JESUS AMOU ATÉ OS SEUS
INIMIGOS
Uma mulher sai, por uma porta, e chorando vai prostrar-se aos
pés de Jesus.
“Que tens?”
“Mestre, já te purificaste?”
“Sim. Porque perguntas?”
“Porque eu queria dizer-te... Mas não podes aproximar-se
dele... O médico diz que ele está infectado. Depois da Páscoa, irei chamar o
sacerdote... e... Hinos o acolherá. Não digas que eu sou culpada. Eu não sabia
de nada. Ele trabalhou em Jope durante muitos meses e voltou assim, dizendo que
se havia ferido. Eu fiz uso de bálsamos e de banhos com aromas... mas não
valeram nada. Consultei um conhecedor de ervas medicinais e ele me deu pós para
o sangue... Separei dele os filhos... separei a cama... porque... eu estava
começando a compreender. Ele piorou. Chamei o médico. E ele me disse: “ Mulher
tu sabes qual o teu dever e eu o meu. Isto é uma lesão proveniente da luxúria.
Afasta-o de ti. Eu o afastarei do povo. E o sacerdote o separará de Israel. Ele
devia ter pensado nisso quando estava ofendendo a Deus, a ti e a si mesmo.
Agora, que ele expie.”
“Eu consegui o silêncio dele até o dia depois dos Ázimos. Mas
se tu tivesses piedade do pecador e de mim, que ainda o amo, e dos filhos
inocentes...”
“Que queres que Eu te faça? Não achas que quem pecou é justo
que expie?”
“Sim, ó Senhor! Mas Tu és a Misericórdia viva!”
Toda a fé de que uma
mulher é capaz está na voz, no olhar, nos gestos da mulher, que está ajoelhada
e com os braços estendidos na direção do Salvador.
“E ele, que tem no coração?”
“O aviltamento. Que mais que queres que ele tenha, Senhor?”
“Bastaria um movimento sobrenatural de arrependimento, de
justiça, para conseguir piedade...”
“Justiça?”
“Sim. Dizer: “Eu pequei. Minha culpa merece isto e muito
mais, mas àqueles quem ofendi pelo piedade.”
“Eu já lhe dei. Tu, que és Deus, dá-lhe. Eu não posso
dizer-te: entra... Estás vendo que não toco em Ti nem eu... Mas, se quiseres,
eu o chamo e do terraço eu o faço falar.”
“Sim.”
A mulher, com a cabeça recolhida para dentro do vão da porta,
chama com voz forte: “Jacó! Sobe ao terraço. Mostra-te. Não tenhas medo.”
O homem aparece ao parapeito do terraço alguns momentos
depois. Um rosto amarelento, inchado, a garganta enfaixada, uma mão
enfaixada... a ruína de um homem corrompido... Ele olha com uns olhos cheios
d`água, olhos de um doente de doenças ignóbeis. E pergunta: “Quem quer falar
comigo?”
“Jacó, aqui está o Salvador...” A mulher não diz mais nada,
mas parece querer hipnotizar o doente, transmitindo a ele o seu pensamento...
O homem, ou porque percebe esse pensamento dela, ou porque
tenha feito um movimento espontâneo, estende os braços e diz: “Oh! Livra-me! Eu
creio em Ti! É horrível ter que morrer assim.”
“É horrível faltar com o próprio dever. Nesta tu não
pensavas? Nem nos filhos?”
“Piedade, Senhor... Deles e de mim... Perdão! Perdão!” E se
debruça sobre o pequeno muro chorando, com as mãos enfaixadas estendidas e
também o braço todo, que fica descoberto pela manga, que recua para cima,
manchado já pelas pústulas que estão quase unidas umas às outras, inchado,
repulsivo... O homem, na posição em que se colocou, parece um fantoche macabro,
um cadáver jogado ali já prestes a entrar em decomposição, causa pena e náuseas
ao mesmo tempo.
A mulher está chorando, continuando de joelhos sobre a
poeira. Jesus parece estar esperando uma palavra ainda... Finalmente essa
palavra desce, por entre soluços: “Eu gemo a Ti, na contrição do meu coração!
Dá-me pelo menos a promessa de que esses não sofrerão fome... e depois... eu
sairei daqui resignado para a expiação. E Tu salva a minha alma! Pelo menos a
alma!”
“Sim. Eu te curo. Por causa dos inocentes. Para dar-te um modo
de te mostrares justo. Compreendes? Lembra-te disto: O Salvador te curou. Deus
conforme o modo com que corresponderes a esta graça, te absolverá de tuas
culpas. Adeus. A paz esteja contigo mulher. E Jesus sai dali, quase correndo,
indo ao encontro dos que vêm vindo do Getsêmani. Nem mesmo os gritos do homem,
que sente e vê que está ficando curado, o fazem parar, nem os da mulher.
“Dobremos por este beco para não passarmos de novo por lá”,
diz Jesus depois de ter-se reunido com os outros.
Entram por um beco quase intransitável, tão estreito que,
duas pessoas, uma do lado da outra, só passam por ele com dificuldade. E se um
burro passa por ele com uma albarda, tem que comprimir-se contra as paredes
como se faz com um selo. O lugar é meio escuro porque os telhados quase que se
tocam naquela solidão, naquele silêncio e mau cheiro. Eles vão indo em fila,
como uns frades, enquanto vão atravessando o beco miserável. Depois, eles se
reúnem numa pracinha cheia de rapazotes.
“Por que disseste aquelas palavras àquele homem? Tu nunca
dizes...”, pergunta Pedro ansioso.
“Porque aquele homem vai ser um dos meus inimigos. E essa sua
culpa futura irá agravar a que já existe.”
“E Tu o curaste?, perguntam todos, estupefatos.
“Sim. Por causa dos pequeninos inocentes.”
“Hum! Vai ficar a ficar doente...”
“Não. Quanto à vida do corpo, depois do espanto e do
sofrimento que ele passou, ficará curado. Não ficará mais doente.”
“Mas ele irá pecar contra Ti, como dizes. Eu o teria feito
morrer.”
“Tu és um homem pecador, Simão de Jonas.”
“E Tu és bom demais, Jesus de Nazaré”, replica Pedro.
Entram por uma rua central, e somem, e não vejo mais nada.
OBS: Assim
que Maria Valtorta teve esta visão. Se lembrou da visão da Paixão, e faz o
seguinte comentário:
Nota minha.
Tanto o homem curado como Samuel, eu os reconheço. O primeiro
é aquele que, na Paixão fere com uma pedra a cabeça de Jesus. Mais do que ele,
eu reconheço sua mulher, agora doente como naquele tempo, e a casa que tem uma
característica porta alta, acima de três degraus. E assim, com a máscara de
ódio que o transforma, eu reconheço em Samuel o jovem que mata a mãe com um
pontapé, a fim de poder ir ferir o Mestre com um cacete. Por conta minha,
colocarei estas notas ao pé da página N... da Paixão.
(O Evangelho como me foi Revelado – Maria Valtorta, Vol 6,
pgs. 104 a 107)
OBS: A perfeição do amor está na capacidade
de amar até os inimigos. Está é uma santa verdade, porque quem tem tal amor,
está já no seio de Deus, se iguala ao amor de Deus. E Jesus é exatamente isso,
um só com Deus.

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