PARÁBOLA DOS
VERDADEIROS FILHOS DE DEUS
Jesus diz:
“Em verdade, em verdade, Eu vos digo que aqueles que parecem
ser uns bastardos são filhos verdadeiros, e que os filhos verdadeiros se tornam
bastardos. Ouvi vós todos uma parábola. Há tempo houve um homem que, por causa
de algumas suas dívidas, teve que ausentar-se por muito tempo de casa, deixando
seus filhos, que eram ainda pouco mais do que umas crianças. Do lugar onde
estava, escrevia cartas aos seus filhos maiores, para conservá-los sempre no
respeito a seu pai distante, e para fazê-los lembrarem-se dos seus
ensinamentos. O último filho, nascido depois que ele tinha viajado, estava
ainda com a ama de leite, uma mulher que morava longe de lá, das terras da
esposa, mas que nem era de sua raça. A mulher veio a morrer, enquanto este
filho ainda estava pequeno e longe de casa. Os irmãos disseram: “Vamos deixá-lo
lá onde está, com os parentes de nossa mãe. Talvez o pai não se lembrará mais
dele e com isso nós, levemos vantagem, tendo que dividir a herança com um de
menos, quando o nosso pai vier a morrer.” E assim fizeram. Dessa maneira, o
menino, que estava longe, viveu criado por seus parentes do lado da mãe, sem
ter conhecido os ensinamentos do pai, sem saber que tinha um pai e irmãos, ou
pior, conhecendo o que é a amargura de ter que repetir assim: “Eles todos me
repudiaram, como se eu fosse um bastardo”, e chegou até a pensar que o fosse,
pelo tanto que se sentia rejeitado pelo pai.
Quis o destino que ele, tendo-se tornado homem, e tendo-se
colocado em um emprego, irritado como estava por aqueles pensamentos, tinha
começado a odiar até a família de sua mãe, que ele reputava culpada de
adultério, aquele jovem tinha ido à cidade onde estava o seu pai. E, sem saber
quem era ele, dele se aproximou, e teve a oportunidade de ouvi-lo falar. O
homem era um sábio. E, como não tinha o prazer de tratar com os seus filhos, porque
eles estavam longe, --- eles resolviam as coisas por si mesmos, mantendo apenas
um relacionamento convencional com o pai distante, apenas para fazê-lo
lembrar-se que eles eram os “seus” filhos e que, por isso, não se esquecesse
deles no testamento --- ele se ocupava muito em dar bons conselhos aos jovens
dos quais ele conseguia aproximar-se no lugar onde morava. O jovem ficou atraído
por aquela bondade de pai para com todos aqueles jovens e, não somente se
aproximou dele, mas viu um tesouro em cada palavra dele, que ia tornando mais o
seu espírito exasperado. O homem adoeceu, e teve que resolver voltar para sua
terra. E o jovem lhe disse: “Seu Senhor, só tu és que me falaste com justiça,
levantando o meu espírito. Deixa que eu te acompanhe como teu servo. Não quero
recair no mesmo mal que antes.”
“Vem comigo. Ficarás no lugar do meu filho, do qual eu não
pude mais ter notícia.”
E voltaram juntos para a casa paterna.
Nem o pai, nem os irmãos, nem o próprio jovem puderam ter a
ideia de que o Senhor estivesse reunindo de novo os que eram do mesmo sangue
debaixo de um mesmo teto. Mas o pai teve muito que chorar pelos filhos que ele conhecia,
pois os encontrou esquecidos dos seus ensinamentos, insaciáveis, duros de
coração, não tendo mais fé em Deus, mas ao contrário, com muitas idolatrias. E
em seus corações: a soberba, a avareza, a luxúria eram os seus deuses, e não
queriam ouvir falar de outra coisa, que não fosse alguma vantagem humana. O
estrangeiro porém, sempre se aproximava do Senhor, tornava-se justo, bom,
amoroso, obediente. Os irmãos o odiavam, porque o pai amava aquele estrangeiro.
Mas ele os perdoava, porque havia compreendido que no amor é que está a paz.
Um dia o pai, desgostoso com o procedimento de seus filhos,
lhes disse: “Vós estais desinteressados pelos parentes de vossa mãe, e até pelo
vosso irmão. Mas, lembrai-vos da conduta dos filhos de Jacó para com o seu
irmão José. Eu quero ir àquelas terras para saber notícias dele. Pode ser que
eu o encontre, e que com isso me console.”
E se despediu, tanto dos filhos conhecidos, como do jovem
desconhecido, dando a este uma provisão em dinheiro, a fim de que ele pudesse
voltar ao lugar de onde tinha vindo, e lá se estabelecesse em algum pequeno
comércio.
Tendo chegado às terras da falecida mulher, os parentes dela
lhe contaram que o filho abandonado, cujo nome primitivo era Moisés, mas que
tinha passado a chamar-se Manassés, porque realmente ele, ao nascer, tinha
feito que seu pai se esquecesse de ser justo, tendo-o abandonado. “ Não sejais
injusto comigo! Havia-me sido dito que do menino se tinham perdido todas as
notícias, e eu nem esperava mais encontrar nenhum de vós. Mas falai-me dele.
Como está? Cresceu forte? É parecido com minha amada esposa, que se finou, ao
dá-lo à luz? Ele está bem? Ele me ama?”
“É forte, e é belo como sua mãe, só que tem uns olhos de uma
cor negra pura. Mas da mãe ele herdou até a figura de uma alfarroba, que ela
tinha de um lado. E de ti ele tem essa tua pronúncia, um pouco gaguejada.
Depois de adulto, foi-se embora daqui, aborrecido com sua sorte, tendo dúvidas
sobre a honestidade de sua mãe, e de ti tendo rancor. Ele andou para além dos
montes e dos rios, chegando até Trapázio para...”
“Estais falando Trapázio? Lá no Sinópio? Oh! Falai! Eu morava
lá, e conheci um jovem um pouco gago, sozinho e triste, e muito bom, ainda que
por baixo daquela sua crosta de dureza. E ele? Falai-me dele?”
“Talvez seja ele. Torna a procurá-lo. Do lado direito ele tem
a figura de uma alfarroba, em relevo e escura, como a tinha a tua mulher.”
O homem partiu precipitadamente, esperando encontrar ainda o
estrangeiro em sua casa. Ele havia partido, para voltar à sua colônia em
Sinópio. E o homem vai atrás dele... até que o encontrou. Fez que ele lhe
descobrisse o lado. E o reconheceu. Caiu de joelhos, dando graças a Deus por
ter-lhe restituído o filho, e melhor do que os outros, que cada vez mais se
bestializavam, enquanto que este, naqueles meses que se tinham passado, se
havia tornado sempre mais santo. E ao filho bom ele disse: “Tu terás a parte
dos irmãos, porque tu, sem teres o amor de ninguém, te tornaste justo, mais do
que qualquer outro.”
E não era justiça? Sim, que o era. Em verdade, Eu vos digo
que são verdadeiros filhos de Bem aqueles que rejeitados pelo mundo e
desprezados, odiados, vilipendiados, abandonados como uns bastardos, reputados
como uma vergonha e uma morte, sabem superar os filhos que nasceram na casa,
mas são rebeldes às Leis dela. Não é o ser de Israel que dá o direito ao Céu.
Não é ser fariseus, escribas ou doutores o que assegura a sorte. Mas é ter boa
vontade, e vir generosamente em busca da Doutrina de amor, para se renovarem
nela, fazerem-se por meio dela filhos de Deus, em espírito de verdade.
Vós todos que estais ouvindo, ficai sabendo que muitos dos
que se julgam seguros em Israel serão suplantados por aqueles que para eles são
publicanos, meretrizes, gentios, pagãos e galeotes. O Reino dos Céus é de quem
sabe renovar-se, acolhendo a Verdade e o Amor.”
(De Jesus à Valtorta, Vol. 6, pgs 15 a 18)

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