de ficar ao teu lado.
Vem cá. Que foi que te disse a Mãe? “Senão olhas para Ele neste Sudário, não terás coragem de olhar para Ele nunca mais.”Ó homem estulto! Aquele rosto não te estava dizendo, com aquele seu olhar doloroso, que Eu te entendia e te perdoava? Contudo, Eu lhe dei aquela tela para teu conforto, como guia, como sinal de absolvição, de bênção... Mas, que foi que Satanás vos fez, para tornar-vos tão cegos? Agora Eu te digo: se não olhas para Mim, agora que por cima de minha Glória, Eu ainda conservo estendido um véu, para nivelar-me com vossa fraqueza, não poderás nunca mais aproximar-te sem medo do teu Senhor. E, que te acontecerá então? Tu pecaste por presunção. E agora quererás tornar a pecar por obstinação? Vem, Eu te estou dizendo.
Pedro se arrasta sobre os joelhos, por entre a mesa e as cadeiras, com as mãos sobre os olhos chorosos. Jesus o faz parar, quando ele chega aos seus pés, pondo sua mão na cabeça dele. Pedro, com um choro ainda mais forte, pega aquela mão, e a beija, por entre um verdadeiro soluçar sem freio. Mas só sabe dizer: “Perdão! Perdão!
Jesus se livra das mãos dele, e, fazendo de sua própria mão uma alavanca, colocada por debaixo do queixo do apóstolo, o obriga a levantar a cabeça, fita-o nos olhos avermelhados, tostados e torturados pelo sofrimento, com os seus olhos fúlgidos e serenos. Fica parecendo que lhe queria perfurar a alma. Depois diz: “Vamos. Tira-me esse opróbrio que já foi Judas. Beija-me onde ele me beijou. Lava com o teu beijo o sinal da traição.
Pedro levanta a cabeça, enquanto Jesus se inclina ainda mais, e passa o seu rosto roçando no dele... Depois é Pedro que inclina a cabeça sobre os joelhos de Jesus, e fica assim... como um velho menino que fez alguma “arte” infantil, mas da qual quer ser perdoado.
Os outros, agora que estão vendo a bondade do seu Jesus, estão achando aquilo meio perigoso, e se aproximam dele o mais que podem. Em primeiro lugar vêm os primos... Eles quereriam dizer muitas coisas, mas não conseguem dizer nada. Jesus os acaricia e encoraja com o seu sorriso.
Vem depois Mateus, junto com André. E Mateus diz: “Está como em Cafarnaum..” E o André: “Eu, eu.. eu te amo.”
Depois é Bartolomeu, que diz entre os gemidos: “Eu não fui sábio. Mas fui um estulto. Este é que é sábio”, e mostra Zelotes, para o qual Jesus está sorrindo.
Tiago do Zebedeu se aproxima, e diz a João: “Fala tu com Ele.” E Jesus se vira e diz: “Há quatro tardes que já disseste isso, e desde aquele dia Eu tive compaixão de ti.
Por último vem Filipe, todo inclinado. Mas Jesus manda que ele levante a cabeça, e diz: “Para pregar o Cristo, é preciso ter uma coragem ainda maior.”
Agora já todos ao redor de Jesus. Mas eles vão-se encorajando pouco a pouco. Tornam a encontrar o que haviam perdido, ou temiam haver perdido para sempre. Refloresce agora a confiança, a tranqüilidade e, por mais que Jesus esteja majestoso, a ponto de conservar os seus apóstolos em um novo respeito, eles, afinal encontram coragem para falar.
E é o primo Tiago que suspira, dizendo: “Por que nos fizeste isso, Senhor? Tu sabias que nós não somos nada, e que tudo vem de Deus. Por que não nos deste a força para podermos estar a teu lado?”
Jesus olha para ele e sorri.
Agora tudo já aconteceu. E nada mais Tu tens que sofrer. Mas não exijas mais de mim por essa obediência. A cada hora eu ia envelhecendo mais um lustro, e os teus sofrimentos, que o amor e Satanás igualmente aumentavam em minha imaginação, para cinco vezes mais aquelas coisas que já não existiam. E assim acabaram mesmo com todas as minhas forças. Delas não sobrou mais nada, para eu continuar a obedecer, conservando ainda, como alguém que se afoga por ter as mãos quebradas, a minha força, unida à vontade, como uns dentes que se agarram a uma mesa para não se perderem. Oh! Não exijas mais isso do teu leproso.
Jesus olha para Simão, o Zelotes e sorri.
Senhor, Tu bem sabes o que queria dizer o meu coração. Mas depois eu não tive mais coração... foi como se tivessem arrancado os verdugos que te prenderam... e o que sobrou para mim foi um buraco, pelo qual escapava qualquer outro pensamento que eu tivesse tido!... Por que permitiste aquilo, Senhor? , pergunta André.
Eu... tu falas de coração?... Mas eu vos asseguro que eu me senti como alguém a quem falta o uso da razão. Como alguém que levou uma pancada de clava na nuca. Quando, em plena noite eu me encontrei em Jericó.. Oh! Deus! Deus!... Mas será que um homem pode perder-se assim? Eu creio que a possessão é uma coisa assim. Agora eu compreendo o que é essa coisa horrível! E o Filipe arregala ainda os olhos, ao lembrar-se do que sofreu.
Tem razão Felipe. Eu ia atrás dele, e o observava. Eu já estou velho, e não sou pobre de sabedoria. Eu já não sabia nada de tudo o que eu sabia antes, até aquela hora. Eu olhava para o Lázaro, tão atormentado, mas tão firme, e dizia a mim mesmo: “Mas como pode ser que ele saiba ainda encontrar uma razão, e eu nada mais?, diz Bartolomeu.
Eu também estava olhando para Lázaro. Mas, visto que eu só sei o que Tu explicaste, eu já não me apoiava em meu saber. Mas eu dizia: “Se, pelo menos no coração eu fosse igual a ele!” Mas, ao contrário, eu só sentia dor, uma dor contínua. Lázaro tinha dor, mas também tinha paz. Por que é que ele tinha tão grande paz?
Jesus olha para cada um por sua vez, primeiro para Filipe, depois para Bartolomeu, depois para Tiago de Zebedeu. Depois sorri, e se cala.
Judas diz: “Eu esperava chegar a ver o que certamente Lázaro estava vendo. Por isso, eu ficava sempre perto dele... O rasto dele... era como um espelho. Pouco antes do terremoto da Sexta-feira, ele estava como alguém que morre esmagado. Mas depois, de repente ele se tornou majestoso em sua dor. Deveis estar lembrados daquilo que ele me disse: “O dever cumprido produz paz.” Nós todos ficamos pensando que aquelas palavras fossem uma reprovação para nós, ou uma aprovação para ele mesmo. Mas agora eu penso que ele se referisse a Ti. Era um farol para nós em nossas trevas, Lázaro. Quantas coisas boas lhe deste, Senhor!
Jesus sorri, e se cala.
Sim. A vida. E talvez com ela tenhas dado uma alma diferente. Porque afinal, em que é que ele é diferente de nós? Contudo, ele não é mais um homem. É alguma coisa mais do que o homem e, tendo sido aquele que foi no passado, teria devido ser ainda mais perfeito do que nós no espírito. Mas ele se formou, e nós... Senhor, o meu amor tem sido vazio, como certas espigas. Eu só produzi sabugo, diz o André.
E Mateus toma a palavra: “ Eu não posso pedir nada. Porque já recebi muito com a minha conversão. No entanto, eu gostaria de ter o que teve Lázaro teve. Uma alma dada por Ti. Porque eu penso também como o André.”
Também Madalena e Marta foram uns faróis. Talvez seja pela raça. Vós não as vistes. Uma era piedade e silêncio. E a outra! Oh! Se nós estamos todos juntos, como que formando um feixe, ao redor da Bendita, é porque a Maria de Magdala nos incentivou, com as chamas do seu corajoso amor. Sim. Eu falei na raça. Mas eu devia ter dito: é o amor. Elas nos superaram no amor. Por isso é que elas foram quem foram, diz João.
Jesus sorri e se cala.
Mas eles receberam um grande prêmio.
A eles Tu apareceste.
A todos os três.
Mas a Maria logo depois de tua Mãe.
Está claro como entre os apóstolos havia uma saudade daquelas aparições de privilégio.
Maria, já há muitas horas, que sabe que ressuscitaste. E nós, só agora é que te estamos podendo ver...
Para eles não há mais dúvidas. Mas, para nós, eis que somente agora é que estamos percebendo que nada acabou. Por que assim fazes com eles Senhor, se ainda nos amas e não nos repudias? , pergunta o Judas do Alfeu.
É verdade. Por que tratar assim às mulheres, e especialmente à Maria. Tu até tocaste na fronte dela, e ela diz que lhe parece estar sempre com uma grinalda eterna. E a nós, os teus apóstolos, nada.
Jesus não sorri mais. Seu rosto não está perturbado, mas seu sorriso cessou. Ele olha sério para Pedro, que falou por último tornando-se a encher-se de coragem, à medida que o medo e o tempo vão passando, e diz: Eu tinha apóstolos. Eu os amava com todo o meu coração. Eu os havia escolhido, e, como uma mãe, havia tomado cuidado para que eles crescessem durante a minha vida. Eu não tinha segredos para eles. Eu lhes dizia tudo, tudo lhes explicava, tudo perdoava. Mas suas fraquezas humanas, suas ousadias, suas teimosias... tudo. E Eu tinha também discípulos. Uns ricos e outros pobres. Tinha mulheres de um passado sem brilho ou de uma constituição débil. Mas meus prediletos eram os apóstolos.
E assim chegou a minha hora. Um deles me traiu e me entregou aos verdugos. Três deles ficaram dormindo, enquanto Eu suava sangue. Todos menos dois, fugiram por vileza. Um me renegou por medo, ainda que estivesse vendo o exemplo do outro, jovem e fiel. E, como se isso não bastasse, entre os doze Eu tive um suicida desesperado, e um duvidou tanto do meu perdão, que não acreditava facilmente, ou pelas palavras de sua mãe, na misericórdia divina. Assim, se Eu tivesse olhado para a minha fileira, com olhos humanos, eu teria devido dizer: “Menos João, fiel por seu amor, e o Simão, fiel na obediência, Eu não tenho mais apóstolos. Isto Eu teria devido dizer. Enquanto estava sofrendo no recinto do Tempo, no Pretório, pelas ruas da cidade e até já sobre a Cruz.
Algumas mulheres me acompanhavam. Uma delas, a mais culpada no passado, foi, como disse João, a chama que soldou as fibras arrebentadas dos corações. Essa mulher é Maria de Magdala. Tu me renegaste, e fugiste, enquanto que ela desafiou a morte para estar perto de Mim. Insultada, ela descobriu o rosto, pronta para receber a cusparada e as bofetadas, pensando em ser assim semelhante, a seu Rei crucificado. No fundo dos corações ela era escarnecida por sua fé firme na minha Ressurreição, e soube continuar a crer. Torturada, foi assim que continuou a agir. Desolada, nesta manhã ela disse: “ De tudo eu me despojo, mas dai-me o meu Mestre.”
Podes fazer ainda a ousada pergunta: “Por que dar-se a ela?”
Eu tinha uns discípulos pobres, eram pastores. Pouco eu me aproximei deles, e, no entanto, como souberam eles proclamar sua fidelidade!
Eu tinha discípulas tímidas, como o são as mulheres hebréias. Contudo, elas souberam deixar suas casas e vir para o meio do mar de um povo que blasfemava contra Mim, e elas o faziam para me darem aquele socorro que os apóstolos me haviam negado.
Eu tinha umas pagãs que me admiravam, como a um “filósofo”. Pois para elas Eu o era. Mas souberam descer até aos costumes hebreus aquelas poderosas romanas, a fim de me dizerem, naquelas horas de abandono por parte de um mundo de ingratos: “ Nós somos tuas amigas.”
Eu tinha o rosto cheio de cuspiduras e de sangue. Lágrimas e suor gotejavam sobre as feridas. Sujeira e poeira o cobriam como uma crosta. De quem era a mão que me limpou? Foi a tua? Ou a tua? Ou a tua? Não foi nenhuma das vossas mãos. Este homem estava perto da Mãe. Ele é que reunia as ovelhas espalhadas. E, se espalhadas estavam as minhas ovelhas, como é que elas podiam socorrer-me? Tu escondias o teu rosto, por medo do desprezo do mundo, enquanto o teu Mestre ia indo coberto pelo desprezo de todo o mundo, sendo Ele inocente.
Eu tinha sede. Sim. Leva em conta também isso. Eu estava morrendo de sede. A febre e a dor se haviam apoderado de Mim. Já havia saído sangue de Mim no Getsêmani, pela dor de ser traído e abandonado, negado, açoitado, submergido por culpas infinitas e pelo rigor de Deus.
E também no Pretório correu sangue... Quem foi que quis dar-me uma gota d”água para a minha garganta que ardia de sede? Terá sido uma mão de Israel? Não. Foi a piedade de um pagão. Aquela mesma mão que, por um decreto eterno, me abriu o peito para mostrar que o Coração já tinha uma ferida mortal, e era aquela que a falta de amor, que a vileza, a traição me haviam feito. Foi um pagão. E Eu vos faço lembrar: “ Eu tive sede, e me deste de beber.” Em todo Israel não houve um que me desse um conforto, ou pela impossibilidade de fazê-lo, como a Mãe e as mulheres fiéis, ou, pela má vontade de fazê-lo. E um pagão foi quem teve para com o desconhecido a piedade que meu povo me negou. Ele encontrou no Céu aquele sorvo que ele me deu.
Em verdade, Eu vos digo que, se Eu recusei todo o conforto, porque quando, não convém abrandar a sorte, e Eu não quis rechaçar o que o pagão me oferecia, porque naquilo Eu provei o mel de todo amor com que me brindarão os gentios, em recompensa pela amargura que Israel me fez beber. Ele não me tirou a sede. Mas o desconforto, sim. Por isso, Eu tomei aquele sorvo, sem saber o que era. Para atrair a Mim aquele que já estava inclinado para o Bem. Que ele seja abençoado pelo Pai por sua piedade.
Vós, não falais mais? Por que é que não perguntais também porque é que Eu agi assim? Não tendes coragem de perguntar isso? Então eu vô-lo irei dizer. Tudo Eu vos direi sobre o porque desta hora. Quem é que sois vós? Não sois os meus continuadores? Sim. Vós o sois, apesar da vossa perturbação. Que é que deveis fazer? Converter o mundo para Cristo. Converter? Isto é o que há de mais delicado e difícil, meus amigos. Os desprezos, as aversões, os orgulhos, os zelos exagerados, tudo isso são coisas que tornam impossível o bom êxito.
Mas como nada e ninguém vos teria persuadido a usar da bondade, da condescendência, da caridade para com aqueles que estão nas trevas, então foi necessário, compreendeis? Foi necessário que vós tivésseis, uma vez por todas, esmagado o vosso orgulho de hebreus, de homens, de apóstolos, para dardes lugar somente à verdadeira sabedoria do vosso ministério, isto é, à mansidão, à paciência, à piedade, ao amor sem fanfarrices nem aversões.
Vós estais vendo como todos vos venceram na fé e no agir, entre aqueles que vós olháveis com desprezo, ou com uma compaixão orgulhosa. Todos. Até a pecadora de outros tempos. Até Lázaro, impregnado de uma cultura profana, foi o primeiro que, em meu Nome, perdoou e guiou. E as mulheres pagãs. E enfraquecida mulher do Cusa. Enfraquecida? Mas, na verdade, ela galha de todos vós. Ela é a primeira mártir da minha fé. E os soldados de Roma. E os pastores. E o herodiano Manaém. E até Gamaliel, o rabino. Não te fiques estremecendo, João. Pensas tu que o meu espírito ainda estivesse nas trevas? Todos vós pensáveis assim. E isso aconteceu convosco para que amanhã, lembrando-vos do vosso erro, não fecheis o coração para os que se aproximarem da Cruz.
Eu vo-lo digo. E Eu já sei que, ainda que Eu o tenha dito, vós não o fareis, a não ser quando a Força do Senhor vos dobrar, como uma varinha, à minha vontade, que é a de ter cristãos por toda a Terra. Eu venci a Morte. Mas ela é menos dura do que o velho hebraísmo. Mas Eu vos dobrarei.
Tu Pedro, em vez de ficares envilecido e chorando... tu que deves ser a Pedra da minha Igreja, grava esta amarga verdade no coração. A mirra é usada para preservar da corrupção. Então, impregna-te de mirra. E, quando quiseres fechar o coração e a Igreja a alguma pessoa de outra fé, lembra-te de que não Israel, não foi Israel que me defendeu e quis ter piedade. Lembra-te de que não tu, mas uma pecadora é que soube ficar ao pé da Cruz, e mereceu ver-me por primeira. E, para não seres digno de censura, sê imitador do teu Deus. Abre o coração e a Igreja dizendo: “Eu, o pobre Pedro, não posso desprezar, porque se eu desprezar, serei desprezado por Deus, e o meu erro se tornará vivo aos olhos dele.”
Ai de ti, se Eu não te tivesse despedaçado assim. Não serias um pastor, mas terias virado um lobo.
Jesus se levanta. Ele está muito majestoso.
Meus filhos. Agora Eu falarei, durante o tempo em que Eu estiver entre vós. Mas, enquanto isso, Eu vos absolvo e perdôo. Depois da prova, que foi aviltante e cruel, mas que também foi salutar e necessária, venha a vós a paz do perdão. E, com essa paz no coração, tornai-vos meus amigos fiéis e fortes. O Pai me mandou a este mundo. E Eu vos mando pelo mundo, a fim de continuardes a minha evangelização. Misérias de toda sorte virão sobre vós, pedindo alívio. Sede bons, pensando em vossa miséria, quando ficastes sem o vosso Jesus. Sede iluminados. Nas trevas não se pode ver. Sede limpos, para ensinardes a limpeza. Sede amor, para poderdes amar. Mas enquanto Ele não chega, a fim de preparar-vos para este ministério, Eu vos comunico o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, estarão perdoados. E a quem os retiverdes, ficarão retidos. A vossa experiência vos faça justos, para julgardes. O Espírito Santo vos faça santos, para santificardes. A vontade sincera de corrigir-se de vossas faltas vos torne heróicos para a vida que vos espera. Tudo o que está por dizer, Eu vo-lo direi, quando aquele que está ausente tiver chegado. Rezai em Nome dele. Permanecei em minha paz, e sem nenhuma ansiedade ou dúvida sobre o meu amor a vós.
E Jesus desaparece, como havia entrado, deixando entre João e Pedro um lugar vazio. E Ele desaparece no meio de um vivo clarão, que os faz fechar os olhos, de tão forte que ele é. E, quando os olhos ofuscados se abrem, eles verificam somente que a paz de Jesus ficou entre eles, como uma chama que queima e que cura, que consome as amarguras do passado, e as transforma em um único desejo de servir.


( O Evangelho como me foi Revelado – Maria Valtorta, Vol. 10, pgs. 264 a 273)

APARIÇÃO DE JESUS RESSUSCITADO AOS PASTORES


APARIÇÃO DE JESUS RESSUSCITADO AOS PASTORES


Também estes vão apressados para debaixo das oliveiras, e vão tão certos de sua Ressurreição, que estão falando dela, com a alegria de meninos felizes. E vão indo diretamente para a cidade.
Diremos a Pedro que olhe bem para Ele e nos diga como é belo o seu rosto, diz Elias.
Oh! Eu, por mais que Ele possa ser belo, nunca poderei esquecer-me de como Ele era quando foi torturado, murmura Isaque.
Mas, tu o tens presente como quando Ele foi levantado com a Cruz? , pergunta Levi. E vós outros?
Eu, perfeitamente. Então a luz ainda estava boa. Depois com os meus olhos velhos eu só vi bem pouca coisa, diz Daniel.
Eu, ao contrário, o vi, enquanto não pareceu estar morto. Mas eu preferia ser cego, para não ver, diz José.
Oh! Tudo bem. Agora Ele está ressuscitado, e isso deve fazer-nos felizes, diz João para consolá-lo.
E o pensamento de que nós não o abandonamos, a não ser para fazer alguma caridade, acrescenta Jônatas.
Mas o nosso coração ficou lá em cima. Para sempre, murmura Matias.
Sempre sim. Tu que o viste no Sudário, dize-nos, como é Ele? Saiu parecido? , pergunta Benjamim.
Saiu tão parecido como se estivesse falando, responde Isaque.
Nós veremos aquele Véu? , perguntam muitos.
Oh! A Mãe o mostra a todos. E certamente o vereis. Mas é uma triste vista. Melhor seria ver... Oh! Senhor!
Servos fiéis, eis-me aqui. Ide, Eu vos espero, há dias na Galiléia. Ainda quero dizer-vos que vos amo. Jonas está feliz, com os outros no Céu.
Senhor! Oh! Senhor!
A paz esteja convosco, os de boa vontade.
O Ressuscitado desaparece, no raio vivo do sol do meio-dia. E, quando eles levantam as cabeças, Ele já não está mais lá. Mas o que lá está é a grande alegria de tê-lo visto como Ele está agora: Glorioso.
Eles se levantam, pondo-se de pé, e transfigurados de alegria. Em sua humildade, eles não sabem fazer, a idéia de terem merecido vê-lo, e dizem: “A nós! Logo a nós! Como é bom o Nosso Senhor. Desde o seu nascimento até o sei triunfo, foi sempre humilde e bom para com os seus servos!”
E como Ele estava bonito!
Oh! Bonito daquele modo, nunca houve! Que majestade.
Parece mais alto ainda e mais maduro em anos.
É Ele mesmo o Rei.
Oh! Chamavam-no o Rei Pacífico! Mas Ele é também o Rei tremendo, para aqueles que devem ter medo do seu julgamento!
Viste os raios que escapavam do seu Rosto?
E que relampejos em seus olhos!
Eu não tinha coragem de fitá-lo. E fitá-lo eu acho que eu teria podido, porque eu penso que talvez não me será mais concedido vê-lo daquele modo, a não ser no Céu. E eu quero conhecê-lo para que naquela hora não fique com medo.
Oh! Não precisamos ter medo, se ficarmos como estamos: nós somos seus servos fiéis. Tu ouviste: “Ainda quero dizer-vos que vos amo. Paz a vós de boa vontade.” Uma só palavra além destas já é demais. Mas nestas poucas palavras está a aprovação de tudo o que fizemos até agora e toda a mais alta promessa da vida futura. Oh! Vamos entoar o canto da alegria. Da nossa alegria:
“Glória a Deus no mais alto do Céu, e paz na Terra aos homens de boa vontade.”
Verdadeiramente o Senhor ressuscitou, como Ele havia dito pela boca dos profetas e com sua palavra sem defeito.
Ele perdeu, com o Sangue, tudo que o beijo de um homem tinha deixado nele de corrupção e, sendo limpo como é o altar, o seu Corpo assumiu a inexprimível beleza de Deus.
Antes de subir ao Céu, Ele se mostrou aos seus servos. Aleluia!
Vamos cantando: Aleluia. A Eterna Juventude de Deus.
Vamos anunciando aos povos que Ele ressuscitou, aleluia!
O Justo, o Santo, ressuscitou, aleluia, aleluia! Do sepulcro Ele saiu Imortal!
E o homem justo ressuscitou com Ele. No pecado, como na gruta, estava fechado o coração do homem.
E Ele morreu para dizer: “Levantai-vos.” E os que estavam dispersos se levantaram, aleluia!
Tendo aberto as portas do Céu para os eleitos, Ele disse: “Vinde.”
Que Ele nos conceda, pelo seu Santo Sangue que subamos até lá, nós também, Aleluia!
Matias, o ancião ex-discípulo de João Batista, vai na frente, cantando, como noutros tempos cantou Davi, diante do seu povo, pelas estradas da Judéia. Os outros o acompanharam, fazendo coro a cada aleluia, com um júbilo santo.
Jônatas, que faz parte do grupo, diz, quando Jerusalém já está a seus pés, e eles, com passos rápidos, vão descendo pela pequena colina: “Por causa do seu nascimento, eu perdi minha Pátria e minha casa, e por causa de sua morte, perdi a nova casa onde, durante trinta anos, trabalhei honestamente. Mas, mesmo que me tivesse sido tirada a vida por Ele, eu teria morrido com alegria, porque a teria perdido por Ele. Eu não guardo rancor daquele que é injusto comigo. O meu Senhor me ensinou com sua morte a perfeita mansidão. E eu não penso no amanhã. Minha morada não é aqui, mas é no Céu. Viverei na pobreza, por Ele tão amada, e o servirei até a hora em que Ele me chamar... e lhe oferecerei até a renuncia à minha patroa... Este é o espinho mais duro... Mas agora que eu vi a dor do Cristo e sua glória, não devo ficar pensando em minha dor, mas somente esperar a glória celeste.
Vamos dizer aos apóstolos que Jônatas é o servo dos servos de Cristo.”



( O Evangelho como me foi Revelado – Maria Valtorta, Vol. 10, pgs. 248 a 250)