quinta-feira, 26 de março de 2020

O RETORNO DOS SETENTA E DOIS






O RETORNO DOS SETENTA E DOIS




No longo crepúsculo de um dia sereno de outubro, voltam os setenta e dois com Elias, José e Levi. Cansados, empoeirados, mas muito alegres! Alegres os três pastores, porque agora estão livres para servirem ao Mestre. Felizes também por estarem, depois de tantos anos de separação, unidos aos companheiros de outros tempos. Felizes os setenta e dois por terem-se saído bem em sua primeira missão. Seus rostos estão brilhando mais do que as pequenas luzes que iluminam as pequenas cabanas que foram construídas para este numeroso grupo de peregrinos.
...Acabadas nas cabanas as ceias, Jesus se encaminha para o lado do Monte das Oliveiras, e os discípulos o acompanham em massa.
Isolados do murmúrio e da multidão, depois de terem feito uma oração em comum, eles contam tudo a Jesus, mais amplamente do que haviam podido fazer antes, por entre as pessoas que iam e vinham. Eles estão ainda espantados e alegres, enquanto dizem: “Tu sabe, ó Mestre, que não só as doenças, mas até os demônios nos ficaram sujeitos pela força do Teu Nome? Que coisa, Mestre! Nós, nós uns simples homens, só porque Tu nos mandaste, podíamos livrar o homem do poder terrível de um demônio!...”, e contam casos e mais casos, acontecidos aqui e ali. Somente de um é que eles dizem: “Os parentes, ou melhor, a mãe e os vizinhos no-lo trouxeram à força. Mas o demônio zombou de nós, dizendo: “Eu voltei aqui por vontade dele, depois que Jesus Nazareno me havia expulsado, e não o deixo mais, porque ele me ama mais do que ao vosso Mestre, e por isso tornou a procurar-me”, e, de repente, com uma força indomável, arrebatou o homem das mãos que o estavam segurando, e o arremessou por um despenhadeiro abaixo. Nós corremos para ver se ele se tinha despedaçado. Mas, qual nada! Ele ia correndo como uma gazela nova, dizendo blasfêmias e chalaças, que não eram desta terra... Ficamos com dó da mãe... Mas ele! Oh! É assim que o demônio pode fazer?”
“Assim, e mais ainda”, diz Jesus com tristeza.
“Talvez, se Tu lá estivesses...”
“Não. Eu havia dito àquele homem: “Vai, e não queiras recair em teu pecado.” E ele quis. Sabia que estava querendo o mal e o quis. Está perdido. Diferente é o caso de quem vem possesso por causa de sua ignorância, do caso de quem se deixa possuir, sabendo que assim fazendo, se vende de novo ao demônio. Mas não faleis dele. É um membro cortado, sem esperança, é um voluntário do mal. Louvemos sim, ao Senhor, pelas vitórias que vos deu. Eu via Satanás cair do Céu como um raio, pelo vosso mérito unido ao Meu Nome. Porque Eu vi também os vossos sacrifícios, as vossas orações, o amor com que íeis aos infelizes, para fazerdes o que Eu tinha dito que fizésseis. Vós o fizestes com amor e Deus vos abençoou. Outros farão isto que vós fazeis, mas o farão sem amor. E não conseguirão conversões. Contudo, não vos alegreis por terdes conseguido sujeitar os espíritos, mas alegrai-vos, sim, porque os vossos nomes estão escritos no Céu. Não os retireis nunca de lá...”
“Mestre, quando virão os que não vão conseguir conversões? Talvez será, quando não estiveres mais conosco?”, pergunta um dos discípulos, cujo nome eu não sei.
“Não, Agapo. Em qualquer tempo.”
“Como? Até mesmo enquanto nos ensinas e nos amas?”
“Também. Amar, Eu vos amarei sempre, mesmo que estejais longe de Mim. O meu amor a vós existirá sempre, e vós o sentireis.”
“Oh! É verdade. Eu o senti numa tarde em que eu estava angustiado, porque não sabia o que haveria de dizer a um que me estava interrogando. Eu estava para fugir, envergonhado. Mas aí eu me lembrei daquelas tuas palavras: “Não tenhais medo. Ser-vos-ão dadas, no momento oportuno as palavras que haveis de dizer”, e eu, com o meu espírito, Te invoquei. Eu disse: “Certamente Jesus me ama. Eu chamo em meu socorro o seu amor”, e me veio o amor. Veio como um fogo, uma luz... uma força... O homem que estava a minha frente me observava e me ridicularizava com ironia, piscando os olhos para os seus amigos. Ele estava certo de que ia vencer a discussão. Então eu abri a boca, e era como um rio de palavras que saía com alegria de minha boca tola. Mestre, Tu vieste mesmo, ou foi uma ilusão minha? Eu não sei. Só sei que afinal o homem, que era um jovem escriba, lançou-me os braços ao pescoço, dizendo-me: “Feliz de ti e feliz quem a essa sabedoria te conduziu”, e me pareceu que ele estava com vontade de procurar-te. Ele virá?”
“As idéias do homem são passageiras como a palavra escrita sobre a superfície da água, e irrequieta como as asas das andorinhas antes de voarem para a última refeição do dia. Mas tu, reza por ele... E, sim. Fui a ti. Como tu, também me tiveram Matias e Timoteu, João de Endor e Simão, Samuel e Jonas, a quem percebeu minha presença, e a quem não a percebeu. Mas Eu estive convosco. E Eu estarei com quem me serve em amor e verdade, até o fim dos séculos.”
“Mestre, ainda não nos disseste se, entre as pessoas presentes haverá pessoas sem amor.”
“Não é necessário saber isso. Seria uma falta de amor da minha parte, se Eu vos fizesse sentir desprezo para com algum companheiro que não soubesse amar.”
“Mas há alguns desses? Isto podes dizer...”
“Há. O amor é a mais simples, a mais doce e a mais rara coisa que há e, nem sempre, mesmo que tenha sido semeada, ela medra.”
“Mas, se não te amarmos, quem poderá amar?” Há uma quase indignação e entre eles se forma um tumulto pela suspeita e pela dor.
Jesus desce as pálpebras sobre os olhos. Esconde também o seu olhar, para que ele não sirva de indicador. Mas faz um gesto resignado, doce e triste, ficando com as mãos de palmas abertas para fora, num gesto de resignada confissão, de resignado conhecimento, e diz: “Assim haveria de ser. Mas assim não é. Muitos ainda não se conhecem. Mas Eu os conheço. E tenho dó deles.”
“Oh! Mestre, Mestre! Mas, não serei eu, não é?”, pergunta Pedro, indo para o lado de Jesus e comprimindo o pobre Marziam entre si mesmo e o Mestre, e lançando seus braços curtos e musculosos sobre os ombros de Jesus, e os segura e sacode, como se tivesse ficado louco e aterrorizado, ao pensar que podia ser um dos que não amam a Jesus.
Jesus torna a abrir os olhos luminosos, mas entristecidos, olha para o rosto indagador e espavorido de Pedro, e lhe diz: “Não, Simão de Jonas. Não és tu. Tu sabes amar, e ainda o saberás sempre mais. Tu és a minha Pedra, Simão de Jonas. Uma boa pedra. Sobre ela Eu irei apoiar as coisas que me são mais caras, e estou certo de que tu as sustentarás, sem conhecer perturbação.”
“Eu, então? “Eu?, “Eu?” As interrogações se repetem, como um eco, quando vai-se repetindo de boca em boca.
“Paz! Paz! Ficai tranqüilos e esforçai-vos por possuir todos o amor.”
“Mas quem entre nós sabe amar mais?”
Jesus corre o olhar sobre todos, uma carícia sorridente, e depois deixa o olhar sobre Marziam, que continua apertado entre Ele e Pedro e, afastando um pouco Pedro, e virando o rosto do menino para a pequena multidão, diz: “Aqui está o que sabe amar entre vós. O menino. Mas não tremais, vós, que já tendes barba sobre as vossas faces, e até fios brancos nos cabelos. Todo aquele que renasce em Mim se torna um “menino”. Oh! Ide em paz, daí louvores a Deus, que vos chamou, porque realmente vós estais vendo, com vossos próprios olhos os prodígios do Senhor. Felizes aqueles que verão igualmente o que vós estais vendo. Porque Eu vos garanto que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós estais vendo, e não viram. E muitos patriarcas teriam querido ouvir o que vós ouvis, e não puderam escutar. Mas, de agora em diante, aqueles que me amarem conhecerão todas as coisas.”
“E depois? Quando tiverdes ido embora daqui, como dizes?”
“Depois, vós falareis por Mim. E depois... Oh! que grandes fileiras, não pelo número, mas pela graça, as daqueles que verão, saberão e escutarão o que vós agora estais vendo, sabendo e ouvindo! Oh! Que grandes e amadas fileiras dos meus “pequenos grandes”! Olhos eternos, mentes eternas, ouvidos eternos! Como poder explicar-vos a vós que estais ao redor de Mim, o que será esse viver eterno, mais que eterno, desmesurado, daqueles que me amarão e que Eu amarei até o fim dos tempos, que serão os “cidadãos de Israel, ainda que vivam quando Israel não mais existir, a não ser como uma lembrança de nação, e serão os contemporâneos de Jesus vivente em Israel? E estarão comigo, em Mim, até chegarem a conhecer o que o tempo cancelou e a soberba confundiu. Que nome Eu lhes darei? Vós sois Apóstolos e vós sois discípulos, e os que crerem serão chamados cristãos. E estes? Estes, que nome terão? Um nome conhecido apenas no Céu. Que prêmio eles terão, desde esta terra? O meu beijo, a minha voz, o calor da minha carne. Tudo, tudo, Eu mesmo todo. Eu, eles. Eles, Eu. Uma comunhão total... Ide. Eu fico a encher de felicidade o meu espírito na contemplação dos meus conhecedores futuros e amantes absolutos. A paz esteja convosco.”


(O Evangelho como me foi revelado – Maria Valtorta – Vol. 4, pg. 370 a 374)

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