“Evangelho da fé”
A fé que resiste a tudo, e avança em
direção a conquista do Reino de Deus
28
de fevereiro de 1944.
Vejo
Belém pequena e branca, toda recolhida como uma ninhada, sob a luz das
estrelas. Duas ruas principais a cortam em cruz, uma que vem de fora da cidade
e é a rua mestra que depois prossegue além da cidade, e a outra, que vai de uma
à outra extremidade da cidade, mas sem ultrapassá-la. Outras vielas repartem
esta pequena cidade, sem a menor norma de um plano de ruas como nós o
concebemos, pelo contrário, adaptam-se a um solo cheio de desníveis e às casas
que surgem aqui e ali, segundo os caprichos do solo e de seus construtores. De
tal modo que possam servir de esquinas para a rua que passa ao lado, obrigando
esta a ficar como uma fita que vai se desenrolando sinuosamente, em vez de seguir
uma linha reta, que vai daqui até lá, sem desvios. De vez em quando, aparece
uma pracinha: ou é a pracinha de uma feira, ou por ali há alguma fonte ou,
então, por causa do costume de construir aqui e ali sem nenhuma regra, sobrou
um resto enviesado de terreno, sobre o qual já não é possível construir mais
nada.
No
ponto em que tive a idéia de parar um pouco, há um exemplo dessas pracinhas
irregulares. Ela deveria ser quadrada ou, pelo menos, retangular. Mas, ao
contrário, saiu um trapézio tão estranho, que ficou parecendo um triângulo
agudo, cortado perto do vértice. No lado mais longo, o da base do triângulo, há
uma construção ampla e baixa. É a maior construção da cidade. Por fora passa um
paredão liso e nu, no qual se abrem apenas dois portões que estão bem fechados.
Por dentro, ao invés, no seu largo quadrado, abrem-se muitas janelas no
primeiro plano, enquanto embaixo ficam os pórticos, que cercam os pátios cheios
de palha e de detritos espalhados pelo chão, com tanques, onde os cavalos e
outros animais são levados para beber. Nas rústicas colunas dos pórticos
existem argolas às quais ficam amarrados os animais, e há também um grande
telheiro para abrigar os rebanhos e cavalgaduras. Compreendo que aqui é o
albergue de Belém.
Sobre
os dois lados iguais há casas e casinhas, tendo algumas hortas à frente, porque
entre elas há uma que está com a fachada para a praça, e outra com os fundos da
casa para a mesma praça. Do lado mais curto, defronte ao caravançará, há uma
casinha isolada com uma pequena escada externa que, ao meio da fachada, dá
entrada para os quartos dos moradores. Os quartos estão todos fechados, porque
agora é noite. E a esta hora, não há ninguém pelas ruas.
Vejo
que a noite vai-se tornando mais clara pela luz das estrelas que descem do céu;
são tão belas no céu do Oriente, tão vivas e grandes, que até parecem estar
perto de nós, e que nos será fácil alcançá-las e tocar com a mão essas flores
que brilham no veludo do firmamento. Elevando o olhar, tento compreender qual
será a fonte deste aumento de luz. É uma estrela, de grandeza extraordinária,
que a faz parecer uma pequena lua, que vem avançando pelo céu de Belém. As
outras estrelas parecem eclipsar-se, abrindo caminho para ela, como servas
diante de sua rainha que vai passando, pois a tal ponto ela as supera em
brilho, que as faz desaparecer! Do corpo da estrela, que parece uma grande
safira clara e acesa por um sol que está no seu interior, sai uma esteira de
luz, na qual fundem-se o loiro dos topázios, o verde das esmeraldas, o leitoso
das opalas, o sanguíneo fulgor dos rubis e o suave cintilar das ametistas, com
a cor predominante da safira. Todas as pedras preciosas da terra estão naquela
esteira de luz, que vem varrendo o céu, num movimento veloz e ondulante, como
se fosse viva. Mas a cor que predomina é a que desce do corpo da estrela: uma
cor celeste de safira clara, que tinge de prata azulada as casas, as ruas e o
chão de Belém, berço do Salvador. Já não é mais a pobre cidade, que para nós
era menos importante do que um povoado rural. Agora, é uma fantástica cidade
dos contos de fada, na qual tudo é de prata. Até a água das fontes e dos
tanques parece de diamante líquido.
Emitindo
um fluxo de luz mais vivo, a estrela paira sobre a pequena casa, que está do
lado mais curto da pracinha. Nem os moradores da casa, nem os habitantes de
Belém a veem, porque estão dormindo, e suas casas estão fechadas; mas a estrela
acelera as suas palpitações de luz, faz vibrar sua cauda, e solta ondulações
luminosas mais fortes, traçando pequenos semicírculos no céu, que se ilumina
todo com esta rede de astros que ela arrasta consigo, numa rede de pedras
preciosas que esplendem, tingindo nas mais indistintas cores as outras
estrelas, como para comunicar-lhes uma palavra de alegria.
A
casinha está toda iluminada por este fogo líquido de gemas. O teto do pequeno
terraço, a escadinha de pedra escura, a pequena porta, tudo virou um bloco de
pura prata, polvilhado com pó de diamantes e pérolas. Nenhum palácio real da
terra jamais teve, ou terá, uma escada como esta, feita para receber a passagem
dos anjos, feita para ser usada pela Mãe, que é Mãe de Deus. Seus pequenos pés
de Virgem Imaculada podem pousar sobre aquele cândido esplendor, os seus
pequenos pés destinados a pousar sobre os degraus do trono de Deus. Mas a
Virgem ainda não está sabendo de nada. Ela está velando sobre o berço de seu
Filho, rezando. Sua alma tem esplendores que superam a estrela que está
embelezando as coisas.
Da
rua mestra, vem chegando uma cavalgada. Cavalos arreados ou conduzidos a mão,
dromedários e camelos, montados ou carregados com suas cargas. O barulho dos
cascos faz um rumor como o da água, quando cai sobre as pedras de um riacho.
Reunidos na praça, todos param. A cavalgada, vista sob a luz da estrela, é
fantástica em seu esplendor. Os ornamentos de primeira classe sobre as
cavalgaduras, as vestes dos cavaleiros, o seu aspecto, as bagagens, tudo está
brilhando, unindo e reavivando, o esplendor do metal, do couro, da seda, das
pedras preciosas, dos pelos, ao brilho da estrela. Os olhos também cintilam, as
bocas se enchem de riso, porque um outro esplendor brilhou nos corações: o
esplendor de uma alegria sobrenatural.
Enquanto
os servos se põem a caminho do caravançará com os animais, três da caravana
desmontam de suas cavalgaduras, que um servo logo leva para outro lugar,
dirigindo-se a pé para a casa. Prostram-se com a fronte até o chão, beijando o
pó. São três poderosos.
Isto
é o que nos estão dizendo as suas vestes, riquíssimas. Um, de pele muito
escura, tendo apeado de um camelo, envolve-se todo num manto de seda brilhante,
ajustado à cinta por um aro precioso do qual pendem um punhal ou uma espada,
tendo esta o punho cravejado de pedras preciosas. Os outros, que apearam de
dois esplêndidos cavalos, estão vestidos, um de um tecido listrado muito
bonito, no qual predomina a cor amarela, com uma veste feita como um longo
dominó, ornado com capuz e cordão, parecendo um só trabalho de filigrana de
ouro, com muitos pespontos de bordados em ouro. O terceiro traz uma espécie de
camisa de seda, calças largas e longas, que se estreitam perto dos pés e se
envolve com um xale muito fino,
que
mais parece um jardim florido, de tão vivas que são as flores com que está todo
decorado. Na cabeça traz um turbante preso por uma correntinha feita de
engastes, com diamantes.
Depois
de terem venerado a casa onde está o Salvador, eles se levantam, e vão até o
caravançará, onde os servos já bateram à porta, fazendo-a abrir.
Aqui
cessa a visão, o que recomeça, três horas depois, com a cena da adoração de
Jesus pelos Magos.
Agora,
já é dia. Um belo sol resplende no céu da tarde. Um dos três servos atravessa a
praça e sobe a escadinha da pequena casa. Depois, entra. Torna a sair. Volta ao
albergue.
Saem
os três sábios, acompanhados cada um pelo próprio servo. Atravessam a praça. Os
raros transeuntes viram-se para olhar os pomposos personagens que passam pela
praça lentamente e com solenidade. Entre a entrada do servo e aquela dos três,
passou-se um bom quarto de hora, e esse tempo serviu aos moradores da casinha
para se prepararem a receber os hóspedes.
Eles
se mostram agora mais ricamente vestidos do que na tarde anterior. As sedas
resplendem, as gemas brilham, um grande penacho de penas preciosas entremeadas
com fragmentos ainda mais preciosos, tremula e cintila sobre a cabeça daquele
que está com o
turbante.
Os
servos vão levando, um deles um cofre todo marchetado, cujas partes mais
reforçadas são de ouro burilado; o segundo leva um cálice muito bem trabalhado,
coberto com uma tampa ainda mais artística, toda de ouro; o terceiro leva uma
espécie de ânfora larga e baixa, também de ouro, tampada com uma peça em forma
de pirâmide, com um brilhante no vértice. Devem ser coisas pesadas, porque os
servos que as transportam estão fazendo muita força, especialmente o que
transporta o cofre.
Os
três sobem a escada e entram. Entram em um quarto, que se estende da rua até os
fundos da casa. Vê-se a pequena horta na parte posterior da casa, por uma
pequena janela aberta ao sol. Outras portas se abrem nas duas outras paredes, e
olhando de soslaio, lá estão os proprietários: um homem e uma mulher, três ou
quatro adolescentes e crianças.
Maria
está sentada com o Menino no colo, perto dela, em pé, está José. Mas ela também
se levanta e se inclina, quando vê entrar os três Magos. Maria está toda
vestida de branco. Tão bonita na sua simples veste cândida, que a cobre da base
do pescoço até aos pés, dos ombros aos delicados pulsos, tão bonita em sua
cabeça pequena e coroada de tranças loiras, no rosto que a emoção faz ficar
vivamente rosado, nos olhos que sorriem com doçura, na boca que se abre para a
saudação, dizendo: “Deus esteja convosco”, que, por um instante, os três se
detêm, impressionados. Depois, eles dão mais alguns passos para a frente, indo
prostrarem-se aos seus pés. Pedem a ela que se assente.
Eles,
por sua vez, não se sentam, por mais que ela lhes peça. Ficam de joelhos,
apoiados sobre os calcanhares. Atrás deles, também de joelhos, estão os três
servos. Estes estão logo atrás da soleira. Eles puseram diante de si os três
objetos que levaram, e estão esperando.
Os
três sábios contemplam o Menino, que me parece ter de nove meses a um ano, de
tão esperto e robusto que está! Ele está sentado no colo da mamãe, sorri e
balbucia com uma vozinha de passarinho. Ele também está todo vestido de branco,
como a mamãe, com sandalinhas nos pés minúsculos. Sua veste é muito simples:
uma pequena túnica, da qual saem os pezinhos irrequietos, as mãozinhas
gorduchas que gostariam de apanhar tudo o que os olhos veem, e, sobretudo seu
rostinho muito bonito, no qual brilham os olhos de um azul escuro, enquanto a
boca faz umas covinhas aos lados, quando ele ri, descobrindo os primeiros
dentinhos pequenos. Os caracoizinhos de seus loiros cabelos parecem ouro puro
em pó, de tão leves e brilhantes que são.
O
mais velho dos sábios fala por todos. Explica a Maria que eles viram, numa
noite no mês de dezembro passado, acender-se uma nova estrela no céu com
esplendor fora do comum. Nunca os mapas do céu tinham trazido aquele astro, nem
falado nele. O seu nome não era conhecido, porque não tinha nome. Tendo, então,
nascido do seio de Deus, aquela estrela teria aparecido para vir dizer aos
homens alguma verdade bendita, algum segredo de Deus. Mas os homens não lhe
haviam dado importância, estando eles com a alma presa na lama. Não eram
capazes de levantar o olhar para Deus, não sabendo ler as palavras escritas por
Ele, Eterno Bendito, com seus astros de fogo na abóbada dos céus.
Eles
a tinham visto, e se esforçaram para escutar sua voz. Deixando, pois, de lado,
mas com alegria, o pouco descanso do sono que concediam aos seus membros,
esquecendo-se até de comer, eles se haviam aprofundado no estudo do zodíaco. As
conjugações dos astros, o tempo, a estação, o cálculo das horas passadas e das
combinações astronômicas lhes haviam dito o nome e o segredo da estrela. O seu
nome: “Messias”. E o seu segredo: “O Messias veio ao mundo”. Então, partiram
para adorá-lo. Cada um deles, sem os outros dois saberem. Por montes e
desertos, vales e rios, viajando de noite, foram tomando o rumo da Palestina,
porque este era o rumo da estrela. Para cada um deles, vindo de três pontos
diferentes da terra, ela ia naquele rumo. Eles se tinham encontrado depois,
além do Mar Morto. A vontade de Deus os tinha reunido lá, e continuaram a
viagem, juntos, se entendiam, ainda que cada um falasse a sua própria língua,
entendendo e podendo falar a língua de cada região em que se achassem, por um
milagre do Eterno.
Juntos
tinham ido a Jerusalém, porque o Messias devia ser o Rei de Jerusalém. O Rei
dos judeus. Mas lá a estrela se tinha escondido, sob o céu daquela cidade, e
eles sentiram seus corações partirem-se de dor, começando então a examinar suas
consciências, para descobrirem se não teriam deixado de merecer a proteção de
Deus. Mas, tranquilizadas suas consciências, haviam se dirigido ao rei Herodes,
perguntando-lhe em que palácio havia nascido o Rei dos judeus, pois eles o
tinham vindo adorar. O rei, tendo reunido os príncipes dos sacerdotes e os
escribas, lhes perguntou onde se esperava que nascesse o Messias. Eles lhe
responderam: “Em Belém de Judá”.
Tomaram,
pois, os Magos, o rumo de Belém, e a estrela tornou a aparecer aos seus olhos. Quando
deixaram a Cidade Santa, na tarde anterior, a estrela tinha aumentado seus
esplendores, e o céu parecia um incêndio. Depois, a estrela parou, reunindo
toda a luz das outras estrelas com a sua luz, sobre esta casa. Então, eles
compreenderam que ali estava o Filho de Deus. E agora o estavam adorando,
oferecendo-lhe os seus pobres presentes e, mais do que tudo, oferecendo-lhe os
seus corações, que nunca mais cessariam de bendizer a Deus pela graça
concedida, nem de amar o seu Filho, cuja Humanidade eles estavam vendo. Depois,
iriam, na volta, informar ao rei Herodes, porque ele também queria adorar o
Menino.
“Aqui tens o ouro, como convém a um rei;
aqui tens o incenso, como convém a Deus; e aqui tens, ó Mãe, a mirra, pois o
teu Filho é Homem, além de Deus, e da carne e da vida humana conhecerá a
amargura e a lei inevitável da morte. Nosso amor não queria dizer-lhe estas
palavras, mas ficar sempre pensando que Ele é Eterno, até em sua carne, como
eterno é o seu Espírito. Mas, ó mulher, se os nossos mapas, e também as nossas
almas, não erram, Ele é o teu Filho, é o Salvador, o Cristo de Deus, e por isso
deverá, para salvar a terra, tomar para Si o seu mal, um dos quais é o castigo
da morte. Esta resina é para aquela hora. Para que os corpos que são santos não
conheçam a putrefação da corrupção, e conservem sua integridade até o dia da
ressurreição. Que por estes nossos presentes Ele se lembre de nós e salve a
estes seus servos, dando-lhes o seu Reino. Por enquanto, para que sejamos
santificados, que a Mãe conceda o seu Pequenino ao nosso amor, para que,
beijando os seus pés, desça sobre nós a bênção celestial.
Maria,
passada a angústia em que as palavras do sábio a haviam mergulhado, esconde,
com um sorriso, a tristeza daquelas fúnebres evocações, e lhes apresenta o
Menino. Coloca-O nos braços do mais velho, que o beija e é por ele acariciado,
e depois o passa para os outros dois.
Jesus
sorri, e brinca com as correntinhas e as franjas dos três e olha com
curiosidade o cofre aberto, cheio de uma coisa amarela que brilha, e ri, ao ver
que o sol faz uma espécie de arco-íris, ao bater sobre a brilhante tampa da
mirra.
Depois,
os três entregam a Maria o Menino, e se levantam. Maria também se levanta.
Inclinam-se reciprocamente, depois que o mais novo da ordens ao seu servo, que
sai. Os três falam ainda um pouco. Não conseguem decidir-se a se afastarem
daquela casa. Em seus olhos há lágrimas de emoção. Por fim, eles se dirigem à
saída, acompanhados por Maria e José.
O
Menino quis descer e dar a mãozinha ao mais velho dos três, e caminha assim,
ajudado pela mão de Maria e do sábio, que se inclinaram para pegá-lo pela mão.
Jesus dá um passinho ainda incerto como fazem os pequeninos e ri, batendo os
pezinhos sobre os riscos que a luz do sol faz sobre o pavimento.
Chegando
à soleira (não se deve esquecer que o salão tinha o mesmo comprimento da casa)
os três se despedem, ajoelhando-se mais uma vez e beijando os pezinhos de
Jesus. Maria, inclinada sobre o Pequenino, toma-lhe a mãozinha, e a vai
guiando, fazendo-o traçar um gesto de bênção sobre a cabeça de cada um dos
Magos. É já um sinal da cruz, traçado pelos dedinhos de Jesus, guiados por
Maria.
Depois,
os três descem a escada. A caravana já pronta os está esperando. Os cavalos já
estão arreados e seus arreios ornados brilham aos últimos raios do sol, que
está para se pôr. O povo se aglomerou na pracinha para presenciar aquele
espetáculo único.
Jesus
ri e bate as mãozinhas. A Mamãe o ergueu e colocou sobre o parapeito, que
limita o patamar, segurando-o com um dos braços para que não caia. José desceu
com os três e segura para cada um deles o estribo, enquanto eles sobem em seus
cavalos e no camelo.
Agora
os servos e os patrões estão montados. É dada a ordem de partir. Os três se
inclinam até o pescoço da cavalgadura, em uma última saudação. José também se
inclina. Maria também o faz, e torna a guiar a mãozinha de Jesus, em um gesto
de adeus e de bênção.
Jesus
diz:
“E
agora? Que vos direi, ó almas, que percebeis que a fé está morrendo? Aqueles
sábios do Oriente nada tinham que lhes desse a certeza da verdade. Nada tinham
de sobrenatural. Tinham apenas os cálculos astronômicos e as suas reflexões,
que a vida íntegra, que eles levaram, tornava perfeitas. Contudo, tiveram fé.
Fé em tudo: fé na ciência, fé na consciência, fé na bondade divina.
Pela
ciência, acreditaram no sinal da nova estrela, que não podia deixar de ser
“aquela”, que era esperada, havia séculos, pela humanidade: o Messias. Pela
consciência, tiveram fé na voz da mesma que, recebendo “vozes” celestes, lhes
dizia: “É aquela estrela que assinala a chegada do Messias”. Pela bondade,
tiveram fé que Deus não os teria enganado e, visto que a sua intenção era reta,
Ele os teria ajudado, de todos os modos, a chegar até à meta desejada.
E
eles tiveram êxito. Só eles, entre tantos estudiosos de sinais, compreenderam
aquele sinal, porque só eles tinham na alma a ânsia de conhecer as palavras de
Deus com um fim reto, que consistia antes de tudo em dar imediata honra e
louvor a Deus.
Não
procuravam sua própria utilidade. Ao contrário, eles vão de encontro a fadigas
e despesas, e não pedem nenhuma compensação humana. Pedem somente que o seu
Deus se lembre deles e os salve para a eternidade.
Assim
como não têm nenhum pensamento de futura compensação humana, não têm, quando
decidem a viagem, nenhuma preocupação humana. Se fôsseis vós, teríeis pensado
em mil dificuldades: “Como poderei fazer uma viagem tão grande, através de
países e povos de línguas tão diferentes? Será que vão acreditar em mim ou irão
prender-me como espião? Que ajuda me darão, quando tiver que atravessar
desertos, rios e montanhas? E o calor? E os ventos dos planaltos? E as febres
dos pantanais? E as cheias das águas fluviais? E as comidas diferentes? E a
linguagem diferente? E... e... e...”. Assim é que raciocinais. Eles não
raciocinam assim. Mas dizem, com uma sincera e santa ousadia: “Tu, ó Deus, lês
os nossos corações, e vês qual o fim que perseguimos. Em tuas mãos nos
entregamos. Concede-nos a alegria sobre humana de adorar a tua Segunda Pessoa,
que se fez Carne para a salvação do mundo”.
Basta.
Eles se põem a caminho, partindo das longínquas Índias. (Jesus me diz depois que
por Índias querem dizer Ásia meridional, onde agora está a Turquia, o
Afeganistão e a Pérsia). Das cadeias de montanhas da Mongólia, sobre as quais
voam somente águias e abutres, onde Deus fala pelo zumbido dos ventos, pelo
estrondo das torrentes, escrevendo mistério sobre as páginas imensas das
geleiras. Das terras onde nasce o Nilo, que vai deslizando como uma veia
verde-azul, ao encontro do coração azul do Mediterrâneo, nem os picos, nem as
selvas, nem os desertos, oceanos secos mais perigosos do que os marinhos, nada
disso detêm a marcha deles. A estrela brilha sobre a noite deles, não lhes
permitindo dormir. Quando se procura a Deus, os hábitos animais devem ceder às
impaciências e às necessidades sobre humanas.
A
estrela os chama, ora do Norte, ora do Oriente, ora do Sul, e, por um milagre
de Deus, vai guiando os três para um certo ponto, como por um outro milagre, os
reúne, depois de tantos milhares de quilômetros, naquele ponto, e, por um outro
milagre ainda, lhes dá, antecipando a sabedoria pentecostal, o dom de se
entenderem e de se fazerem entender, assim como é no Paraíso, onde se fala uma
única língua: a de Deus.
Um
único momento de aflição os assalta, e é quando a estrela desaparece, e eles,
humildes, porque são realmente grandes, não pensam que isto tenha acontecido
por causa da maldade de outrem, já que os corruptos de Jerusalém não mereceram
ver a estrela de Deus. Mas, o que eles pensam é que eles próprios não mereçam a
ajuda de Deus, pondo-se a examinarem suas consciências com tremor e com uma
contrição, pronta a pedir perdão.
Mas
a sua consciência os tranquiliza. Almas acostumadas à meditação, eles têm uma
consciência muito sensível, aperfeiçoada por uma atenção constante, por uma
introspecção aguda, que faz do seu interior um verdadeiro espelho sobre o qual
refletem as menores sombras dos acontecimentos diários. Eles fizeram da voz que
os adverte a própria mestra, voz que grita, não só ao menor erro, mas até a uma
simples possibilidade de erro, o que é humano, como a complacência com o seu próprio
eu. Por isso, quando eles se põem diante desta Mestra, diante deste Espelho tão
severo e tão nítido, sabem que Ele não lhes mente, mas os encoraja, tomando
novo alento.
“Ohl
Que doce coisa é sentir que nada há em nós de contrário a Deus! Sentir que Ele
olha com complacência o ânimo do filho fiel e o abençoa. Deste sentimento provém
o aumento de fé e de confiança, de esperança, fortaleza e paciência. Agora é
hora de tempestade. Mas ela passará, porque Deus me ama e sabe que eu o amo, e
não deixará de ajudar-me ainda”. Assim é que falam os que têm aquela paz, que
provém de uma consciência reta, que é a rainha de todas as suas ações.
“Eu
disse que eles eram “humildes, porque verdadeiramente grandes”. Em vossa vida,
ao invés, que é que acontece? Acontece que um, não porque seja grande, mas
porque é mais prepotente, se faz poderoso por sua prepotência, nunca humilde,
pela vossa insensata idolatria,. Há pobres coitados que, só por serem mordomos
de alguém arrogante, ou porteiros de algum gabinete, funcionários de alguma
repartição, servos afinal, de quem assim os fez, costumam tomar a pose de
semideuses. Tem-se pena até de vê-losl...
Eles,
os três sábios, eram realmente grandes. Em primeiro lugar, por virtude
sobrenatural; em segundo lugar, pela ciência; e, por último, pela riqueza. Mas
eles se julgam nada: pó sobre o pó da terra, se comparados com Deus Altíssimo,
que cria os mundos com um sorriso, espalhando-os pelo espaço, como grãos de
trigo, para alegrar os olhos dos anjos com os colares de estrelas.
Mas
eles se consideram nada, diante de Deus Altíssimo, que criou o planeta, sobre o
qual eles vivem, e como Escultor infinito em sua ilimitada obra fez tudo bem
diversificado, colocando, aqui uma série de colinas de suave declive, com a
força do seu polegar, acolá uma ossatura de picos e escarpas, iguais as
vértebras da terra, neste corpo desmesurado, do qual os rios são as veias, os
lagos são as pelves, os oceanos são os corações, tendo as florestas como vestes,
as nuvens como véus, as geleiras de cristal como decorações, as turquesas e as
esmeraldas como gemas, as opalas e os berilos de todas as águas que descem
cantando, com as selvas e os ventos, formando o grande coro de louvor ao seu
Senhor.
Eles
se consideram nada em sua sabedoria, diante do Deus Altíssimo, do qual vem a
sua sabedoria, pois foi Ele quem lhes deu olhos, ainda mais poderosos que suas
duas pupilas, pelas quais eles veem as coisas: os olhos da alma, que sabem ler
a palavra não escrita por mão humana nas coisas, onde esta palavra foi gravada
pelo pensamento de Deus.
Eles
se consideram nada em sua riqueza: um átomo, diante da riqueza do Dono do
universo, que espalha metais e pedras preciosas nos astros e planetas, e
abundâncias sobrenaturais, riquezas inesgotáveis, no coração de quem O ama.
“Tendo
eles chegado diante de uma pobre casa, na mais insignificante das cidades de
Judá, não sacodem a cabeça dizendo: “Impossível”, mas dobram as costas, os
joelhos, e especialmente o coração, e adoram. Lá, atrás daquela pobre parede,
está Deus. Aquele Deus que eles sempre invocaram, não ousando nunca, nem de
longe, esperar que o haveriam de ver. Mas que por eles foi invocado pelo bem de
toda a humanidade e pelo bem eterno “deles” mesmos. Oh! Só isto é o que eles
desejavam para si. Poderem vê-lo, conhecê-lo, possuí-lo naquela vida que não
tem nem auroras, nem crepúsculos!
Ele
está lá, atrás daquela pobre parede. Quem sabe se o seu coração de Menino, que
é também o coração de um Deus, não ouça estes três corações que, inclinados no
pó da estrada, bradam: “Santo, Santo, Santo. Bendito o Senhor nosso Deus.
Glória a Ele nos Céus Altíssimos, e paz aos seus servos. Glória, glória, glória
e bênção”? lsto eles perguntam, tremendo de amor. Por toda a noite, e na manhã
seguinte preparam com a mais viva oração, o seu espírito, para entrarem em
comunhão com o Deus-Menino.
Eles
não vão a este altar, que é um seio virginal, que traz em si a Hóstia Divina,
como vós ides a eles com a alma cheia de solicitudes humanas. Eles se esquecem
do sono e do alimento e se usam suas mais belas vestes, não é para ostentação
humana, mas para prestar honra ao Rei dos reis. Nos palácios dos soberanos, os
dignitários se apresentam com suas mais belas vestes. Então, não deveriam eles
ir apresentar-se a este Rei com suas vestes de gala? Que festa maior podia
haver para eles do que esta?
Oh!
Lá em suas terras longínquas, muitas e muitas vezes precisaram se adornar para
prestar honras e oferecer seus préstimos a homens como eles. Era, pois, justo
que se humilhassem aos pés do Rei supremo e lá depositassem as suas púrpuras e
joias, sedas e plumas preciosas. Pôr lhe aos pés, diante daqueles benditos
pezinhos, as fibras da terra, as gemas da terra, as plumas da terra, os metais
da terra - que são ainda obras Dele - para que também elas, essas coisas da
terra, adorem o seu Criador. Seriam felizes se a Criancinha lhes ordenasse que
se estendessem no chão, como se fossem um tapete vivo, aos seus passinhos de
Menino, e os pisasse, Ele que deixou as estrelas por amor deles, que nada mais
são do que pó.
Humildes
e generosos. Obedientes às “vozes” do Alto. Essas vozes mandam que eles levem
presentes ao Rei recém-nascido. Eles levam presentes. Não dizem: “Ele é rico, e
não precisa disso. Ele é Deus, e não conhecerá a morte”. Eles obedecem. São os
primeiros que acodem à pobreza do Salvador. Como chegou em boa hora aquele
ouro, para quem amanhã deveria sair de sua terra como fugitivo! Como foi
significativa aquela mirra, para quem, dentro em breve, seria morto. Como foi
piedoso aquele incenso, para quem teria que sentir o mau cheiro da luxúria
humana fervendo ao redor de sua infinita pureza! Humildes, generosos, obedientes
e respeitosos um para com o outro. As virtudes geram outras virtudes. Das
virtudes voltadas para Deus, nascem virtudes para o próximo. Respeito que, no
fim, é caridade. Combinaram com o mais velho que lhe tocaria falar por todos,
recebendo o primeiro beijo do Salvador, segurando-o pela mãozinha. Os outros
ainda poderão vê-lo outras vezes. Mas ele, não. Ele está velho, e o dia de sua
volta para Deus está perto. Ele verá o Cristo, depois de sua terrível morte, e
o acompanhará junto com os outros que serão salvos, no dia da volta do Cristo
para o Céu. Mas não o verá mais nesta terra. Então, para seu viático, que lhe
fique o calor daquela mãozinha, que se confiou à sua mão enrugada.
Não
há nenhuma inveja nos outros. Pelo contrário, há até um aumento de veneração
para com o mais velho dos sábios. Mais do que eles, mereceu na certa, e por
mais tempo. O Deus-Menino sabe disso. Ainda não fala, Ele que é a Palavra do
Pai, mas os Seus atos são palavras. E seja bendita a sua inocente palavra, que
mostra ser o seu predileto este velho.
Mas,
ó filhos, há outros dois ensinamentos nesta visão. A postura de José, que sabe
ficar em “seu” lugar. Ele está presente como guarda e tutor da Pureza e da
Santidade. Mas não é um usurpador dos direitos delas. É Maria, com o seu Jesus,
que está recebendo homenagens e palavras. José se alegra por ela, não ficando
amargurado por ser uma figura secundária. José é um justo: o Justo. É justo
sempre, também nesta hora. As fumaças da festa não lhe sobem à cabeça. Ele
continua humilde e justo.
Ele
se sente feliz pelos presentes. Não por si mesmo. Mas porque pensa que com eles
poderá fazer a vida de sua esposa e do doce Menino mais cômoda. Não existe
avidez em José. Ele é um trabalhador, e continuará a trabalhar. Contanto que
“Eles”, os seus dois amores, tenham o necessário, e algum conforto. Nem ele nem
os magos sabem que aqueles presentes vão servir durante uma fuga e uma vida no
exílio, nas quais as substâncias desaparecem como uma nuvem impelida pelo
vento... mas eles vão servir também para quando voltarem à pátria, depois de
terem perdido tudo o que tinham deixado, os clientes, os móveis, salvando-se
somente as paredes da casa protegida por Deus, porque nela é que Ele se uniu à
virgem e se fez Carne.
José
é humilde, ele, que é guarda de Deus e da mãe de Deus, esposa do Altíssimo,
chega até a segurar o estribo para estes vassalos de Deus. José é um pobre
carpinteiro, porque a prepotência humana despojou os herdeiros de Davi de suas
propriedades reais. Mas ele é sempre da estirpe de Davi e tem traços de rei.
Também em relação à ele vale aquele dito: “Era humilde, porque era realmente
grande”.
Ainda
um último, suave e significativo ensinamento.
É
Maria, que segura a mão de Jesus, que ainda não sabe abençoar, e a guia no
gesto santo. É sempre Maria que segura a mão de Jesus e a guia. Ainda hoje é
assim. Agora, Jesus sabe abençoar. Mas, às vezes, sua mão traspassada cai,
cansada e sem poder mais confiar, pois Ele sabe que é inútil abençoar. Na
verdade, vós destruís a minha bênção. Ela cai também indignada porque vós me
maldizeis. Então, é Maria que tira o desprezo feito a esta mão, ao beija-la.
Oh! O beijo de minha mãe! Quem pode resistir a esse beijo? Depois, ela segura o
meu pulso, com seus dedos delicados, mas que são amorosamente tão imperiosos e
me força a abençoar.
Eu
não posso repelir a minha mãe. Mas é preciso que vós vades à procura dela, para
fazê-la vossa advogada. Ela é minha rainha, antes de ser vossa, e o seu amor
por vós tem indulgências tais, que nem o meu conhece. Ela, mesmo sem palavras,
mas só com as pérolas do seu pranto e com a lembrança da minha Cruz, cujo sinal
ela me faz traçar no ar, defende a vossa causa, e ainda me admoesta: “Tu és o
Salvador. Salva!”.
“Eis,
Meus filhos, o “Evangelho da fé”, na aparição da cena dos Magos. Meditai e
imitai. Para o vosso bem”.
(Excertos do Primeiro Livro: O Evangelho como me foi
revelado, onde Nosso Senhor e
Maria Santíssima revelam Suas Vidas a Grande Mística Maria Valtorta, das paginas 199 a
212.)


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