quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O DECÁLOGO EXPLICADO

 


O DECÁLOGO EXPLICADO

 

 

 

"Eu sou o Senhor, o teu Deus, que te tirou do Egito, da terra da escravidão. Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra. Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus zelo­so, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e obedecem aos meus mandamentos.

Não tomarás em vão o nome do Senhor, o teu Deus, pois o Senhor não deixará impune quem tomar o seu nome em vão.

Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo. Trabalharás seis dias e neles farás todos os teus trabalhos, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor, teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teus filhos ou filhas, nem teus servos ou servas, nem teus animais, nem os estrangeiros que morarem em tuas cidades. Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia descansou. Portanto, o Senhor abençoou o sétimo dia e o santificou. Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, teu Deus, te dá.

Não matarás.

Não adulterarás.

Não furtarás.

Não darás falso testemunho contra o teu próximo.

Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seus servos ou servas, nem seu boi ou jumento, nem coisa alguma que lhe pertença". (Êxodo 20:1-17)

 

Diz Jesus:

 

“A primeira palavra do Pai e Senhor é esta: “Eu sou o Senhor teu Deus.”

Não existe um instante do dia em que esta palavra não soe, e não seja escrita pela voz e pelo dedo de Deus. Onde? Por toda parte. Tudo o proclama continuamente. Da erva à estrela, da água ao fogo, da lã ao alimento, da luz às trevas, da saúde à doença, da riqueza à pobreza. Tudo diz: “Eu sou o Senhor. Por Mim é que tens isto. Um pensamento meu é que te dá isto, um outro o tira de ti, e não há força de exércitos, nem de defesas que te possa preservar da minha vontade.” Grita na voz do vento, canta no riso das águas, perfuma na fragrância da flor, incide-se no dorso das montanhas e sussurra, fala, chama, grita nas consciências: “Eu sou o Senhor teu Deus.”

Não vos esqueçais disto nunca! Não fecheis os olhos, os ouvidos, não estranguleis a consciência, para não ouvirdes esta palavra. De tal modo ela é, que chega o momento em que sobre a parede da sala do banquete, ou sobre a onda agitada do mar, sobre os lábios sorridentes de criança ou sobre o lividez do velho que está morrendo, sobre a rosa fragrante ou sobre o fétido sepulcro, ela é escrita pelo dedo d fogo de Deus. E assim chega o momento em que, entre a embriaguez do vinho e do prazer, entre o turbilhão dos negócios, ou no repouso da noite, ou em um passeio solitário, ela levanta a sua voz e diz: “Eu sou o Senhor teu Deus”, e não esta carne que estás beijando ávido, e não o é este alimento que com voracidade devoras, e não o é este ouro que avaramente acumulas, nem o é este leito sobre o qual ficas preguiçoso. E não adianta o silêncio, nem o estar sós, nem o estar dormindo, para fazê-la calar-se.

Eu sou o Senhor teu Deus, o companheiro que não te abandona, o hóspede que não podes expulsar. És bom? Eis que o hóspede e companheiro é um bom amigo. És mau e culpado? Eis que o hóspede e companheiro se torna um Rei irado, e não te deixa em paz. Mas não te deixa, não deixa, não deixa. Só aos condenados é concedido que se separem de Deus. Mas a separação é um tormento insaciável e eterno.

Eu sou o Senhor teu Deus, e acrescenta: “que te tirei da terra do Egito, da casa da escravidão”. Oh! Que verdade agora diz com propriedade! De qual Egito, e de que Egito Ele te tira, para levar-te a Terra Prometida, que não é aqui neste lugar, mas no Céu! O Reino eterno do Senhor, no qual não haverá mais fome nem sede, nem frio, nem morte, mas que em tudo destilará alegria e paz, e de paz e alegria ficarão saciados todos os espíritos.

Agora Ele vos tira da verdadeira escravidão. Eis o Libertador. Sou Eu. Venho para quebrar vossas correntes. Todo dominador humano um dia pode morrer e por sua morte podem ficar livres os povos escravizados. Mas Satanás não morre. É eterno. E é o dominador, que vos colocou em grilhões, para arrastar-vos para onde quer. O pecado está em vós. E o pecado são as correntes com que Satanás vos prende. Eu venho quebrar estas correntes. Em nome do Pai, Eu venho. E por desejo meu. Por isso, eis que se cumpre a incompreendida promessa: “Eu te tirei do Egito e da escravidão.”

Agora, isto se está cumprindo espiritualmente. O Senhor vosso Deus vos tira da terra do ídolo, que seduziu os Progenitores, arranca-vos da escravidão da Culpa, reveste-vos de Graça, admite-vos em seu Reino. Em verdade vos digo que aqueles que vierem a Mim, poderão, com a doçura da voz paterna, ouvir o Altíssimo dizer em seus felizes corações: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te atraio a Mim, livre e feliz.”

 

Foi dito: “Não farás para ti deuses em minha presença. Não farás para ti nenhuma escultura ou representação daquilo que está lá em cima no céu ou aqui em baixo na terra, ou nas águas abaixo da terra. Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto. Eu sou o Senhor teu Deus, forte e ciumento, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta gerações daqueles que me odeiam, e faço misericórdia até a milésima daqueles que me amam e observam os meus mandamentos.”

Vós já ouvistes como Deus é onipresente, com o seu olhar e a sua voz. Na verdade, estamos sempre em sua presença. Fechados dentro de um quarto, ou entre o público do Templo, estamos igualmente na sua presença. Benfeitores escondidos, que até aos beneficiados ocultamos o nosso rosto, ou assassinos, quando assaltamos o viajante em algum desfiladeiro solitário e o trucidamos, igualmente estamos na sua presença. Em sua presença está o rei no meio de sua corte, o soldado no campo de batalha, o levita no interior do Templo, o sábio debruçado sobre os livros, o camponês sobre o sulco, o mercador em seu balcão, a mãe inclinada sobre o berço, a esposa no quarto nupcial, a virgem no segredo da morada paterna, o menino que estuda na escola, o velho que se deita para morrer. Todos estão em sua presença, e todas as ações do homem igualmente estão em sua presença.

Todas as ações do homem! Tremenda palavra! E consoladora palavra! Tremenda, se as ações são de pecado, consoladora se são ações de santidade. Saber que Deus vê é um freio para quem quer fazer o mal e um conforto para quem quer fazer o bem. Deus vê que estou fazendo o bem. Eu sei que ele não se esquece do que vê. Eu creio que ele premia as boas ações. Por isso estou certo de que irei receber um prêmio por estas, e sobre esta certeza descanso. Ela me dará uma vida serena e uma morte plácida, porque na vida e na morte minha alma será consolada pelo raio da estrela da amizade de Deus. Assim é que raciocina aquele que faz o bem.

Mas aquele que faz o mal, por que não pensa que, entre as ações proibidas estão os cultos idolátricos? Por que ele não diz: “Deus está vendo que, enquanto finjo estar prestando um culto santo, estou adorando um deus ou deuses mentirosos, os quais levanto um altar secreto aos homens, mas conhecido a Deus?” Que deuses são esses, poderíeis dizer, se nem no Templo existe figura de Deus? Que rosto têm esses deuses, se ao verdadeiro Deus nos foi impossível dar um rosto?

Sim, impossível dar-lhe um rosto, porque o Perfeito e o Puríssimo não pode ser dignamente representado pelo homem. Só o espírito pode entrever a sua incorpórea e sublime beleza, e ouvir a sua voz, sentir a sua carícia, quando ele se infunde a um dos seus santos, merecedor desses contatos divinos. Mas o olho, o ouvido, a mão do homem não podem ver nem ouvir e portanto, repetir com o som sobre a cítara, com o macete e o cinzel no mármore, aquilo que é o Senhor. Oh! Felicidade sem fim, quando os espíritos dos justos, chegardes a ver a Deus! O primeiro olhar será a aurora da felicidade que, pelos séculos dos séculos será vossa companheira.

Contudo, o que não nos foi possível fazer pelo verdadeiro Deus, eis que o homem o faz pelos deuses mentirosos. Um ergue um altar a mulher, outro ao ouro, outro ao poder, outro à ciência, outro aos triunfos militares, um adora o homem poderoso, seu semelhante por natureza e superior apenas em prepotência ou fortuna, outro adora a si mesmo e diz: “Não há outros iguais a mim.” Aí estão os deuses daqueles que são do povo de Deus.

Não vos admireis de que os pagãos adorem animais, répteis e astros. Quantos répteis! Quantos animais! Quantos astros apagados adorais em vossos corações! Os lábios pronunciam palavras de mentira para adular, para possuir, para corromper. E não são estas as orações dos idólatras secretos? Os corações planejam pensamentos de vingança, de comércio ilícito, de prostituição. E não são estes os cultos aos deuses imundos do prazer, da avidez, do mal?

Foi dito: “Não adorarás nada daquilo que não é o teu Deus verdadeiro, único, eterno.”

Foi dito: “Eu sou o Deus forte e ciumento.”

Forte: Nenhuma outra força é mais força que a Dele. O homem é livre para agir. Satanás é livre para tentar. Mas quando Deus diz: “Basta”, o homem não pode mais agir mal e Satanás não pode mais tentar. Rechaçado fica este em seu inferno e derribado fica aquele em seu abuso de fazer o mal, porque há um limite para isso, além do qual Deus não permite que se vá.

Ciumento: de quê? De qual ciúme? Será o mesquinho ciúme dos homens pequenos? Não. O santo ciúme de Deus por seus filhos, o justo ciúme, o amoroso ciúme. Ele vos criou. Ele vos ama. Ele vos quer. Ele sabe o que vos prejudica. Conhece o que é que pode separar-vos Dele. E é ciumento daquilo que se intromete entre o Pai e os filhos, desviando-os do único amor que é salvação e paz: Deus! Compreendei este sublime ciúme, que não é mesquinho, que não é cruel, nem carcerário. Mas que é um amor infinito, que é uma infinita bondade, que é uma liberdade sem limites, que se dá a uma criatura finita, por deseja-la na eternidade para si e em si, e fazê-la partícipe de sua infinidade. Um pai bom não quer gozar sozinho de suas riquezas. Mas quer que os filhos as gozem com ele. No fundo, foi mais para os filhos do que para si que Ele as acumulou. Igualmente Deus. Mas pondo neste amor e desejo a perfeição que há em todas as suas ações.

Não decepcioneis o Senhor. Ele promete castigo aos culpados e aos filhos dos filhos culpados. E Deus nunca mente em suas promessas. Mas não fiqueis abatidos, em vosso ânimo, ó filhos do homem e de Deus. Ouvi, e exultai com esta outra promessa: “Eu uso de misericórdia até à milésima geração daqueles que me amam e observam os meus mandamentos. “ Até a milésima geração dos bons. E até à milésima fraqueza dos pobres filhos do homem, os quais caem, não por malícia, mas por irreflexão e por ciladas de Satanás. Mais ainda eu vos digo, que Ele vos abre os braços se, com o coração contrito e o rosto lavado pelo pranto, vós disserdes: “Pai, eu pequei. Eu sei. Mas eu me humilho por isso e a Ti me confesso. Perdoa-me. O Teu perdão será a minha força para voltar a viver a verdadeira vida.”

Não temais. Antes que vós pecastes por fraqueza, Ele sabia que teríeis pecado. Mas seu coração só se fecha, quando persistis no pecado, querendo pecar, fazendo de um certo pecado, ou de muitos pecados os vossos deuses horrorosos. Abatei todos os ídolos, e dai lugar ao Deus verdadeiro. Ele descerá com a sua glória para consagrar o vosso coração, quando se vir sozinho em vós.

Dai a Deus a sua morada. Não em templos de pedra, mas no coração dos homens é que ela está. Lavai a soleira dela, livrai o seu interior de todo aparato inútil ou culposo. Somente Deus. Só Ele. Ele é tudo! E em nada é inferior ao Paraíso o coração de um homem no qual Deus esteja, o coração de um homem que cante o seu amor ao Hóspede divino.

Fazei de cada coração um Céu. Iniciai a coabitação com o Excelso. Ela se aperfeiçoará em vosso eterno amanhã, em poder e alegria. Mas aqui será tal, que superará o tremente espanto de Abraão, Jacó e Moisés. Porque não será mais o encontro fulgurante e assustador com o Poderoso, mas a permanência com o Pai e o Amigo que desce para dizer-vos: “A minha alegria é estar entre os homens. Tu me fazes feliz. Obrigado filho.”

 

Foi dito: Não proferir em vão o meu Nome.”

Quando é que se profere em vão esse Nome? Só quando se blasfema? Não. Também quando o proferimos, sem nos tornarmos dignos de Deus. Poderá um filho dizer: “Eu amo a meu pai e o honro”, se depois em tudo aquilo que o pai deseja dele, ele faz sempre o contrário? Não é dizendo: “Pai, pai”, que se ama ao progenitor. Não é dizendo: “Deus, Deus”, que se ama o Senhor.

...O Deus de Israel é o mesmo Deus que criou todos os homens. Por que impedir que as criaturas sintam atração pelo seu Criador? Pensais vós que os pagãos não sintam alguma coisa no fundo de seus corações, qualquer coisa de insatisfação, que grita neles, e os agita, que os leva a procurar? Que, é? Que é? É o Deus desconhecido. E pensais vós que, se um pagão sente propensão pelo altar do Deus desconhecido, por aquele altar incorpóreo que é a alma, na qual existe sempre uma lembrança do seu Criador, pois é a alma que espera ser possuída pela glória de Deus, como o foi o Tabernáculo erguido por Moisés, segundo a ordem recebida, e que chora, enquanto essa posse não se realiza. Deus rejeita esse seu oferecimento, como se rejeita uma profanação? E pensais que seja pecado aquele ato, suscitado por um honesto desejo da alma que, despertada por apelos celestes, diz: “Eu vou”, ao Deus que me diz: “Vem”, enquanto seja santidade o corrompido culto de um de Israel, que oferece ao Templo aquilo que sobra de seus prazeres, e que vai à presença de Deus e profere seu Nome Puríssimo, com uma alma e um corpo onde pupulam as culpas com uma grande quantidade de vermes?

Não. Em verdade Eu vos digo que a perfeição do sacrilégio está naquele israelita que, com a alma impura pronuncia em vão o Nome de Deus. Esse Nome é pronunciado em vão, quando, e vós não sois tolos, quando pelo estado de vossa alma, sabeis que o estais pronunciando inutilmente. Oh! Eu estou vendo o rosto indignado de Deus, que se vira, desgostoso, para o outro lado, quando um hipócrita o chama, quando um impenitente o nomina! E fico horrorizado, até Eu que não mereço aquela ira divina.

Leio em mais de um coração este pensamento: “Mas então, com exceção dos pequeninos ninguém poderá chamar Deus, porque tudo no homem é impureza e pecado”. Não. Não digais assim. É pelos pecadores que aquele Nome há de ser invocado. É por aqueles que se sentem estrangulados por Satanás e que querem livrar-se do pecado e do Sedutor. Eles querem. Eis o que transforma o sacrilégio em um rito. Querer ficar curado. Chamar o Poderoso para ser perdoados e para ser curados. Invocá-lo, para pôr em fuga o Sedutor.

Foi dito no Gênesis que a Serpente tentou Eva na hora em que o Senhor não estava passeando no Éden. Se Deus tivesse estado no Éden, Satanás não teria podido estar lá. Se Eva tivesse invocado a Deus, Satanás teria fugido. Tende sempre no coração este pensamento. E, com sinceridade invocai o Senhor. Aquele Nome é Salvação.

Muitos de vós querem descer para se purificarem. Mas purificai o vosso coração, incessantemente, escrevendo sobre ele com amor a palavra: Deus. Nada de orações mentirosas. Nada de práticas habituais. Mas com o coração, com o pensamento, com os atos, com todo o vosso próprio ser, dizei aquele Nome: Deus. Dizei-o para não ficardes sozinhos. Dizei-o para serdes sustentados. Dizei-o para serdes perdoados.

Compreendei o significado da palavra do Deus do Sinai. “Em vão”, quer dizer a pronunciação da palavra “Deus”, mas sem mudança para o bem. E, nesse caso, é pecado. Mas ela não é “em vão”, quando como a pulsação do sangue no coração, cada minuto do vosso dia. Cada vossa ação honesta, cada necessidade, tentação, dor, traz de novo aos vossos lábios a filial palavra de amor: “Vem meu Deus!” Então, em verdade não cometeis pecado, ao proferirdes o Nome de Deus.

 

Foi dito: “Trabalha em um trabalho honesto e o sétimo dia tu dedicarás ao Senhor e ao teu espírito”, Isto está dito no mandamento sobre o repouso sabático.

O homem não é mais do que Deus. No entanto, Deus fez em seis dias a sua criação e no sétimo descansou. Como é então, que o homem se permite não imitar o Pai e não obedece à sua ordem? É um mandamento tolo? Não. Em verdade, é uma ordem salutar, seja na da carne, naquela moral, como na do espírito.

O corpo cansado tem necessidade do repouso, assim como a têm todos os seres criados. Repousa também o boi, que é usado no campo, e nós o deixamos repousar para não perdê-lo; repousa o burro que nos transporta, a ovelha que nos dá o cordeirinho e o leite. Repousa também, e nós a deixamos repousar, a terra do campo, para que nos meses em que ela fica sem a semente, se nutra e se sature dos sais que sobre ela caem do céu ou que afloram do solo. Repousam ainda, se bem que não peçam para isso o nosso beneplácito, os animais e as plantas, que obedecem a leis eternas sobre uma reprodução sábia. Por que então o homem quer não imitar o Criador, que no sétimo dia descansou e não também aos seres inferiores que, vegetais ou animais que sejam, sem terem recebido outro mandamento, a não ser o instinto, sabem regular-se por ele e a ele obedecer?

É uma ordem moral, além de física. Por seis dias o homem lidou com todos e com tudo. Preso como um fio do mecanismo do tear, andou para cima e para baixo, sem nunca poder dizer: “Agora vou ocupar-me de mim mesmo e dos meus entes queridos. Sou o pai e hoje sou de meus filhos, sou o esposo e hoje me dedico à minha esposa, sou o irmão e me alegro com os irmãos, sou o filho e cuido da velhice de meus pais.”

É uma ordem espiritual. Santo é o trabalho. Mais santo o amor. Santíssimo Deus. É preciso então recordarmo-nos de dar ao menos um dos sete dias ao nosso bom e Santo Pai, que nos deu a vida e no-la mantém. Por que haveremos de dar-lhe um tratamento menos do que o que se deve a um pai, aos filhos, aos irmãos, à esposa, a até ao nosso próprio corpo? Que o dia do Senhor seja dele! Oh! Como é doce estar abrigado, depois do trabalho do dia, pela tarde, na casa cheia de afetos! Como é doce reencontrá-la, depois da uma longa viagem! E por que não ir abrigar-se, depois de seis dias de trabalho, na casa do Pai? Por que não ser como o filho, que volta de uma viagem que durou seis dias e diz: “Eis-me aqui para passar o meu dia de descanso contigo?”

Mas agora escutai, Eu disse: “Trabalha em um honesto trabalho.”

Vós sabeis que a nossa Lei ordena o amor ao próximo. A honestidade do trabalho faz parte do amor ao próximo. Quem é honesto em seu trabalho não rouba em seus negócios, não desfralda no pagamento ao operário, não se aproveita dele de maneira culpável, lembra-se de que o servo e o operário são uma carne e uma alma semelhantes a ele e não os trata como uns pedaços de pedra sem vida, que é ilícito despedaçar e percutir com o pé e com o ferro. Quem não faz assim não ama o próximo e peca por isso aos olhos de Deus. Maldito é o seu ganho, mesmo quando dele tira uma oferta para o Templo.

Oh! Que oferta mentirosa! E como pode ter a coragem de ir coloca-la aos pés do Altar, quando dela estão pingando as lágrimas e o sangue do inferior que foi explorado, ou tem nome de “furto”, ou seja, de uma traição ao próximo, já que o ladrão é um traidor do seu próximo? Não fica, acreditai-o, santificada a festa, se não for usada para escrutar a si mesmo e empregada para melhorar a si mesmo e para reparar os pecados cometidos nos seis dias. Eis a santificação da festa. Esta, e não uma outra toda exterior, que não muda nem uma vírgula o vosso modo de pensar.

Deus quer obras vivas, não simulacros de obras. É simulacro o falso obséquio à sua Lei. É simulacro a santificação mentirosa do sábado, ou seja, o repouso para mostrar aos olhos dos homens obediência ao mandamento, mas usando depois aquelas horas de ócio no vício, na luxúria, na crápula, na cogitação sobre como explorar e prejudicar o próximo na semana que vem. É simulacro a santificação do sábado, ou seja, o repouso material que não se une ao trabalho íntimo, espiritual, santificante por um reto exame de si, um humilde reconhecimento da própria miséria, um sério propósito de fazer melhor na próxima semana.

Vós direis: “E se depois se torna a cair em pecado?” Mas, que direis vós de um menino que, por ter caído, não quisesse mais dar nem um passo, para não voltar a cair? Que é um tolo. Que não deve-se envergonhar por estar sem firmeza no passo, porque todos nós fomos assim, quando éramos pequenos e não foi por isso que nosso pai deixou de nos amar. Quem é que não se lembra de como as nossas quedas fizeram chover sobre nós uma chuva de beijos maternos e de carícias paternas? A mesma coisa faz o Pai dulcíssimo, que está nos Céus. Ele se inclina sobre o seu pequenino que chora no chão e lhe diz: “ Não chores. Eu te levanto. Toma cuidado da outra vez. Agora vem para os meus braços. Neles todo o teu mal passará e depois irás embora mais forte, curado e feliz.” Isto é o que diz o nosso Pai que está nos Céus. Isto é o que Eu vos digo.

Se conseguísseis ter fé no Pai, tudo vos correria bem. Uma fé, prestai atenção. Como a de um pequeno. O pequeno acha que tudo é possível. Não pergunta a si mesmo se, e como é que pode acontecer uma coisa. Não mede a profundidade da coisa. Ele crê em quem lhe inspira confiança e faz o que este lhe diz. Sede como os pequenos junto ao Altíssimo. Como Ele ama a estes anjos dispersos, que são a beleza da terra! Igualmente ama as almas que se fazem simples, boas, puras como é o menino.

 

Honra o pai e a mãe, diz o decálogo.

Como é que se honram? Por que devem ser honrados?

Honram-se com uma verdadeira obediência, com um amor justo, com um respeito confiante, com um temor reverencial, que não impede a confiança, mas ao mesmo tempo não nos faz tratar os maiores como se fôssemos servos e inferiores. Devem ser honrados, porque depois de Deus, os doadores da vida, e de todas as necessidades materiais da vida, os primeiros mestres, os primeiros amigos do jovem ser que nasceu sobre a terra, são o pai e a mãe.

Diz-se: “Deus te abençoe” ou “obrigado” àquele que nos recolhe um objeto caído ou nos dá um pedaço de pão. E a estes, que se cansam no trabalho para nos sustentar, para nos dar nossas vestes e conservá-las limpas, a estes que se levantam para escrutarem o nosso sono, que sacrificam seu repouso para cuidar de nossa saúde, que fazem de seus colos um leito para as nossas mais dolorosas canseiras, não lhes haveremos de dizer com amor: “Deus de abençoe”, “obrigado”?

São os nossos mestres. O mestre é temido e respeitado. Mas ele toma conta de nós, quando já sabemos o indispensável sobre o modo de comportar-nos, de alimentar-nos e de dizer as coisas essenciais, e ele nos deixa, quando o mais árduo ensinamento da vida, ou seja, “o viver” nos deve ainda ser ensinado. E são o pai e a mãe que nos preparam à escola primeiro, à vida depois.

São nossos amigos. Mas que amigo pode ser mais amigo do que um pai? E quem mais amiga do que uma mãe? Podeis tremer diante deles? Podeis dizer: “Serei traído por ele, por ela?” Contudo, eis o jovem tolo, e a moça, mais tola ainda, que se fazem amigos de estranhos, e fecham seus corações ao pai e à mãe, e estragam suas mentes e corações com relacionamentos que são imprudentes, quando não chegam a ser até culpáveis, a ser causa de lágrimas paternas e maternas, que sulcam como se fossem gotas de chumbo fundido nos corações dos pais. Aquelas lágrimas porém, Eu vo-lo digo, não caem no chão nem no esquecimento. Deus as recolhe e as conta. O martírio de um pai espezinhado receberá um prêmio do Senhor. Mas o ato do filho, que é o suplício de um pai, tampouco será esquecido, mesmo quando o pai e a mãe, em seu doloroso amor, suplicam piedade de Deus para o filho culpado.

Honra o pai e a mãe, se queres viver longos dias sobre a terra, foi dito. E eternamente no Céu, Eu acrescento. Pequeno demais seria o castigo de viver pouco aqui por ter faltado para com os pais! O além não é uma fábula, e do lado de lá haverá prêmio ou castigo, conforme o modo como tivermos vivido. Quem falta para com seus pais, falta para com Deus, porque Deus deu para os pais um mandamento de amor, e quem não ama, peca, Por isso, ele perde mais do que a vida material, perde a verdadeira vida de que Eu vos falei, e vai ao encontro da morte, e até mesmo já está morto, pois sua alma está fora da graça do Senhor, já está culpada do delito, visto que fere o amor mais santo que há depois do de Deus, e já traz em si os germes dos futuros adultérios, porque o filho mau se torna um pérfido esposo, já tem em si os estímulos da perversão social, porque um filho mau já é o desabrochar de um futuro ladrão, do truculento e violento assassino, do frio usuário, do libertino sedutor, do gozador cínico, do repugnante traidor da pátria, dos amigos, dos filhos, da esposa, de todos. E podereis ter estima e confiança em quem foi capaz de trair o amor de uma mãe e  de zombar dos cabelos brancos de um pai?

Porém, ouvi ainda. Porém aos deveres dos filhos corresponde um dever igual dos pais. Maldição ao filho culpado, mas maldição também ao culpado pai. Fazei que os vossos filhos não vos possam criticar, nem imitar no mal. Fazei-vos amar por um amor dado com justiça e misericórdia. Deus é misericórdia. Os pais que acima de si só têm a Deus, sejam misericordiosos. Sede exemplo e conforto para os filhos. Sede paz e guia. Sede o primeiro amor de vossos filhos. Uma mãe é sempre a primeira imagem da esposa que nós quereríamos. Um pai, para suas filhas jovenzinhas, tem o rosto que elas sonham que seu esposo vai ter. Fazei que, sobretudo os filhos e as filhas escolham com sábia mão os recíprocos consortes, pensando na mãe, no pai, e desejando que o seu consorte tenha o que o pai ou a mãe tem: uma virtude veraz.

 

Não Matar, foi dito.

A qual dos dois grupos de mandamentos pertence este? Ao segundo, direis vós? Estais certo disso? Eu vos pergunto ainda: é um pecado que ofende a Deus ou ao atingido. Vós dizeis: Ao atingido? Também disto tendes certeza? E vos pergunto ainda: será somente um pecado de homicídio? Matando cometeis somente este único pecado? Este só, dizeis vós? Ninguém tem dúvidas sobre isso?

...Ao medir uma culpa, é preciso pensar nas circunstâncias que a precedem, preparam, justificam, explicam. Quem eu feri? Que coisa eu feri? Onde eu feri? Com que meios eu feri? Por que eu feri? Como eu feri? Quando eu feri? Isto deve-se perguntar, antes de apresentar-se a Deus para pedir-lhe perdão, aquele que matou.

Quem eu feri?

Um homem. Eu digo: um homem. Não estou pensando nem considerando se ele é rico ou pobre, se é livre ou escravo. Para Mim não existem escravos oi poderosos. Existem somente homens criados por um único, por isso todos são iguais. De fato, diante da majestade de Deus, é pó até o mais poderoso monarca da terra. E aos seus e aos meus olhos, só existe uma escravidão: a do pecado e, portanto de Satanás. A Lei antiga distingue os livres dos escravos e tem a sutileza de distinguir entre o matar com um golpe, e o matar deixando a vítima sobreviver um dia ou dois e, assim, se a mulher grávida é levada à morte pelas pancadas, ou se foi morto somente o seu fruto. Mas isso foi dito quando a luz da perfeição ainda estava longe. Agora ela está entre vós, e diz: “Qualquer um que ferir de morte a um seu semelhante, peca”. E não peca somente contra o homem, mas também contra Deus.

O que é o homem? O homem é a criatura soberana que Deus criou para ser o rei da criação, criado a sua imagem e semelhança, dando-lhe a semelhança segundo o espírito e a imagem, tirando esta imagem do seu pensamento perfeito. Olhai para o ar, para a terra e para as águas. Porventura vede algum animal, ou alguma planta, que por mais belos que sejam cheguem a igualar o homem? O animal corre, come, bebe, dorme, gera, trabalha, canta, voa, rasteja, sobe. Mas não fala. O homem também sabe correr e saltar, e no salto é tão ágil que emula o pássaro, sabe nadar, e no nado é tão veloz que parece um peixe, sabe rastejar e parece um réptil, sabe subir e parece um macaco, sabe cantar e parece um pássaro. Sabe gerar e reproduzir-se, mas além disso sabe falar.

E não digais: “Cada animal tem a sua linguagem”. Sim. Um muge, o outro bale, outro zurra, outro chilreia, outro gorjeia, mas do primeiro até o último bovino todos terão sempre o mesmo mugido, e assim também o ovino balirá até o fim do mundo, e o burro zurrará como zurrou o primeiro, e o pássaro sempre soltará o seu curto chilreio enquanto a cotovia e o rouxinol farão ouvir o mesmo hino, ao sol a primeira, e à noite estrelada o segundo, mesmo se for o último dia da terra, do mesmo modo como saudaram ao primeiro sol e à primeira noite. O homem ao contrário, porque não tem apenas uma garganta e uma língua, mas um complexo de nervos, que se concentram no cérebro, sede da inteligência, sabe captar novas sensações, e pensar sobre elas, e dar-lhes um nome.

Adão deu nome de cão ao animal seu amigo e o de leão ao que lhe pareceu mais semelhante na juba basta, encimando uma cara de pouca barba. Chamou de ovelha ao animal que o saudava manso, e chamou de pássaro aquela flor de penas, que voava como a borboleta, mas cantava docemente um canto que a borboleta não tem. E depois com o passar dos séculos, os filhos de Adão foram criando sempre novos nomes, à medida que foram conhecendo as obras de Deus nas criaturas ou que, pela centelha divina que há no homem, não somente geraram filhos, mas criaram também coisas úteis ou nocivas aos próprios filhos, conforme eles estavam com Deus ou contra Deus.

Estão com Deus os que criam ou produzem coisas boas. Estão contra Deus os que criam coisas más, que prejudicam ao próximo. Deus se vinga por seus filhos que foram torturados pelo mau gênio humano.

O homem é portanto a criatura predileta de Deus. Ainda que agora seja culpado, é sempre o que lhe é mais caro. E o que testemunha isso é ter-lhe mandado o seu próprio Verbo, não um anjo, não um arcanjo, não um querubim, não um serafim, mas o seu Verbo, revestindo-o da carne humana, para salvar o homem. Não achou indigna Dele esta veste, que tornava passível de sofrer e expiar Aquele que, por ser como Ele puríssimo Espírito, não teria conseguido sofrer e expiar a culpa do homem.

O Pai me disse: “Serás homem, o Homem. Eu havia feito um. Perfeito, como tudo o que Eu faço. Para ele estava destinada uma vida doce, um dulcíssimo adormecer, um feliz despertar, uma felicíssima permanência eterna no meu Paraíso celeste. Mas, Tu o sabes, nesse Paraíso não pode entrar o que está contaminado, porque nele Eu-Nós, Uno e Trino Deus, temos o trono. E diante dele, não pode haver senão santidade. Eu sou aquele que sou. A minha Natureza divina, a nossa misteriosa essência, não pode ser conhecida senão por aqueles que são sem mancha. Agora o homem em Adão e por Adão está suo. Vai, limpa-o Eu quero. Tu serás, de agora em diante o Homem. O Primogênito, porque serás o primeiro a entrar aqui com carne mortal livre do pecado, com alma livre da culpa de origem. Aqueles que te precederam na terra, e aqueles que virão depois de Ti terão vida pela sua morte de Redentor.” Não podia morrer, senão alguém que houvesse nascido. Eu nasci e Eu morrerei.

O homem é a criatura predileta de Deus, dizei-me: se um pai tem muitos filhos, mas um deles é o seu predileto, a pupila de seus olhos, e este vem a ser morto, aquele pai não sofre mais do que se tivesse sido morto um outro filho? Isto não deveria acontecer, por que o pai deveria ser justo com todos os seus filhos. Mas acontece porque o homem é imperfeito. Deus o pode fazer com justiça porque o homem é a única criatura entre as outras, que tem em comum com o Pai Criador a alma espiritual, sinal inegável da paternidade divina. Se a um pai se lhe mata o filho, ofende-se somente ao filho? Não. Também ao pai. Na carne se ofende ao filho, no coração ao pai. Em ambos se produz a ferida. Matando um homem, ofende-se somente o homem? Não. Também a Deus. Na carne ao homem, no seu direito a Deus. Porque a vida e a morte só por Ele podem ser dadas ou tiradas. Matar é fazer violência a Deus e ao homem. Matar é penetrar no domínio de Deus. Matar é faltar ao preceito de amor. Quem mata não ama a Deus, porque destrói uma de suas obras: um homem. Quem mata não ama ao próximo, porque tira do próximo aquilo que o matador quer para si: a vida.

E eis que respondo as duas primeiras perguntas.

Onde eu feri?

Pode-se ferir pelo caminho, na casa do agredido ou atraindo a vítima para a sua própria casa. Pode-se ferir um ou outro órgão, causando sofrimento mais grave, e fazendo-se também dois homicídios em um, se se fere uma mulher que tem o ventre grávido do seu fruto.

Pode-se ferir pelo caminho, sem ter a intenção de fazê-lo. Um animal que nos toma a rédea da mão, pode matar a quem vai passando. Mas então não há em nós premeditação, enquanto que se alguém vai armado com um punhal, sob as hipócritas vestes de linho à casa do inimigo, e, muitas vezes é inimigo o que tem a culpa de ser melhor, ou então o convida a ir à sua casa, com sinais de honra e depois o estrangula e joga em um poço, nesse caso houve premeditação e a culpa teve uma malícia completa, com ferocidade e violência.

Se eu mato o fruto junto com a mãe, eis que Deus me pedirá conta dos dois. Porque no ventre, que gera um novo homem, segundo o mandamento de Deus, é sagrado, e sagrada é a pequena vida, que nele está amadurecendo, à qual Deus deu uma alma.

Com que feri?

Em vão diz alguém: “Eu não queria ferir”, quando andava armada com uma arma de qualidade. Na hora da ira, até as mãos se tornam armas, sendo arma a pedra apanhada do chão, ou o galho arrancado de uma árvore. Mas quem observa friamente o punhal ou o machado e, quando acha que eles estão cegos, os afia, e depois os segura junto ao corpo, de modo que não sejam vistos, mas possam ser brandidos com facilidade e vai até o rival assim preparado, certamente não poderá dizer: Eu não tinha vontade de ferir”. Quem prepara um veneno, colhendo ervas e frutos tóxicos e faz deles um pó ou uma infusão e depois os oferece à vítima, como um tempero ou uma bebida, certamente não pode dizer: “Eu não queria matar.”

E agora escutai vós ó mulheres, caladas e impunes assassinas de tantas vidas. Também é matar, arrancar um fruto que está crescendo no ventre, porque ele vem de uma semente culposa ou porque é um embrião não desejado, um peso inútil para os vossos flancos e para a vossa riqueza. Só tendes um modo de não sentir aquele peso: permanecendo castas. Não unais o homicídio à luxúria, a violência à desobediência e não pensais que Deus não vê, porque o homem não vê. Deus tudo vê e tudo se lembra. Lembrai-vos disso, vós também.

Por que eu feri?

Oh! Quantos porquês! Pelo repentino desequilíbrio que cria em vós uma emoção violenta, como é aquela de encontrar o tálamo profanado, ou o ladrão em casa, ou o sórdido intento de violentar a própria filha mocinha, ou pelo frio e meditado cálculo para livrar-se de uma testemunha perigosa, por alguém que põe embaraços na carreira, por alguém cujo posto ou cuja bolsa se deseja, estes são tantos e outros tantos porquês. E se ainda Deus pode perdoar a quem, na febre da dor se torna um assassino, não perdoa a quem se torna assassino pela avidez do poder ou de estima entre os homens.

Agi sempre bem e não temereis o olhar de ninguém, nem a palavra de ninguém. Contentai-vos com o que é vosso e não desejareis o que é dos outros, a ponto de tornar-vos assassinos para terdes o que é do próximo.

Como eu feri?

Desfechando outros golpes, além e depois do primeiro, que foi irrefletido? Às vezes o homem não pode refrear-se. Porque Satanás o atira ao mal, como o fundibulário atira a pedra. Mas, que diríeis de uma pedra que, depois de ter acertado no alvo, voltasse por si mesma para a funda, para ser lançada de novo e tornar a golpear? Vós diríeis que, depois do primeiro golpe, desse um segundo, um terceiro, um décimo, sem que a sua ferocidade se amansasse. Porque a ira se apaga e cai em si, logo depois do primeiro ímpeto, se esse ímpeto tem origem em algum motivo ainda justificável. Enquanto que a ferocidade aumenta, quanto mais a vítima vai sendo ferida, no verdadeiro assassino, ou seja, em Satanás, que não tem, não pode ter piedade do irmão, porque sendo Satanás é ódio.

Quando eu feri?

No primeiro impulso? Depois que este passou? Fingindo perdão, enquanto o rancor ia fermentando sempre mais? Terei esperado talvez muitos anos para ferir, para dar uma dupla dor, matando o pai através dos filhos?

Vós estais vendo que matando, se peca contra o primeiro e o segundo grupo dos mandamentos. Porque vos arrogais o direito de Deus e porque conculcais o próximo. Portanto, pecado contra Deus e contra o próximo. E fazeis, não apenas um pecado de homicídio. Fazeis também um pecado de ira, de violência, de soberba, de desobediência, de sacrilégio e, ás vezes, se matais para roubar um posto ou uma bolsa de cobiça. Nem Eu apenas vo-lo digo, mas vo-lo explicarei melhor em outro dia, nem se peca por homicídio somente com a arma e o veneno, mas também com a calúnia. Meditai.

 

“Não tentarás ao Senhor teu Deus”,(Dt 6:16) foi dito.

Muitas vezes se esquece este mandamento. Tenta-se a Deus, quando se quer impor a Ele a nossa vontade. Tenta-se a Deus quando imprudentemente, se age contra as regras da Lei, que é santa e perfeita i no seu lado espiritual, o principal, se ocupa e se preocupa também com a carne que Deus criou. Tenta-se a Deus, quando tendo sido perdoados por Ele, torna-se a pecar. Tenta-se a Deus quando, beneficiados por Ele transforma-se em prejuízo os benefícios recebidos para que fossem um bem para nós e nos fizessem lembrar de Deus.

Com Deus não se brinca e de Deus não se zomba. E isto acontece muitas vezes.

 

“Não desejar a mulher do próximo.” ”Não cometer adultério.”

“Não desejar a mulher do próximo” está unido à “Não cometer adultério”. Porque o desejo precede sempre a ação. O homem é fraco demais para poder desejar, sem que depois chegue a consumar o seu desejo. E, que é sumamente triste, é que o homem não sabe fazer a mesma coisa nos desejos justos. Nas coisas más, se deseja e depois se realiza. Nas coisas boas, se deseja e depois se detém, se é que não se retrocede.

...o pecado de desejo está tão espalhado, como a grama, que por si mesma se propaga. Sois vós umas crianças, para não saberdes que aquela tentação é venenosa e deve ser evitada? “Fui tentado”. Aí está uma antiga palavra! Mas, assim como é também um antigo exemplo, deveria o homem lembrar-se das consequências disso e saber dizer: “Não.” Em nossa história não faltam exemplos de castos que assim se conservaram, não obstante todas as seduções do sexo e as ameaças dos violentos.

É a tentação um mal? Não o é. É obra do Maligno. Mas se transforma em glória para aquele que a vence.

O marido que vai para os outros amores é um assassino da esposa, dos filhos e de si mesmo. Aquele que entra na morada alheia para cometer adultério, é um ladrão, e dos mais vis. É semelhante ao cuco que, sem despesa, goza do ninho alheio. Aquele que solapa a boa fé do amigo é um falsário, porque testemunha uma amizade que na realidade não tem. Aquele que age assim, desonra a si mesmo e ao seus pais. Pode então ter Deus consigo?

 

“Não dirás falso testemunho”, foi dito.

Que existe de mais nauseante do que um mentiroso? Não se pode dizer que ele concentra crueldade com impureza? Sim, pode. O mentiroso, falo do mentiroso em coisas graves, é cruel. Ele mata uma estima com sua língua. Portanto, não é diferente do assassino. Aliás, digo: é mais do que um assassino. Este mata somente no corpo. O mentiroso mata também o bom nome, a lembrança de um homem, Por isso, é duas vezes assassino. É o assassino impune, porque não derrama sangue, mas fere a honra, tanto do caluniado, como de toda a sua família. E não me estou referindo nem ao caso de alguém que, jurando falso, mande um outro à morte. Sobre este já estão acumulados os carvões da Geena. Mas estou falando só de alguém que, com palavras mentirosas, insinua e persuade a outros em desfavor de um inocente. Por que faz isso? Ou por um ódio sem razão, ou pela avidez de ter o que o outro possui. Ou então, por medo.

ÓDIO: Tem ódio só quem é amigo de Satanás. O bom não odeia nunca, por nenhuma razão. Mesmo desprezado, mesmo prejudicado, ele perdoa. Não odeia nunca. O ódio é o testemunho que uma alma perdida dá de si mesma, e o testemunho mais belo que é dado ao inocente. Porque o ódio é a revolta do mal contra o bem. Não se perdoa a quem é bom.

AVIDEZ: “Ele tem o que eu não tenho. Eu quero o que ele tem. Mas somente com espalhar uma desestima contra ele, eu posso chegar ao lugar dele. E eu vou fazer isso. Minto? Que importa? Roubo? Que importa? Posso arruinar uma família inteira? Que importa?”

Entre tantas perguntas que o astuto mentiroso faz a si mesmo, ele se esquece, quer esquecer-se de uma pergunta. É esta: “E se eu fosse desmascarado?” Esta ele não faz a si mesmo, porque, dominado pelo orgulho e pela avidez, está como se tivesse os olhos vendados. Não vê o perigo. É ainda como um ébrio. Está embriagado pelo vinho satânico e não pensa que Deus é mais forte do que Satanás e se encarrega de fazer a vingança pelo caluniado. O mentiroso entregou-se à mentira e, estultamente confia na sua proteção.

MEDO: Muitas vezes alguém calunia para tirar a culpa de si mesmo. É a forma mais comum da mentira. O mal já foi feito. Teme-se que ele seja descoberto e reconhecido como obra nossa. Então, usando e abusando da estima que ainda se tem junto aos outros, eis que se inverte o fato, e daquilo que nós fizemos, atribuímos a culpa a um outro, do qual teme-se só a honestidade. Também se faz isso, porque o outro, às vezes, pode ter sido, sem querer, testemunha de alguma má ação nossa, e, então, queremos colocar-nos a seguro contra algum testemunho dele. Acusam-no, para que se torne malvisto onde, se ele falar ninguém creia nele.

Mas procedei bem! Procedei bem! E desta mentira nunca tereis necessidade. Não pensais, quando estais mentindo, que vós estais impondo a vós mesmos um pesado jugo? Ele consiste em vossa sujeição ao demônio, no medo contínuo de um desmentido e na necessidade de ficar sempre se lembrando da mentira dita, com os fatos e os particulares com que foi dita, mesmo depois de anos, sem cair em contradição. É um trabalho de galeote. E se isso ainda servisse para o Céu! Mas só serve para preparar-vos um lugar no inferno!

Sede sinceros. É tão bela a boca do homem que não conhece mentira! Será pobre, será rústico, será desconhecido? Antes, o é? Sim. Mas sempre é um rei. Porque é um sincero. E a sinceridade é régia mais do que o ouro e do que um diadema, e eleva o homem acima das multidões, mais do que um trono, e forma uma corte de bons, mais do quanto pode ter um monarca. Segurança e tranquilidade é o que dá a vizinhança com um homem sincero. Ao passo que é um incômodo a amizade com um homem não sincero. Só a vizinhança dela já é um incômodo. Quem mente, não pensa que – porque bem depressa a mentira se descobre de mil modos – depois ele é sempre considerado suspeito? Como se poderia aceitar mais o que ele diz? Até quando diz a verdade – e os que ouvem querem crer – no fundo ficam sempre com uma dúvida: “Não estará mentindo agora também?”

Vós direis: “Mas onde está o testemunho falso?” Toda mentira é um falso testemunho. Não somente a mentira legal.

Sede simples como simples é Deus e o menino. Sede verídicos em todos os momentos de vossa vida. Quereis ter boa reputação? Sede bons de verdade. Ainda que um maledicente quisesse falar mal de vós, cem bons diriam: “Não. Não é verdade. Ele é bom. Suas obras falam por ele.”

Em um livro sapiencial está escrito: “O homem apóstata procede com perversidade em seus lábios... em seu coração perverso prepara o mal e em todo tempo vive semeando discórdias.” Deis coisas o Senhor abomina e a sétima é por Ele execrada: os olhos soberbos, a língua mentirosa, as mãos que derramaram sangue inocente, o coração que medita desígnios iníquos, os pés que correm apressados para o mal, a falsa testemunha que profere mentiras, e aquele que semeia discórdia entre os irmãos. Pelos pecados da língua a ruína se aproxima do homem mau. Quem mente é uma testemunha fraudulenta. Os lábios verídicos não mudam nunca, mas é testemunho de um momento quem trama linguagem de fraude. As palavras do murmurador parecem simples, mas elas penetram até as entranhas. O inimigo se reconhece em seu falar, quando prepara a traição. Quando fala com voz baixa, não confieis nele, porque no coração ele traz sete malícias. Ele com dissimulação esconde o seu ódio, mas a sua malícia será revelada. Quem cava um buraco cairá nele e a pedra cairá em cima de quem a vai rolando.

Velho como o mundo, é o pecado da mentira e sem mudança é o pensamento do sábio a seu respeito, como sem mudança é o juízo de Deus sobre quem é mentiroso.

Eu digo: “Tende sempre a mesma linguagem. O sim seja sempre sim, e o não seja sempre não, mesmo diante dos poderosos e dos tiranos. E grande mérito tereis por isso no Céu.”

 

“Não roubar e não desejar as coisas alheias.”

Deus dá a cada um o necessário. Isto é a verdade. O que é necessário ao homem? O luxo? Um grande número de servos? As terras cujos campos não se podem contar? Os banquetes que começam com o por-do-sol e terminam com o romper da aurora? Não. Necessário para um homem é um teto, um pão, uma veste. O indispensável para viver.

Olhai ao redor de vós. Quem são os mais alegres e os mais sãos? Quem é que goza de uma velhice sadia e serena? Os gozadores? Não. Aqueles que honestamente vivem, trabalham e desejam. Esses não têm o veneno da luxúria e permanecem fortes. Não têm o veneno das crápulas e permanecem ágeis. Não tem o veneno da invejas e permanecem alegres. Enquanto que aquele que deseja ter sempre mais, mata sua paz e não goza, mas envelhece precocemente, queimando pela inveja ou pelo abuso.

Poderia unir o mandamento do “não roubar” àquele do “Não desejar o que é dos outros?” Porque, de fato, o desejo excessivo impele ao furto. Não há mais do que um rápido passo deste para aquele. É ilícito todo deseja? Não digo isto. O pai de família que, trabalhando no campo ou na oficina, deseja tirar daí o pão para os seus filhos, na verdade não peca. Ao contrário, está cumprindo o seu dever de pai. Mas aquele que, em vez disso, não deseja outra coisa senão gozar mais, e se apropria do que é dos outros, para conseguir gozar mais, esse peca.

A inveja! Porque o que é o desejo das coisas alheias, senão avareza e inveja? A inveja separa de Deus, meus filhos, e une a Satanás.

Não pensais que o primeiro que desejou o que era dos outros foi Lúcifer? Era o mais belo dos arcanjos e gozava de Deus. Teria devido ficar contente com isso. Invejou a Deus, quis ser Deus e tornou-se o demônio, O primeiro demônio.

Segundo exemplo: Adão e Eva tudo tiveram, gozavam do paraíso terrestre, gozavam da amizade de Deus, felizes com os dons da graça que Deus lhes havia dado. Teriam devido contentar-se com isso. Invejaram a Deus em seu conhecimento do bem e do mal e foram expulsos do Édem, tornando-se os proscritos malvistos a Deus. Foram os primeiros pecadores.

Terceiro exemplo: Caim invejou Abel por sua amizade com o Senhor. E tornou-se o primeiro assassino.

Maria, irmã de Arão e Moisés, invejou o irmão e tornou-se a primeira leprosa da história de Israel.

Poderia passo a passo, conduzir-vos por toda a vida do povo de Deus, e veríeis que o desejo imoderado fez de quem o teve, um pecador, da nação um castigo. Porque os pecados dos particulares se acumulam e provocam os castigos das nações, assim como grãozinhos e mais grãozinhos de areia, acumulados em séculos e séculos, provocam um desmoronamento, que submerge as cidades com os que moram delas.

...Em verdade Eu vos digo que possuem a alegria do pássaro aquele que vive sem desejos impuros. Ele confia em Deus e sente que Deus é Pai. Ele sorri ao dia que surge e à noite que desce, porque sabe que o sol é seu amigo e que a noite é sua nutriz. Ele olha sem rancor para os homens e não teme as suas vinganças, porque não os prejudica de nenhum modo. Ele não receia pela sua saúde, nem pelo seu sono, porque sabe que uma vida honesta mantém longe as doenças e dá um doce descanso. Finalmente, ele não teme a morte, porque sabe que, tendo agido bem, só pode receber o sorriso de Deus.

 

 

OBS: Todos os textos aqui expostos são enxertos das revelações dadas por Jesus a Maria Valtorta, o qual estão escritos em sua obra intitulada: O EVANGELHO QUE ME FOI REVELADO.




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