sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

MARIA PERDOA PEDRO






 

MARIA PERDOA PEDRO

 

Que o perdão de Maria sirva de exemplo para todos aqueles que se sentem atemorizados pelos pecados, supostamente imperdoáveis que cometeram, deixando por isso de pedir perdão. (Antonio)

 

“E Maria, com doçura: “Simão de Jonas vem.” E nada. “Simão Pedro, vem.” Nada. “Pedro de Jesus e de Maria, vem.” Ouve-se um áspero frouxo de choro. Mas ele não entra. Maria se levanta, deixa o manto sobre a mesa, e vai até à porta.

Lá fora está Pedro, agachado. Está como um cão sem dono. E chora tão forte e sem parar, que nem ouve o barulho da porta que se abre chiando, nem os passos dados por Maria. Ele só percebe que ela está ali, quando ela se inclina para pegar-lhe uma das mãos, que está apertada sobre os olhos, e o faz levantar-se. Maria entra no quarto, puxando-o atrás de si, como se faz com um menino. Ela fecha a porta com o trinco e o ferrolho e, encurvada pela dor, e ele pela vergonha, e volta ao seu lugar.

Pedro vai pôr-se aos pés dela, de joelhos, e chora desenfreadamente. Maria o acaricia por sobre seus cabelos grisalhos e suados pela dor. Nada mais além dessa carícia, até que ele fique mais calmo. Depois afinal, Pedro diz: “Tu não me podes perdoar. Por isso, não me acaricies. Porque eu o reneguei.”

Então Maria lhe diz: “Pedro, tu o renegaste. É verdade. Tiveste a coragem de nega-lo em público. A coragem covarde de fazer isso, os outros... todos, menos os pastores, Manaém, Nicodemos e João, somente tiveram só a covardia, todos o renegaram, homens e mulheres de Israel, com exceção de umas poucas mulheres... Eu não cito os sobrinhos nem Alfeu de Sara. Esses eram parentes e amigos!... E nem mesmo tiveram a coragem satânica de mentir para se salvarem, nem a coragem espiritual de se arrependerem do que fizeram e chorar, nem ainda a mais alta de reconhecer publicamente o seu erro. Amanhã serás um santo, mas, mesmo que não o fosse como és, eu te teria perdoado do mesmo modo. Pois eu teria perdoado até o Judas, contanto que ele salvasse o seu espírito. Porque o valor de um espírito, ainda que seja um só, merece todo esforço contra repugnâncias e ressentimentos, até que eles sejam despedaçados. Lembra-te disso, Pedro. Eu te repito: o valor de uma alma é tão grande, que mesmo as custas de morrer alguém, pelo esforço que se faz pata tê-la perto, temos que fazê-lo assim, com ela entre os braços, como eu tenho a tua cabeça escarnecida, quando se espera que, fazendo assim se pode salvá-la. É assim. Como uma mãe que, depois do castigo que o pai deu, pega sobre o seu coração a cabeça do filho culpado e, mais com as palavras de seu coração atormentado, diz com amor e com dor, do que com batidas do pai, ele se arrepende e se corrige. Ó Pedro do meu Filho, ó pobre Pedro, que estiveste, como todos, na mão de Satanás, naquela hora tenebrosa, e sem o perceberes, achas que fizeste tudo por ti mesmo, vem cá, vem cá sobre o coração da Mãe dos filhos do meu Filho. Aqui Satanás não pode mais fazer-te mal. Aqui se acalmam as tempestades, e estamos à espera do Sol, que é o meu Jesus, que ressuscitará para dizer-te: “A paz ao meu Pedro!”, e surge a estrela da manhã, pura, bela, fazendo ficar puro e belo tudo o que ela beija, como acontece com as águas puras do nosso mar, nas frescas manhãs da primavera. Por isso eu fiquei tanto tempo te esperando aos pés da cruz, eu estava sendo martirizada por ele e por vós e como foi que não o percebeste? E chamava os vossos espíritos com voz tão alta, que eu acho que eles vieram realmente a mim. E, fechados em meu coração, ou melhor, colocados sobre o meu coração, como os pães da proposição, Eu os segurei sob o banho do seu Sangue e do seu pranto. Eu o podia fazer, porque Ele, na pessoa de João, me fez Mãe de toda a sua Prole... Quanto eu te desejei!... Naquela manhã, naquela tarde e em cada novo dia. Porque é que tu fizeste uma mãe esperar, pobre Pedro ferido e pisado pelo demônio? Eu te conduzo a Jesus. Tu o quererias Ver? Quererias ver o seu sorriso, para te persuadires de que Ele te ama ainda? Sim? Então afasta-te do meu pobre seio de mulher, e vai pousar a tua fronte sobre a fronte dele coroada, e tua boca sobre sua boca ferida, e beija ao teu Senhor.”

“Ele morreu. Eu nunca mais poderei fazer.”

“Pedro, responde-me: Qual achas que tenha sido o último milagre do teu Senhor?”

“O da Eucaristia. Talvez não. Talvez tenha sido o do soldado ferido lá... lá... Oh! Não me faças ficar recordando!”

“Uma mulher fiel, amorosa, foi para perto dele no Calvário, e enxugou seu rosto. E Ele, para ensinar quanto pode o amor, gravou seu rosto sobre o linho. Ei-lo aqui, Pedro. Isto conseguiu uma mulher, na hora daquelas trevas infernais e da ira divina. Só porque Ele amou. Lembra-te disso, Pedro. Durante as horas em que te parecer que o demônio seja mais forte do que Deus, Deus estava sendo prisioneiro dos homens, já oprimido, condenado, flagelado, moribundo...

Contudo, já que entre as mais duras perseguições, Deus é sempre Deus, aos negadores, aos incrédulos, aos homens dos estultos “porquês”, dos culpados que dizem: “Isso não pode ser”, dos sacrílegos que falam: “o que eu não compreendo não é verdade”, a eles responde sem palavras, mas com este linho, olha para ele. Um dia tu me disseste, e tu disseste a André: “O Messias vir manifestar-se a ti?, Isso não pode ser verdade!” E depois a tua pobre razão humanidade, dobrar-se à força do espírito que via o Messias lá onde a razão não o via. Outra vez, sobre o mar tempestuoso, tu perguntaste: “Posso ir Mestre?”, e depois sobre as águas, já no meio do caminho, sobre as águas agitadas, tu duvidaste dizendo: “A água não me pode sustentar”, e, com tua dúvida como pretexto, por pouco te afogavas. Somente quando contra a razão prevaleceu o espírito, que soube crer, e pudeste ainda achar a ajuda de Deus. Outra vez tu disseste: “Se o Lázaro já morreu há quatro dias, que é que viemos fazer aqui? Para morrer inutilmente.” Porque não podias, com a tua razão humana, achar outra solução. E a tua razão foi desmentida pelo espírito que, mostrando-te com o ressuscitado a glória do Ressuscitador, te mostrou que não foi inutilmente que tínheis ido. Outra vez ainda, e mais outras, tu disseste, ao ouvir o Senhor falar da morte, e de uma morte atroz: “Isto não te acontecerá nunca!” E tu viste que desmentido a tua razão recebeu. Eu agora fico esperando ouvir a palavra do teu espírito neste último caso...”

“Eu perdôo.”

“Não isto. Uma outra palavra.”

“Eu creio.”

“É uma outra palavra.”

“Não sei.”

“Eu amo Pedro, ama. E sereis perdoado. Crerás. Serás forte. Serás o Sacerdote, e não o fariseu, que só tem formalismos e não uma fé ativa. Olha para Ele. Coragem, e olha para Ele. Todos olharam para Ele e o veneraram. Até Longino. E tu não saberias? No entanto, soubeste renega-lo. Se não o reconheceres agora, através do fogo de minha materna e amorosa dor, que vos une, vos dá a paz, então não poderás mais. Ele ressurge. Como poderás olhar para Ele, em seu novo fulgor, se não sabes como é o seu rosto de mestre, mas que se converterá em rosto de Triunfador? Porque a dor, toda a Dor dos séculos e do mundo, Ele trabalhou com escopo e macete naquelas horas que vão desde a véspera da quinta feira, até a hora da sexta-feira. E mudaram o seu rosto. Antes era somente Mestre e Amigo. Agora é Juiz e Rei. Ele subiu para a sua Cátedra, a fim de julgar. E cingiu-se com a coroa. E assim ficará. Com a diferença de que, depois da gloriosa Ressureição, será não mais o homem Juiz e Rei. Mas o Deus Juiz e Rei. Olha para Ele. Olha, enquanto sua humanidade e sua dor o velam, a fim de que possa ser visto, quando Ele triunfar em sua Divindade.

Pedro levanta finalmente a cabeça do colo de Maria, e fica olhando para ela, com seus olhos avermelhados pelo pranto, em um rosto de velho menino desolado e espantado pelo mal que faz e pelo bem que encontra feito. Maria o obriga a olhar para seu Senhor. E então, enquanto Pedro, vendo diante de si um rosto vivo, geme dizendo: “Perdão, perdão. Não sei como foi. O que foi. Não era eu. Era alguma coisa que me fazia não ser eu. Mas eu te amo. Jesus! Eu te amo Mestre meu! Volta! Volta! Não te vãs embora assim, sem me dizeres que me entendeste!” Maria repete o ato já feito na Câmara sepulcral. Com os braços estendidos e de pé, parece uma sacerdotisa, no ato de fazer a oferta.

E, como lá ela ofereceu a Vítima sem mancha, aqui ela oferece o pecador arrependido. Pois ela é a Mãe dos Santos e dos pecadores.

Depois ela levanta Pedro. E torna a consolá-lo. E lhe diz: “Agora estou contente. Sei que estás aqui. Agora, vai. Com as mulheres e João. Vós estais precisando de repouso e alimento, vai e sê bom...”, como se fala a um menino.

(O Evangelho como me foi Revelado- Maria Valtorta- Vol 10, pg. 201 a 205)

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