PARÁBOLA DA SABEDORIA.
Maria
Valtorta viu e ouviu o que se segue por um milagre de Deus.
Ouvi todos.
Porque o que serve para os pequenos, serve também para os homens.
Um dia um homem ouviu dizer
que estava sendo chamado por um grande rei, o qual lhe disse: “Fiquei sabendo
que tu és merecedor, porque és sábio e honras a tua cidade com o seu trabalho,
e tua ciência. Pois bem. Eu não te darei isto ou aquilo, mas te levarei até o
salão de muitos tesouros, e tu escolherás o que quiseres, e eu to darei. Desse
modo eu também poderei julgar se tu és o que tua fama me diz de ti.”
E, ao mesmo tempo, o rei
encostado ao terraço que estava ao redor do seu átrio, lançou um olhar sobre a
praça que ficava diante do palácio real, e viu passar um meninozinho vestido
com vestes muito pobres, certamente de alguma família muito pobre, talvez até
órfão e mendigo. O rei virou-se para os seus servos e disse: “ Ide aquele
menino e trazei-me aqui.”
E os servos foram, e voltaram com
o menino, que tremia de medo ao ser levado á presença do rei. Por mais que os
dignitários da corte lhe dissessem: “ Inclina-te, e saúda ao rei, dizendo:
“Honra e glória a ti meu rei. Eu dobro o joelho diante de ti. Ó poderoso, que a
terra exalta como um ser, que maior não pode haver.””, e o menino não queria
inclinar-se, nem dizer aquelas palavras e os dignitários, contrariados, o
sacudiram com violência e diziam: “Ó rei este menino é idiota e sujo, e é uma
vergonha em tua morada. Deixa que nós o tiremos daqui, e o levemos para o meio
da rua. Se desejas muito ter ao teu lado um menino, nós iremos procurá-lo entre
os ricos da cidade se já estiveres cansado com os nossos, e o encontraremos
para ti. Mas não este bobo, que não sabe nem saudar!”
O homem rico e sábio que antes
se havia humilhado em muitas inclinações servis e profundas, como se estivesse
diante do altar, disse: “ Os teus dignitários falaram bem. Pela majestade de
tua casa deves impedir que deixe de ser prestada á tua sagrada pessoa a
homenagem que se deve prestar”, e, ao dizer estas palavras, ainda prostrou-se
para beijar o pé do rei.
Mas o rei disse: “ Não. Eu
quero este menino. E não só isso. Mas quero conduzi-lo, a ele mesmo, até o
salão dos meus tesouros, para que ele escolha o que quiser, e eu lho darei.
Porque não me será concedido, sendo eu o rei, que eu faça feliz uma pobre
criança? Por acaso não é ele meu súbdito, como todos vós? Por acaso tem ele
culpa de ser um infeliz? Não, viva Deus, que eu quero fazê-lo contente pelo
menos uma vez! Vem cá, menino, e não fiques com medo de mim”, e lhe estendeu a
mão, que o menino segurou com simplicidade, dando nela espontaneamente um
beijo. O rei sorriu. E, pelo meio de duas filas de dignitários inclinados em
homenagem ao rei, indo por sobre tapetes de púrpura e flores de ouro, ele se
dirigiu para o salão dos tesouros, tendo á direita o homem rico e sábio, e á
esquerda, o menino ignorante e pobre. E o manto do rei fazia um grande
contraste com a roupinha esfarrapada e os pezinhos descalços do pobre menino.
Entraram Np salão dos
tesouros, do qual dois grandes da Corte haviam aberto a porta. Era um salão
alto, redondo, sem janelas. Mas a luz entrava pelo teto, que era uma grande
placa de mica. Havia lã dentro de uma luz mansa, mas que fazia brilhar as brochas
de ouro dos cofres e as fitas purpurinas de muitos rótulos colocados sobre
altos e adornados facistóis. Rótulos pomposos e de lombadas preciosas, portando
um fecho e um sinal ornado com pedras reluzentes. Obras raras que somente um
rei podia possuir. E abandonado sobre um facistol mais simples, escuro e baixo,
estava um pequeno rolo, todo enrolado em um pauzinho branco, amarrado com um
fio rústico, coberto de poeira, como coisa sem valor.
O rei disse, mostrando as
paredes: “Eis: aí estão todos os tesouros da terra e outros maiores ainda do
que os tesouros terrestres. Porque estão todas as obras filhas do engenho
humano, e há ainda obras que são de fontes sobre-humanas. Ide, e apanhai o que
quiserdes.” E foi colocar-se no centro do salão. Com os braços cruzados,
observando.
O homem rico e sábio,
dirigiu-se logo aos cofres, levantou as tampas deles, com uma ânsia cada vez
mais febril, ouro em barras e em jóias, prata, pérolas, safiras, rubis,
esmeraldas, opalas... O reluzir de todos os cofres, os gritos de admiração a
cada um deles que era aberto... E depois dirigiu-se aos facistóis e, ao ler os
títulos dos rótulos, novos grifos de admiração saiam de seus lábios, e, enfim,
o homem, cheio de entusiasmo, virou-se para o rei e disse: “ Mas tu tens um
tesouro incomparável, e as pedras igualam-se aos rótulos em valor, e os rótulos
a elas. E posso eu escolher livremente?”
Eu já o disse. Como se tudo te
pertencesse.
O homem se jogou com o rosto
por terra dizendo: “ Eu te adoro, ó grande rei!” E levantou-se correndo
primeiro para os cofres, depois para os facistóis, apanhando destes e daqueles
o melhor que ele via.
O rei, que havia sorrido uma
primeira vez por entre a barba, ao ver a febre com que o homem corria de um
cofre ao outro, e na segunda vez, ao vê-lo jogar-se no chão para adorar, e que
agora sorria pela terceira vez, vendo com que cupidez e com critério e
preferência o homem escolhia as gemas e os livros, virou-se para o menino, que
havia ficado a seu lado, e lhe disse: “E tu, não vais escolher belas pedras, ou
rótulos de valor?
O menino balançou a cabeça,
para dizer que não.
E por quê?
Porque quanto os rótulos, não
os sei ler. E, quanto ás pedras, não conheço o valor delas. Para mim elas são
imas pedrinhas, e nada mais.
Mas tu ficaria rico.
Não tenho pai, nem mãe, nem
irmão. Para que me serviria ir para o meu refúgio com um tesouro no seio?
Mas poderias com ele comprar
uma casa.
Eu moraria sempre sozinho.
Comprarias roupas.
Ficaria sempre com frio, pois
falta o amor dos pais.
Comprarias alimentos.
Eu não poderia saciar-me com
os beijos de minha mãe, nem comprá-los por preço nenhum.
Podias pagar a mestres e
aprender a ler.
Isto é o que mais me
agradaria. Mas, ler o que depois?
As obras dos poetas, dos
filósofos, dos sábios, e as palavras antigas, as histórias dos povos. Coisas
inúteis, vazias e passadas. Não vale a pena.
Que menino tolo!, exclamou o
homem, que já estava com os braços carregados de rótulos, com a cintura e a
túnica sobre o peito cheias de pedras preciosas.
O rei continuava a rir por
entre sua barba. E, pegando o menino pelo braço, levou-o aos cofres e,
mergulhando a mão pelo meio das pérolas, dos rubis, dos topázios e das
ametistas, e fazendo-as cair como uma chuva reluzente, tentou fazer que o
menino pegasse alguma delas.
Não ó rei, não quero disso. Eu
gostaria de uma outra coisa.
O rei o levou aos facistóis e
leu estrofes de poetas, episódios de heróis, descrições de lugares.
Oh! Ler é mais bonito. Mas não
é isso que eu queria.
E que é afinal? Fala e eu te
darei menino.
Oh! Não creio. Ó rei que tu o
possas fazer, mesmo com todo o teu poder. Não é coisa daqui de baixo.
Ah! Queres obras que não sejam
da terra! Então, aqui estão as obras ditadas por Deus aos seus servos. Escuta,
e lhe leu algumas páginas inspiradas.
Isto é muito mais bonito. Mas para
compreendê-lo, bem é necessário saber a linguagem de Deus. Não existe algum
livro que ensine isso, que nos faça compreender quem é Deus?
O rei fez um gesto de espanto,
e não se riu mais, mas apertou contra o seu coração o menino.
O homem, ao contrário, se riu,
zombeteiro, dizendo: “ Nem os mais sábios sabem o que é Deus, e tu, menino
ignorante queres sabê-lo? Se quiseres tornar-te rico com isso!...
O rei olhou muito sério para
ele, e o menino respondeu-lhe: “ Eu não ando atrás de riquezas, o que eu procuro
é amor, e um dia me disseram que Deus é Amor.
O rei o levou para perto do
facistol simples, onde estava o pequeno rótulo atado com uma cordinha e coberto
de poeira. Ele o apanhou, o desenrolou e leu nas primeiras linhas: “ Quem é
pequeno, venha a Mim, e Eu, Deus lhe ensinarei a ciência do amor. Neste livro
ela está, e Eu...
Oh! Isso é que eu quero! E
conhecerei a Deus, e terei tudo se o tiver. Dá-me este rótulo, ó rei, e eu
serei feliz.
Mas em dinheiro, ele não tem
valor. Aquele menino é bobo. Ele não sabe ler, e quer um livro! Não é sábio, e
não quer instruir-se. É um que não tem nada, e não nega os tesouros.
Eu me esforçarei para possuir
o amor, e este livro me ensinará. Que tu sejas bendito, ó rei, pois me estás
dando o modo de não sentir-me mais órfão e pobre.
Pelo menos adora-o, como eu
fiz, se crês que te tornaste tão feliz por meio dele.
Eu não adoro o homem, mas a Deus, que o fez tão bom
assim.
Este menino é um verdadeiro sábio em meu reino, ó homem, que usurpas a
fama de sábio. Tu te tornaste embriagado pelo orgulho e pela avidez, até o
ponto de pôr prática a adoração a criatura, em vez de oferecê-la ao Criador. E
isso, porque a criatura te dava pedras e obras humanas. E ainda não pensastes
que as pedras tu as tens, e que eu as tive, porque Deus as criou, e teus
rótulos raros, onde estão os pensamentos do homem, porque Deus deu ao homem a
inteligência. Este pequeno, que passa fome e frio, que está sozinho e que foi
atacado por tantas dores, e que seria desculpado e desculpável, se se tornasse
embriagado diante das riquezas, eis que o que ele faz é justamente dar graças a
Deus, por ter feito bom o meu coração, e não procura outra coisa, senão a
necessária: amar a Deus, conhecer o amor, para ter as verdadeiras riquezas aqui
e no além. Homem, eu prometi que te teria dado aquilo que tivesses escolhido.
Palavra de rei é sagrada. Vai pois, com as tuas pedras e os teus rótulos, são
pedrinhas multicores e, palha do pensamento humano. E vai viver, tremendo por
medo dos ladrões e das traças, os primeiros inimigos das pedras, e o segundo
dos pergaminhos. E ofusca-te com os fátuos brilhos daquelas escamas, e
desgosta-te com o dulçoroso sabor da ciência humana, que teve apenas sabor, mas
que não alimenta. Vai, Este menino ficará ao meu lado, e juntos nos esforçaremos
para lermos o livro que é amor, isto é, que é Deus. E não teremos esplendores
fátuos de pedras frias, nem o dulçoroso sabor de palha das obras do saber
humano. Mas os fogos do Espírito Eterno nos darão desde agora o êxtase do
Paraíso, e possuiremos a sabedoria, que fortalece mais do que o vinho, e nutre
mais do que o mel. Vem menino, ao qual a sabedoria mostrou o seu rosto, para
que tu a desejasse como uma esposa verdadeira.
E tendo mandado embora o
homem, tomou consigo o menino e, o instruiu na divina Sabedoria, para que se
tornasse um justo e um rei digno da sagrada unção nesta terra e um cidadão do
Reino de Deus depois desta vida.
Esta é a parábola prometida
aos pequeninos e, proposta aos adultos.
(O Evangelho como me foi
Revelado – Maria Valtorta, Vol 8, pgs 104,105,106,107,108,109)
A paz de Jesus.
Antonio Carlos Calciolari.

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